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Escrevendo-se no Brasil de assuntos de pura especulação ou pura ciência ou pura crítica, corre-se um perigo: o de ficar parado no gelo como os navios que se aproximam demasiado do Pólo Sul ou do Pólo Norte.Nisto de zonas de navegação mental o melhor, entre nós, é ir pelas águas mornas ou mesmo pelas ferventes. Sob o ponto de vista de glória pessoal e proveitos imediatos, são as ferventes as mais compensadoras.
O Sr. Pontes de Miranda não quis ficar nas águas ferventes; nem nas mornas; e, mal saído da adolescência, rumou às geladas. Há que admirar nele esta coragem rara. Heroísmo.
Mas foi feliz o Sr. Pontes de Miranda. Espantosamente feliz. Conseguiu criar para as idéias puras, em pleno país de bananeiras, um público relativamente numeroso, ainda que nem sempre discriminador, antes demasiado plástico e passivo.
É verdade que o Sr. Pontes de Miranda não chegou propriamente a nenhum dos pólos. Mas chegou às proximidades. E ninguém mais apto que ele para servir à nossa mocidade do que os ingleses chamam "middleman-interpreter" em assuntos de pura especulação e pura ciência. Ele conseguiu o milagre de criar um público para o que escreve: tem diante de si a rara oportunidade de fazer obra integral.
Porque há alguma coisa de antinatural em escrever-se sem público: é como se um sexo se bastasse a si mesmo. É onanismo mental. Ou ascentismo heróico, mas estéril. O autor é apenas o sexo masculino de sua obra, a qual não se integra nem se completa antes de achar público simpático ou congenial - o sexo feminino. O verdadeiro ler é função complementar da criação intelectual. É o que o Sr. Carl Van Doren chamaria "creative reading".
Sem esse público congenial escreveu por muito tempo Raimundo de Farias Brito. Tobias Barreto, se encontrou logo um público, é que de sua pena as idéias saíam condimentadas com umas sátiras de fazer sangrar. Ora, nesses condimentos sempre achou o brasileiro sabor especial. Tobias não foi só um agitador de idéias: ele fez com alguns dos personagens mais sisudos do segundo reinado o que no sábado de Aleluia fazem os meninos com os Judas de pano e pó-de-serra. Foi esse formidável jeito para a sátira que o salvou de clamar no deserto, num esforço infecundo.
Literatura de idéias puras, de ciência pura, de pura crítica - isto é ainda luxo para o Brasil. A alta literatura introspectiva ou de análise ou de especulação nada perderia entre nós em não ser impressa, bastando que os autores permutassem manuscritos.
Conseguindo público para a sua volúpia na "contemplatio cum labore, cum fructu" - para alterar um pouco a frase de Ricardo San Victor - o Sr. Pontes de Miranda fez entre nós milagre. Como? Sei lá! Favor dos deuses, talvez. E, no seu caso, favor que se vai exagerando. Já se diz do Sr. Pontes de Miranda que ele é um Augusto Comte. (Dr. Nuno Pinheiro, O Direito como Ciência Positiva na Obra Científica de Pontes de Miranda, Rio, 1923.) Sempre nos faltou medida no elogio. Vem daí a vasta incapacidade para a crítica que se não fartam de apontar em nós os observadores estrangeiros. O Sr. Isaac Goldberg, autor desse livro admirável que é Brasilian Literature, falava-me uma vez espantado do furor de confrontos na "crítica" brasileira. É velho entre nós esse furor. O bom do Marquês de Maricá andou comparado a La Rochefoucauld; José Bonifácio a Victor Rugo; Sousa Caldas ao Rei David; Joaquim de Macedo a Lord Byron; em Porto Alegre houve quem achasse versos dignos de Dante; o Visconde de Araguaia, nós sabemos de que alturas Tobias o fez rolar com a primeira bala "dum-dum" de sua crítica. Na Pequena História, depois de condenar esse furor de elogio despropositado, colocando mal nossos escritores "na companhia de alguns grandes nomes da literatura européia", o sutil Sr. Ronald de Carvalho fez coisa parecida, comparando, a Verlaine, Gregório de Matos."
O Sr. Pontes de Miranda vem sendo comparado a Comte; e virou Gênio - G maiúsculo - com uma facilidade espantosa. "Todo vitorioso é banal", dizia um amigo de Gonzaga de Sá. O Sr. Pontes de Miranda tornou-se aos 30 anos o mais banal dos vitoriosos. E isto graças aos seus amigos. Aos próprios amigos que fazem gala de senso crítico como o Sr. Alcides Bezerra. Ora, um nome vitorioso, sempre precedido de brilhantes adjetivos, dá-me a idéia de um enterro de primeira classe, muito bonito, muito rico, invejável até pelo seu luxo de grinaldas, mas a caminho do cemitério. Por isso, a ser embalsamado pelos elogios dos amigos é preferível ser maltratado pelas diatribes dos inimigos.
Não conheço acerca do jovem pensador alagoano uma só página de análise funda e sóbria. Tudo que se escreve a seu respeito é numa nota de exaltação. Por que não dizer, por exemplo, que há na sua obra muito palavrório lírico? Que há muito psitacismo em A Moral do Futuro, Sabedoria dos Instintos e Sabedoria da Inteligência? E muito oco de idéias disfarçado por muito brilho de retórica? Por exemplo: "A experimentação... é a grande mestra do Sábio e a segurança do espírito na luta pelo progressivo alumiar dos fenômenos do mundo". Isto é de discurso de colegial aliteratado. Ou: "No final todos têm razão: cantorianos e pragmatistas, idealistas e empiristas, o monismo e o pluralismo, porque o mistério das coisas é o uno no múltiplo." Semelhante episintetismo não é profundo nem original. Na Sabedoria da Inteligência vem descrito o oceano atmosférico para chegar-se à conclusão de que "também nós pensamos viver à superfície do globo", nós "para quem o lá em cima seria tão insuportável como as camadas superiores dos mares para os peixes das grandes profundidades". Lendo isto tem-se a impressão de estar lendo o Almanaque Bertrand. "Raríssimos" - escreve o próprio Sr. Pontes - "são os pensamentos que resistem à prova depuradora da soledade"; muitos dos seus aforismos não lhe resistem.
O Sr. Pontes de Miranda tem às vezes saborosos modos-de-dizer. Chega a expressar-se com superior plasticidade verbal. Sua página fixando a distinção entre ciência e metafísica é esteticamente deliciosa. Deliciosas são certas de suas "dissociations d'idées" em a Sabedoria dos Instintos. Por exemplo: páginas 74, 80, 97 e 106. Daí talvez chamar ao Sr. Pontes o Sr. Povina Cava1canti: "um Apolo perdulário dos segredos de sua arte, que renunciou à discrição de sua Eleusis mental."
Muito me encanta no jovem pensador brasileiro que ele não é só um espírito mas também um temperamento. Um temperamento muito amigo de si próprio. De um egoísmo nietzscheano. Sempre a vibrar do que certos psicólogos chamam empatia (do grego em-pathos), isto é, da delícia de encontrar-se o seu "eu" em tudo, a ponto de "só amar os deuses parecidos consigo". Não há nisto inconveniência para um pensador. É Miguel de Unamuno quem nos diz um tanto paradoxalmente que não há nada mais universal que o individual.
Dá-nos isto a esperança de que o Sr. Pontes de Miranda saberá ser só - uma quase isolada palmeira adolescente neste Saara que entre nós é a região das puras idéias. De um estudioso que escreveu em plena mocidade A Moral do Futuro; de um autodidata que soube, ainda moço, desinfetar os miolos da filosofia biológica, antecipando-se no matematicismo - hoje tão em voga com Minkowski e Einstein - e um tanto no estetismo; de uma vocação filosófica que se vai afirmando no mais hostil dos meios, é lícito esperar obras superiores e de forte cunho pessoal. .
FREYRE, Gilberto. 22. Diário de Pernambuco. Recife, 16 Set. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 308-311.
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