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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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O Professor John Burnet fez há pouco em Oxford uma conferência - na série "Romanes Lectures", de que foi este ano o encarregado - muito provocante e muito sugestiva; deve estar escandalizando a pedagogia oficial. Não a conheço de primeira mão; deram-me a conhecê-la uma notícia de jornal e reparos a lápis que lhe acrescentou um amigo meu, oxoniano.

Nessa conferência constatou o Professor Burnet o que me parece o maior perigo moderno: o declínio das aristocracias intelectuais.O Professor discursou exatamente no último refúgio desse ideal de cultura agora em crise: Oxford.

É o ideal que eu sigo. Neste Diário defendi-o uma vez. Defendi o ideal da alta cultura ao serviço do analfabetismo plástico e ingênuo do grande número, dos que por natureza são mais felizes obedecendo sem esforço. Meus amigos acharam muita graça nesse artigo; descobriram em mim um jeito delicioso para o paradoxo e para a malícia. E como eu saboreio elogios como quem saboreia bombons ou goles de curaçao" ou anisete faltou-me coragem para dizer a tão gentis camaradas que não havia no tal artigo nenhum paradoxo; nem ironia; nem malícia; nem humorismo bizarro. Naquele artigo, ou antes borrão de artigo, eu pusera, com a maior candura, idéias sinceras, idéias a que chegara pela tortura do meu próprio pensar. E aqui constato que o Sr. Agripino Grieco - ao meu ver o mais arguto talento crítico no jornalismo do Brasil de hoje - recentemente

expôs num jornal do Rio, sobre este assunto de ideais de cultura, idéias muito parecidas às minhas. Mas, infelizmente, para os gatos esfaimados que andam a farejar em quanto se escreve de superior ao que eles gatafunham, pedaços ou mesmo felpas de plágio - muito depois do meu artigo.

Do ideal de alfabetismo escrevi que o resultado era a mediania de cultura. Em vez dos desejáveis contrastes de puro branco e puro preto - tudo neutralizado em cinzento. Em vez dos extremos de alta cultura e ingênuo analfabetismo a completarem-se como os dois sexos - o ativo e o passivo, o intelectual e o instintivo, o aventuroso e o conservador - da vida nacional, uma assexualidade incapaz de criação e iniciação. Incapaz dum grande esforço. Da instrução universal resultam as Suíças, as Finlândias e o muito que têm de "bon enfant" os Estados Unidos. Democracias de cidadãos lavados, barbeados e bem penteados, irritantemente parecidos uns aos outros, medianos em tudo. Democracias onde não há trens especiais e os gostos e as idéias viajam juntos: as dos hoteleiros abraçadas às dos pedagogos. Democracias em cuja arte não se sente nem o sabor forte de "rhum" da energia rústica nem o gosto esquisito de "vespetro" da alta emoção ou da sutil análise.

No artigo do Sr. Agripino Grieco - que é uma inteligência diabolicamente aguda - vêm idéias parecidas a estas. Vêm em boa caligrafia, enquanto as minhas vieram em borrão. Mas as afinidades saltam aos olhos.

Para o Sr. Grieco a instrução universal é "irmã gêmea do sufrágio universal" e "outra quimera não menos perigosa". "A cultura" - acrescenta ele - "só se nobilita nos seres verdadeiramente superiores e estes mesmos são nefastos quando à ciência não casam a consciência." Eu falara no perigo da meia-cultura - que a isto tende forçosamente o alfabetismo total ou do grande número - - citando até um verso daquela passagem do Pope: "A little learning" etc. Fala o Sr. Grieco do "meio sábio", caracterizando-o como "o fruto de estufas cerebrais que se alastram com as denominações classizantes de liceus, ateneus e pritaneus" e achando-o "pior que o ignorante completo". Recorda ainda que foi "nos tempos em que a cultura era o privilégio de uma 'elite' os tempos em que apareceram os poetas e os pensadores mais característicos de todo um povo, os Alighieri, os Camões, os Descartes, sendo que os próprios filhos da plebe, quando se chamavam Shakespeare ou Boileau, sabiam ingressar sem esforço no templo da glória".

Muito justo me parece o íntimo parentesco que entre os daninhos ideais de "sufrágio universal" e "instrução universal" estabelece o Sr. . Grieco. De fato, os apologetas de um não se fartam de falar voluptuosamente do outro. O Sr. Fidelino de Figueiredo, no seu estudo sobre Rodó, fixa o sutil mas inútil esforço do uruguaio (em El Mirador de Prospero, se não erro) para conciliar "a cultura e o respeito da seleção social" com "as instituições democráticas". Resume Fidelino as idéias de Rodó: "E o caminho será, não destruir essa democracia, como Renan aconselhava, mas educá-la." Salvar a democracia, educando-a..

Soube o Fradique, de Eça, antecipar a insuficiência dessa ilusão em que todos os Rodós deixaram "s'embaler". Fradique queria para a Ciência uma espécie de sacro colégio intelectual. Que vem a ser isto senão o ideal duma cultura de elite?

Defendendo esse ideal, disse o Professor Burnet que na Inglaterra já se vão fazendo sentir os efeitos da democratização da cultura; a cultura universitária de hoje mostra-se inferior à de cinqüenta anos - bons tempos em que Mathew Arnold, com suas suíças vitorianas, falava em "sweetness & light". À experiência inglesa pode-se acrescentar, e com muito maior razão, a francesa: em La Farce de La Sorbonne o Sr. René Benjamin conta-nos da atual vida universitária na França fatos que parecem do Brasil. Pelos Estados Unidos vai também a "debacle" que há-de fixar a experiência democrática como intelectualmente infecunda. Ainda há pouco me escrevia a respeito o Sr. Henry L. Mencken, redator da revista "Smart Set" e espécie de Antônio Torres americano: "I believe that this steady degeneration is inseparable from democracy". Mencken não é espírito fácil de "s'embaler" com os contos da carochinha da sociologia democrática.

Na Inglaterra - onde aliás menos se transigiu com o ideal da democratização - o Professor Burnet quer uma alta e severa cultura que se ponha ao serviço das necessidades nacionais: "an intellectaul 'elite' whose first-hand knowledge is the only reservoir from which the needs of the many can be supplied". É a sociologia de São Paulo aplicada à função da cultura: os fortes a serviço dos fracos ou, no expressivo original grego, dos "arthenumatas".



FREYRE, Gilberto. 21. Diário de Pernambuco. Recife, 9 Set. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 305-307.

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