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Gilberto Keith Chesterton disse uma vez que as cidades falam por meio de sinais. Por meio dum como alfabeto de surdo-mudo. E estes sinais são seus palácios, suas catedrais, suas igrejas, suas estátuas, suas colunas.
Lembra-me que ao visitar Chartres recordou-me um velho cônego a interpretação de Huysmans: as torres de Nossa Senhora de Chartres são como os dois dedos de bispo erguendo-se para abençoar e perdoar. Huysmans antecipara Chesterton em dizer que as cidades falam pelos sinais dos seus dedos de pedra.
Há viajantes que chegando a uma cidade mandam rodar o táxi para a primeira tabacaria à procura dum indicador. Alguns chegam já munidos dum Baedecker ou dum Muirhead. E em vez de atentarem no que diz a própria cidade pelos seus prédios, pelos seus "chalets", pelas suas colunas, pelos sinais de todos esses seus dedos de pedra donde às vezes se erguem, como em Pittsburg, negros charutos de chaminés, contentam-se em ler o que diz o Baedecker ou o Muirhead.
Num lugar novo, o principal é compreender seus edifícios e suas estátuas. É o que procura fazer o viajante inteligente. Compreendidos os edifícios e as estátuas, mais fácil que compreender os homens, no seu gosto, na sua estética, na sua moral, nos seus hábitos sociais.
Há casas cujas fachadas indicam todo um gênero de vida nos seus mais íntimos pormenores. Todo um tipo de civilização. O "bungalow" americano é assim. Vendo-o, pensa-se sobretudo em conforto e na vida de família. Instintivamente se povoa seu interior de vasta mesa quadrada, dum candeeiro com o seu "abat-jour", duma estante cheia de romances e revistas e também dum Webster e duma Bíblia, de móveis simples e um tanto secos; e duma família parecida a esses móveis. Detrás do pórtico dum "bungalow" não se imaginam mulheres despenteadas berrando às criadas; nem meninos sujos besuntando de restos de geléia o teclado do piano; nem homens em ceroulas lendo preguiçosamente os jornais. Na pedra ou na madeira dum "bungalow" vivem poemas de Walt Whitman.
A casa colonial do meu amigo Sr. Othon Bezerra de Mello é outra casa assim: tem caráter. Recorda essas nossas casas de engenho, vastas e boas, na sua repousada brancura de cal. Faz sentir quatrocentos anos de vida pernambucana - social e econômica. Toda ela irradia uma hospitalidade ao mesmo tempo cristã e senhoril. Faltam-lhe apenas, ao meu ver, palmeiras que lhe dêem um mais doce ar tropical e mais intimidade.
Não agrada a muitos a linha sóbria dessa casa. Nada mais natura1. Num Recife que vai todo virando confeitaria, a arquitetura sóbria dos nossos avós se torna estapafúrdia. O que se quer é o arrebicado; o açucarado; o confeitado. Huysmansnismo de segunda mão a todo o pano. E desse furor não parecem escapar os próprios edifícios eclesiásticos. Também eles se têm deixado arrebicar e salpicar de confeitos.
Tudo isso fala - toda essa nossa arquitetura de confeitaria. Revela os homens: sua vida, sua moral, seu gosto. E falam também os móveis, como ainda anteontem me fazia notar o Sr. Carlos Lyra Filho, ante um desses sofás Pedro II que parecem acolher os amigos da casa com o mais sincero "bom-dia" deste mundo, convidando-os a estar a gosto e prometendo café ou vinho de genipapo. As modernas cadeiras muito mal dizem "bom dia". Não convidam ninguém a sentar-se. Elas próprias parecem querer sair. Dão toda a idéia dessa intranqüilidade que nos leva a viver mudando de casa. O brasileiro é talvez a gente que mais muda de casa. Mudar de casa - já o escrevi uma vez - é no Brasil o grande "sport" nacional da gente grande. O dos meninos é mudar de colégio.
Quanto a estátuas, vem o Recife ultimamente povoando-se delas em grande abundância. Logo diante da massa de arquitetura bancária, que primeiro se avista dos transatlânticos e a que o prédio da Associação Comercial dá uma tão viva nota rococó - ergue-se a estátua de Rio Branco. Fita o mar - espécie de Rei Canuto diante das ondas. Parece dizer em seu nome e no de suas irmãs, as outras estátuas e os bustos de "pince-nez" de arame: Rumo ao mar! Rumo a esse mar acolhedor, hospitaleiro e bom!
E é possível que uma noite dessas, à meia-noite - que é a hora oficial para essas coisas _ notívagos sugadores de whisky, vagando pelas ruas de chapéu para a nuca e com sono, vejam rumar o cais Alfredo Lisboa, para um suicídio em grosso, todas as nossas estátuas. Aliás o convite da estátua do Barão parece estender-se a todo o Recife novo. Aos prédios novos também e não somente às estátuas.
FREYRE, Gilberto. 24. Diário de Pernambuco. Recife, 30 Set. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 315-316.
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