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Max Stirner, Nietzsche, Proudhon, George Sorel, Wilde, Ibsen, George Bernard Shaw - esses escritores meio satânicos da Negação e da Contradição, fazem-nos um bem ou nos fazem um mal passando pelo espírito? E abalando-nos no nosso sentido da vida com os seus paradoxos inquietantes ou insólitos? E levantando diante de nós problemas e subproblemas?
Aproximemo-nos do assunto doutra maneira: deve haver lugar numa cultura bem regulada para a literatura de negação e contradição? Fará bem ou fará mal às nossas convicções deixar que nô-las ponham pelo avesso em duras provas de resistência? Haverá ou não benefício em deixarmo-nos examinar, à voz dum Nietzsche ou dum Stirner travestido em inspetor de saúde, nos mais íntimos valores intelectuais, morais e estéticos de que vivemos?
Creio que deve haver lugar na nossa formação da individualidade para esse tipo de literatura. Principalmente antes dos trinta anos. Antes dos trinta anos, escreveu o Sr. George Bernard Shaw, é que todos devemos ser revolucionários. O que eu próprio aceitaria se não suspeitasse nessa palavra "revolucionário" o sentido parcial de Revolucionário. De filho da grande Revolução Francesa.
É na adolescência que, ao primeiro beijo porventura pecaminoso dum paradoxo insólito, se nos abre o espírito - a noção de valores tradicionais de moral e estética de que vínhamos placidamente vivendo - ao embate das negações e contradições radicais. Repete-se em todo adolescente de natureza superior o drama de São Frei Gil: - aquele como "primeiro beijo de namorada", aquela "Voz do Proibido", vem provocar no adolescente anseias de curiosidade e opinião própria quanto aos grandes problemas da vida. E haverá cultura digna desse nome sem ter sofrido nos seus mais íntimos valores a tortura aguda mas purificadora das grandes negações? Não me refiro, é claro, a essas negações e contradições de mero brilho exterior, essas extravagâncias, que ao Bispo de Cleyne, esse argutíssimo George Berkeley que escreveu os Três Diálogos entre Hylas e Philenous, tanto repugnavam.
A verdadeira cultura sentirá mesmo, pelo menos no seu período de formação, certa necessidade da literatura de negação e contradição. O processo da cultura pode-se, com alguma irreverência, comparar a um jantar no qual a "hors d'oeuvre" picante aguça o desejo das "entrées" confortadoras. São Tomás de Aquino é muito mais confortador depois duma "hors d'oeuvre" de Nietzsche ou Stirner.
O que é idiota ou pelo menos extravagante é contentar-se um indivíduo com a "hors d'oeuvre", no seu jantar ou na sua cultura. Mas, por outro lado, um jantar sem "hors d'oeuvre" é deficiente, incompleto, faltando-lhe o estímulo.
Que me perdoem esse mesclar indigno dos interesses da alma com os do ventre; mas como resistir a afinidades com que tantas vezes se nos apresentam os mesmos interesses?
Quanto aos escritores cuja negação e contradição expressam não uma quase revolta contra certos instintos da espécie, como Nietzsche, mas contra os excessos de certas épocas, como William Morris, Ruskin e Barbey d'Aurevilly contra o industrialismo e a democracia estúpida do século XIX; com eles o caso é outro, podendo ser mesmo "escritores-entrées". Porque o fato é que o próprio Jesus foi uma negação de muitos valores de sua época; e sob o ponto de vista dum judeu daqueles dias, há mais paradoxos de moral em duas ou três parábolas de Jesus, que paradoxos de estética, para o burguês moderno, em toda a obra dum Wilde ou dum Cocteau.
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(*) Houve um lapso na numeração, tendo sido omitido o n.º 28.
FREYRE, Gilberto. 29(*). Diário de Pernambuco. Recife, 28 Out. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 326-327.
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