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Numa grande biblioteca americana - dessas que espantaram o Sr. Guillaume Apollinaire e devem ter espantado o próprio Sr. Wells, delas não se exalando esse cheiro de cadáveres das "necrópoles de livros" detestadas, com razão, pelos modernistas - disseram-me uma vez que havia um compatriota meu, todo ocupado a escrever um livro. Nas bibliotecas americanas - bibliotecas-laboratórios - há em geral uns como corredores monásticos; e dando para esses corredores, salas de estudo, correspondendo a várias secções bibliográficas. Ora, nesse mesmo dia, entrando eu numa das salas de estudo, vejo rebrilhar sobre as páginas abertas duns livros, uma como bola de "foot-ball", ainda nova e oleosa: o tal compatriota meu, lustrosamente calvo a escrever seu livro. A secção era a de Gramática. O livro, mais uma gramática. Mais uma gramática portuguesa.
Haverá povo que tenha mais que o brasileiro a obsessão da Gramática? Duvido. A Ordem Gramatical nos inquieta muito mais que a Ordem Constitucional e mesmo a Pública. O purismo gramatical nos preocupa muito mais que a pureza do leite ou da manteiga. E qualquer dia desses vai aí aparecer novo Messias de fraque, berrando que a salvação da pátria está, não no Rumo aos Campos do Sr. Wenceslau Braz nem no Rumo ao Mar do Almirante Alexandrino nem no Rumo à Caserna do poeta Bilac, mas no Rumo à Gramática. E veremos o país salpicado de Ligas Pró-Gramática e um grande Congresso da Gramática reunido no Rio sob a presidência do Sr. Laudelino Freire e o problema da colocação dos pronomes discutido nas câmaras com o maior ardor deste mundo.
Nós vivemos numa obsessão verdadeiramente patológica da Gramática. O brasileiro, quando não escreve versos, escreve desaforos e, quando não escreve desaforos, escreve gramáticas. Vêm os escritores de gramáticas em terceiro lugar.
E que os labores de tão numerosos gramáticos não têm sido de todo infecundos, prova-o o haverem conseguido requintar a extremos angustiosos a gramática portuguesa, ouriçando-a toda de regras e sub-regras. Desses labores, eles próprios, os gramáticos - os de beca como os de fraque e os em mangas de camisa - calorosamente se felicitam; e a parte letrada da nação os felicita; e os patriotas todos os felicitam. Porque o fácil filosofar de todos é este: quanto mais complexa a gramática, maiores os recursos do idioma. O sempre maior interesse pela gramática seria para eles espécie de defesa sanitária do idioma. O que é espantosamente absurdo. É como se um cristão pretendesse melhorar a alma, expandindo o ventre. Não digo que o estado do ventre não afete o da alma. Nego que a elevação da alma dependa da expansão do ventre. E a gramática é apenas os sistema digestivo do idioma.
Fazendo honra de chamar a sua língua "a grammarless language", os ingleses e americanos são como esses ascetas todo ossos que se contentam em possuir de carne o bastante para servir de pretexto à alma. E a gramática inglesa - "a mais simples das gramáticas", segundo o filólogo dinamarquês Jespersen citado pelo Professor Brander Mathews - apenas serve de pretexto a uma grande alma: a anglo-saxônia. E na Inglaterra, como nos Estados Unidos, o estudo do idioma é muito menos a anatomia do seu sistema digestivo que a introspecção de sua alma. No estudo de Shakespeare, havendo matéria para infinitos labores de interpretação textual e gramatical como o problema das preposições um tanto parecido ao dos pronomes entre nós - se passa por tudo isso de raspão. Entra-se na obra formidável do poeta como numa catedral desdobrada em laboratório de psicologia. Muito ao contrário, por conseguinte, do que sucede entre nós: nos Lusíadas como na Vida do Arcebispo fazem-nos entrar, os mestres, de "maillot" ou em mangas de camisa, para os mais penosos esforços de acrobacia gramatical. Foi só depois de me haverem ensinado a ler Chaucer, Shakespeare, Dante, Swift - a soletrarlhes as idéias, a sentir-lhes as emoções e, sobretudo, esse ansioso preocupar-se deles com os problemas mais íntimos da vida - que vim a achar nos Lusíadas algo mais que uma sala de exercícios gramaticais. A horrível sala de ginástica onde tantas vezes entrara, menino, para minha hora de dura acrobacia cerebral. Aliás nessa acrobacia não fui mau aprendiz. O que me deixa à vontade para dizer mal desse nosso ignóbil hábito de transformar catedrais em pavilhões de ginástica.
Creio ainda que se deve atribuir à nossa obsessão pela Gramática o ser entre nós a crítica literária mais um horrível ofício de catar piolhos que uma função criadora e plástica da inteligência e do gosto. O crítico no Brasil, como em Portugal, é ainda o que abre um romance ou um livro de sonetos à procura de pronomes mal colocados, de erros no infinito pessoal, de falhas na metrificação. Mero guarda-civil da Ordem Gramatical. Mero mata-mosquito da Higiene Gramatical. E à luz fumarenta da gramática é que o Sr. Osório Duque Estrada, por exemplo, faz entre nós seu arremedo de crítica, numa despreocupação soberana pelo sentido íntimo das coisas. Não discuto, antes respeito, os méritos do Sr. Duque Estrada no distrito da Gramática. O que lhe nego é sensibilidade, é gosto, é acuidade, é o sentido plástico reunido à capacidade de abstração, é o "artistic temperament" de que nos fala Wilde, repetindo seu querido Pater. Ora, sem nenhuma dessas coisas, pode-se muito bem ser mestre de Gramática; mestre de crítica, é que não. Está, entretanto, fora dos propósitos deste artigo tão à toa, ocupar--me de crítica literária no Brasil. Onde apenas vejo esboçar-se uma grande vocação de crítico na arte ainda em flor e no gosto ainda a aguçar-se do Sr. Agripino Grieco; e vocações menores nos Srs. Gilberto Amado, Tristão de Athayde, Antônio Torres, Andrade Muricy e mesmo no Sr. Ronald de Carvalho. Afirmação, não vejo nenhuma. Em Portugal, há o Sr. Fidelino de Figueiredo, cuja obra ainda por acabar já assumiu na literatura crítica da nossa língua o relevo duma catedral.
Voltando à obsessão da Gramática poderia ainda dizer que entre nós ela se estende às artes plásticas. As quais têm todas sua gramática. Havendo um classicismo gramatical na pintura semelhante ao que existe na literatura. Semelhante classicismo gramatical é que muitos confundem com espírito clássico.
FREYRE, Gilberto. 27. Diário de Pernambuco. Recife, 21 Out. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 323-325.
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