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De Loti, não sei quem disse uma vez que era na vida "un oeil". "Un oeil" e nada mais.
Há pintores assim: todo olhos. Grandes olhos. Olhos voluptuosos. Olhos enormes. Olhos com fome. Olhos gulosos de sol. E de cor. E do nu. Mas olhos e nada mais.
Depender dos olhos, e só dos olhos, é limitar-se o pintor ou o escritor ao sensualismo. Ao sentido que é o aristocrata dos sentidos, mas ainda sentido. Ora, deliciosa coisa pode ser a arte dos sentidos. A arte da volúpia sensual. Mas não tão deliciosa nem tão alta como a da volúpia mental.
Mesmo quando se possuem olhos-estômagos, como os impressionistas, continua-se em última análise a depender principalmente dos olhos. O Impressionismo faz dos olhos não só duas bocas abertas numa grande fome de beleza, mas, ao mesmo tempo, um estômago que digere quanto os olhos recolhem da superfície das coisas aquelas bocas famintas.
É outro o caso da pintura desse Sr. De Garo, agora em Pernambuco e talvez o pintor mais espiritual que já pôs pé no cais Alfredo Lisboa. Daí o muito que lhe acham de inquietante. O muito que nesse pintor agudamente mental faz rir a foule, mesmo a de casaca.
O gozo do seu desenho agudo depende muito mais da nossa capacidade de abstração que dos nossos olhos. Tudo nas suas telas e nos seus "caprichos" é pretexto para uma idéia: um coqueiro, uma onda, a boca duma mulher. O que o preocupa é conseguir a abstração pela plástica. E ele nos leva um pouco a essa região sutil da ideoplástica, somente acessível aos que não sofrem a vertigem das alturas. Os quais - digo-o com todo o respeito pelo pudor dos simples - são reduzido número.
Em toda parte é a última arte a democratizar-se, essa das idéias. Ainda é recente o caso de Rodin. O escândalo do seu "Balzac". E Stephane Mallarmé como Jules Laforgue e o próprio Richard Strauss continuam a ser, para o grande número, esquisitões de duvidoso valor. Ainda há muito quem ria de Wagner como de um polichinelo cheio de guizos.
Esse ainda tão jovem europeu agora no Recife é assim: um torturado de ânsias mentais. Difícil, portanto, de democratizar-se. Tudo na sua pintura é ansiosamente pensado. Ou esquisitamente sentido. Para ele a natureza não passa de pretexto. Aos seus olhos os objetos tomam a plasticidade de cera. Tornam-se bolas de cera. Bolas de cera, que a sua mente criadora plasma a seu jeito, num desejo que às vezes se aguça em tortura, de intensiva expressão de idéias. Dir-se-ia que dos seus olhos sai um fogo. O qual dissolve massas, cores, linhas, volumes. E adeus, fotografias coloridas!
Que o público, mesmo o que veste casaca e gosta de música e volta à casa assobiando restos fáceis de operetas, não compreenda nem o desenho nem a pintura nem os "caprichos" do Sr. De Garo, é a coisa mais natural deste mundo. Seria natural em Buenos Aires. No Rio. E em Roma até. Ou Paris.
A arte de idéias como a literatura de idéias exige certa disposição para pensar que é dos hábitos o que mais dificilmente se improvisa. Principalmente aqui entre estas nossas bananeiras. E cajueiros. E jaqueiras. Tudo isto amolece deliciosamente, tira-nos, a tensão mental e convida-nos a volúpias mais fáceis. Às fáceis orgias dos sentidos. À dança comum. À oratória. À retórica. À música de Verdi. Aos romances do Sr. Vargas Vila.
É uma natureza, essa dos trópicos a espreguiçar-se toda pelo chão dolentemente e a intoxicar-nos dum como suor viscoso de sexualidade. No meio dela o puro pensar é como uma tortura de virgindade de adolescente. De virgindade supliciada. E aqui só os heróis pensam. E são ainda heróis os que se interessam pelas idéias. Há alguma coisa de heróico em ler um soneto de Mallarmé ou uma página de Browning ou de Lessing à sombra maternal duma jaqueira.
Lafcadio Hearn - que foi como Loti "un oeil" - dizia dos trópicos que lhe tiravam de todo a capacidade de pensar. Por isto ele amava os trópicos voluptuosamente. E é a delícia da nossa natureza, a de servir de sanatório aos cansados de pensar.
Muito natural me parece em face de tudo isso o fracasso entre nós do Sr. Nicola De Garo. Não é que o Recife seja uma cidade mais estúpida que as outras: é que o Recife é uma cidade tropical, cheia de sol, de luz e de suor. Isto - que é alguma coisa para um pintor - e nada mais.
Natural, em nós tropicais, a obsessão pela cor. E o desdém pelo desenho puro. Pelo desenho sombrio. Intelectual. E, no caso do Sr. De Garo, dum sabor clássico só imperceptível para os que não distinguem entre sabor e ranço. Entre ortografia e literatura. Entre colocar pronomes e escrever. O desenho do Sr. De Garo, seguindo um ritmo muito seu, segue também aquela "consonantia" e aquela "claritas" e "integritas" de que nos fala São Tomás de Aquino como "ad pulchritudinem iria requiruntur".
Aliás ao Sr. De Garo não falta a volúpia da cor. Não lhe falta, nem lhe podia faltar, a ele que é um místico, essa nota fluida de emoção. O Sr. De Garo é um místico; e deve passar horas e horas olhando para dentro de si; e outras horas olhando para o Calvário. O sangue de Nosso Senhor é nele uma preocupação. Quase uma obsessão. O sangue de Nosso Senhor - esse sangue que salpicou de largas manchas rubras as rosaças medievais; e dum roxo triste certos livros de horas, como o Maximiliano que Dürer tão pungentemente ilustrou. Ilustrou-o povoando-o todo de idéias, algumas dum trágico-grotesco parente do de Beardsley, como o daquele médico a analisar a própria urina.
Por que escrevi tanto do Sr. De Garo? Porque nesse espírito ansioso de pensador e de místico há alguma coisa que rima com o meu. Pelo que, escrevendo dele, escrevi um pouco de mim mesmo. O que é sempre um prazer.
De modo que estas notas não são para iniciar ninguém no que engraçadamente se anda aqui a chamar o "futurismo" do Sr. De Garo. Nem por me considerar - ai de mim! - crítico profissional de arte, e com responsabilidades, no caso dos pintores que aqui estréiam, semelhantes às das parteiras, no caso de crianças que estréiam na vida.
FREYRE, Gilberto. 25. Diário de Pernambuco. Recife, 7 Out. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 317-319.
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