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Maurras, que completado por Leon Daudet é hoje uma espécie do "verbo em marcha", vai de fato arrastando a geração moça da França para a monarquia? Tive a impressão, do que vi em Paris em curtos meses, que sim. Por mais de um ano eu estivera em contacto com a literatura anti-revolucionária de Maurras; sabia-o mestre influente e inquietante. Mas nem assim me preparara para o choque da força enorme que é hoje a Action Française.
Amigos meus, que conhecem a França, não pela rama, como eu a conheço, mas na intimidade e até intimamente, asseguram-me que nisto de Action Française, me deixei estontear por um brilho falso e um ruído de caixas de charutos. O que é perfeitamente possível. É possível, que Maurras, Daudet & Cia. sejam na verdade uma dessas firmas que para disfarçar extremos de fraqueza fazem muita reclame e empregam muito homem-sanduíche.
Acabo de receber quase ao mesmo tempo, de amigos franceses, duas cartas contraditórias sobre esse tão atual assunto de Action Française. Parece que as escreveram especialmente para contradizer-se, estes dois apaixonados de pontos de vista opostos; mas o fato é que se não conhecem e um escreve de Paris e o outro de Montauban. Meu amigo de Paris segue os mestres da Action; lê gulosamente; fez o ano passado, sob a presidência de Maurras, uma conferência sobre o problema de descentralização na França; vai aos domingos à missa em Saint-Sulpice, que é onde vão Daudet, os devotos dos bairros aristocráticos e os rapazes da Sorbonne; e foi ele quem me ciceroneou por uma porção de cafés da rive-gauche, onde, entre goles de cerveja, prepara-se a salvação da pátria e recitam-se versos na "langue d'oc". Nessa "langue d'oc" um tanto parecida à nossa; mas de um sabor tão seu.
Meu outro amigo, de doce aparência de menino de coro, é entretanto um grande rebelde. Mas, há na sua filosofia alguma coisa daquele "absurdo demais para ser perigoso" que a polícia alemã encontrou em Stiner. Vive em altas leituras e avis rara na França, fora do pessoal dos hotéis: fala inglês e italiano.
Pois é este brilhante revolucionário que me manda dizer de Maurras coisas desoladoras. O grande mestre está perdido. De quanto escreve de Maurras o meu amigo, tem-se a idéia de que das barbas austeras do mestre escorre hoje o ridículo como de uma esponja que se apertasse com os dedos. Tudo isto, por quê? Ora, as sovas que os rapazes da Action Française andaram a aplicar a uns deputados da gauche. Os berros e o espalhafato dos camelots. E Maurras, com as suas barbas sisudas - conheci-o de perto: surdo como ele só no meio desses desmiolados. No meio deles, como se tivesse perdido de repente a noção do ridículo. Creio que meu amigo acharia tudo isto muito natural em Daudet. Porque Daudet, este, dá a impressão de ter posto a pele e o espírito numa Companhia de Seguros contra o Ridículo. Ele poderia amanhã descer o Boulevard des Italiennes nu da cintura pra cima com um rolo de Action Française debaixo do braço: escaparia ao ridículo. O que às vezes vale mais que escapar a insultos, desaforos e até sovas.
Voltando à carta do meu amigo: ele esteve há pouco na Itália. Voltou desolado com Mussolini e encantado com Papini e Pirandello. Segundo ele, Mussolini está contagiando a juventude italiana com o seu palavrório e o seu histerismo. E espantou-o o grande ódio dos italianos contra os franceses.
Meu amigo da Action é de uma família histórica; sua carta traz no envelope, sobre o sangue da obreia, a impressão de um anel d'armas. Pertence pelo sangue e pelo espírito à Action Française.
Essa Action Française - já o disse - pareceu-me ser hoje uma força enorme. Dá-lhe Maurras o máximo de tensão mental e Daudet, sua energia, sua malícia rabelaiseana, a irradiação de sua personalidade. O movimento deita raízes até pelos laboratórios: opõe a Darwin, Quinton. E aos filósofos da Revolução, da liberdade e da igualdade, opõe os da autoridade, da ordem e da hierarquia. Como diz L. de Montesquieu no seu "Les Origines et la Doctrine de l'Action Française", "l'ordre e la prosperité sociale réclament même certaines libertés et certaines egalités; mais elles veulent également de l'autorité et de la hierarchie".
Para filiar-se à Action Française há que tomar certos compromissos, dos quais os mais sérios são: combater todo o regime republicano e trabalhar pela restauração da monarquia na pessoa do Sr. Duque de Orleans. O movimento é simpático ao Catolicismo; Maurras é o que o Sr. Oliveira Lima chamaria um "católico histórico" ou por tradição; Daudet é católico prático.
Segundo a carta do meu amigo monárquico, é no meio duma França onde se vai aguçando "Ie dégoût pour les institutions parlementaires" que a Action Française desenvolve hoje seu esforço. Justifica as sovas nos deputados da gauche que andavam a insultar a memória de Plateau - o bravo "chef des camelots du roi" que uma rapariga matou no próprio escritório da Action Française. Mostra-se entusiasmado pelos discursos de Mussolini em quem surpreende "la grande influence Maurrassienne, anti-liberale, anti-revolutionaire et anti-democratique". Influência ou deformação.
FREYRE, Gilberto. 20. Diário de Pernambuco. Recife, 2 Set. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 302-304.
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