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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Estive outro dia a imaginar um café ao meu jeito para o Recife. Café ou confeitaria. Ou mesmo restaurante. Um café ou restaurante ou confeitaria que possuísse cor e característica locais. Que possuísse atmosfera.

É verdade que isso de atmosfera não se improvisa. É como os gramados de Oxford. Os quais levaram séculos a apurar-se. Desaparecido o velho Recife, será talvez impossível enxertar no novo, cuja arquitetura de anjinhos e confeitos não vai conservando o espírito daquele, o café ou o restaurante da minha visão.

Há um prêmio a que o Brasil deve concorrer na próxima exposição internacional. É o de devastador do passado. Devastador das próprias tradições. Nós as temos devastado e continuamos a devastá-las com uma perseverança digna de um "Grand Prix". Com uma fúria superior à dos "Dadaístas": uns pobres teóricos.

Parece que só em Ouro Preto nos resta hoje do Brasil brasileiro dos nossos avós uma ciddade ainda verdadeiramente de pé. O que faz daquele lugar tão morto um como santuário, uma como Lourdes, uma fonte de águas vivas para os que nos sentimos feridos quase de morte no mais Íntimo da nossa personalidade nacional. O contacto com os restos de Igaraçus e Olindas a apodrecerem por aí, já não purifica ninguém. E entre um povo que assim devasta o seu passado, não é para surpreender a falta de características nacionais ou locais nos próprios cafés.

Entre povos mais viris os cafés fazem sentir ao estrangeiro um pouco e às vezes muito da vida local ou nacional. Nada mais alemão que esses deliciosos "Biergarten" e "Bierhallen" de Munich, com as suas vastas pipas de cerveja e o ar todo cheio da fumaraça dos cachimbos de louça. Em Paris, num café da "rive gauche" - o "Soufflet" ou o "d'Harcourt", por exemplo - sentem-se na atmosfera, com o cheiro de "cognac" e o de suor, os hábitos, as qualidades, os vícios até, do parisiense. Há em Paris cafés que serviram de escola e continuam a servir de escola para muitos rebeldes à rotina da beca. Há mestres que pontificam em "cafés", bebericando seu absinto. George Moore, esse como irmão mais moço de Wilde - um Moore que talvez ninguém conheça no Brasil - confessa que um café de Paris, um café da praça de Pigale, o "Nouvelle Athenée", foi sua Oxford. O que certamente terá provocado o maior dos escândalos entre as negras becas de Oxford. É verdade que antes de Moore, um certo Robert Louis Stevenson, desdenhoso de Oxford como de um burgo podre, passara muito de sua mocidade a preguiçar pelas tavernas e pelos cafés nesses doces vagares e nesse mole langor de convalescente, que lhe permitiram vencer por tanto tempo os direitos da tuberculose sobre seu corpo franzino de criança.

Nos Estados Unidos, O. Henry vivia nos cafés de New York e New Orleans. Nesse seu preguiçar pelos cafés é que obteve a matéria virgem em que soube deliciosamente recortar tantas efígies: detetives, coristas, "hoboes", capitães irlandeses, caixeirinhas, generais e coronéis da América Central. Eu próprio conheci em New York, numa taverna de subsolo, certo "Don Señor el General" parecido aos Ramon Angel de las Cruzes y Miraflores, de O. Henry. Dele ainda me foi parar às mãos, em Oxford, empolada proclamação em nome da Liberdade. Bom Dom Quixote - esse, de quem muito aprendi.

Em New York a vida de café limita-se a certos grupos - intelectuais, estudantes, modelos, "hoboes". A vida de "club" supre a de café entre os burgueses. Em Paris, ao contrário, não havendo quase vida de "club", dificilmente se encontra quem não vá à tarde ou à noite ao café, para sua hora de cavaco ou de gamão. Em "La Rotonde", nesse, a mais breve, meia-hora diante dum "bock", é uma meia-hora de estudo fácil. Estudo de tipos. Os mais diversos tipos passam pela "Rotonde": russos, japoneses, italianos, americanos e espanhóis. As mais diversas efígies, da cabecita ruiva dum modelo à cara angulosa dum inglês. Barbas formidáveis derramam-se pelas mesas. Barbichas de sátiros repontam de rostos insolentes. Entra um japonês ainda jovem e de rosto apenas salpicado por uma felpa muito negra de bigode: é Foujita. Passa um hindu com o ar de quem quer magnetizar os outros. Vicente do Rego Monteiro faz à toa uns calungas num papel. Lêem-se jornais de toda parte, menos do Brasil. À porta, um velho de dentuça podre às vezes distribui papeluchos sobre "maladies intimes".

Na Inglaterra o "club" - que naturalmente criou raízes entre um povo onde a camaradagem é só entre iguais, evitando-se esnobemente a promiscuidade dos cafés - faz do café uma instituição secundária. Em Oxford está-se nos botequins e nas cervejarias como um "sinful enjoyment" - numa volúpia pecaminosa - o ouvido atento ao primeiro frou-frou das sedas negras do síndico. Há entretanto em Londres em Dean St., no bairro dos teatros, um grupo interessante de "restaurants" pequenos. De um deles era cliente, durante seus dias na Inglaterra, o Sr. Antônio Torres e aí estivemos juntos umas vezes, em jantares espiritualizados pela sua espantosa "verve" rabelaiseana.

Nessa mesma Londres conservam-se tavernas e "coffee-houses" onde outrora jantaram, riram e passaram. boas horas de cavaco escritores e artistas ingleses. Shakspere - era assim que o poeta soletrava o nome - Donne, Ben Johnson, Goldsmith, o Dr. Samuel Johnson, Reynolds - foram freqüentadores de "coffee-house". O Dr. Samuel Johnson não faltava à sua, com aquele passo lento de urso ou de mulher grávida. "Ursus Major", chamou-o uma vez um poeta, Grey, cujos versos ele criticara, vendo-o arrastar por Fleet Street o corpo enorme de bom gigante.

Vejo, porém, que ainda não disse o que seria o tal café do meu jeito. Caracteristicamente pernambucano. Regionalmente brasileiro. Capaz de fazer sentir ao estrangeiro um pouco da nossa vida e do pitoresco local.

Imagino bem como seria semelhante café: uns papagaios em gaiolas de latas, côco verde à vontade pelo chão - não se serve côco verde nos cafés do Recife! - uma fartura de vinho de jenipapo, folhas de canela aromatizando o ar com seu pungente cheiro tropical. À noite, menestréis - cantadores! - cantando ao violão trovas de desafio; num canto uma dessas pretalhonas vastas e boas, assando castanhas ou fazendo pamonha. Ao seu lado, quitutes e doces, ingenuamente enfeitados com flores de papel recortado, anunciando uma culinária e uma confeitaria que constituem talvez a única arte que verdadeiramente nos honra. Isso, sim, seria uma delícia de café.

Atualmente, o que há é isso pelo avesso. Bonitas confeitarias como a "Bijou", é certo. Mas sem características locais. Sem atmosfera. Sem caráter.

Ao chegar ao Recife, guloso de cor local, um dos meus primeiros espantos foi justamente numa confeitaria, diante da hesitação de um tio meu em pedir um mate. Talvez não fosse "chic", o mate. Como não era "chic" pedir água de côco ou caldo de cana. Talvez até não nos fornecessem mate, como não fornecem nem água de côco nem vinho de jenipapo. Elegâncias. O "chic" era pedir um desses gelados de nomes exóticos. Esses sim, fazem supor refinamento de gosto. Elegâncias da "Fox-Film".



FREYRE, Gilberto. 26. Diário de Pernambuco. Recife, 14 Out. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 320-322.

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