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Uma vez, em New York, seguia eu devagarinho pelo Riverside Drive, quando - quem hei-de avistar, esguio e só, o porte firme e fácil do fidalgo e, ao mesmo tempo, esse ar um tanto distante dos contemplativos; que eu já surpreendera em Arthur James Balfour? O Senhor Francisco de Sales. O financista de Minas Gerais? Mil vezes, não! O Santo.
Ora, acerca do santo, eu estivera a ler toda uma tarde, no meio de octavos de lombada negra ou azul com inscrições a ouro, um estudo interessantíssimo. E aquele - pensei num instante - não é outro senão ele. Exatamente como o São Francisco que vem descrito no ensaio de Leigh Hunt, acerca de quem um amigo meu, Mr. Jorge D. Sotut, prepara em Oxford sua tese de Master of Arts. Não havia dúvida: era o Gentleman Saint.
Naquele tempo, um santo era para mim o mais distante dos seres. Chegara a conhecer um anjo: um santo, nunca. Imaginem, portanto, meu espanto diante de São Francisco de Sales. E logo quem - São Francisco de Sales!
Desnorteou-me a princípio a aparição. Ver-me assim de repente em face dum santo de carne e osso é, na verdade, para desnortear qualquer pessoa. Parei. São Francisco passou, com a maior fleugma deste mundo, um charuto apertado entre os dedos, ... Acalmando-me diante do sobrenatural, pus-me a seguir o santo, decidido a falar-lhe. Não conversara o Sr. Antônio Torres com Guilherme Tell e Judas? E o Sr. Monteiro Lobato com Camilo Castelo Branco?
Logo adiante, quando São Francisco se sentou num banco, naturalmente para gozar adoce paisagem do Hudson, aproximei-me, fiz uma mesura e tateando à procura de palavras sem saber ao certo como endereçar a meteórica figura, ia dizendo não sei o que, quando o santo, até então muito sério, acolheu a mesura com o melhor dos sorrisos e o mais amável dos bons-dias.
Já um tanto à vontade perguntei a São Francisco de Sales e chegara a New York miraculosamente ou como qualquer pessoa. Respondeu sorrindo que como qualquer pessoa: passara pelo exame da saúde, assinara os papéis de praxe... Gozara o delicioso ingênuo de tais praxes. Somente fizera uso da sua mística faculdade de volatilizar-se para escapar aos jornalistas.
- Ah, os jornalistas!
- Terríveis os daqui, principalmente quando vestem saias. E em toda parte a mesma coisa. É classe a que hoje envergonha pertencer.
Pus-me muito atento. Era um jornalista-mestre que assim falava. Mas - aventurei o reparo - Mr. Gamaliel Harding, presidente da maior das repúblicas, foi jornalísta... O santo melancolicamente sorriu.
Continuei, agora todo ancho: no Brasil, minha pátria, a República foi obra gloriosa de jornalistas. A espada do general Deodoro? Mero luxo, simples nota de pitoresco. A jornalistas devemos outras campanhas igualmente gloriosas; pela Abolição, pela correta colocação dos pronomes átonos, a defesa da nossa honra contra o imperialismo dos argentinos invejosos, idem contra as intrusões da galegada. . .
Todo tolerância, disse o santo ilustrado que tudo isso era talvez verdade, porém que, atualmente, o jornalismo brasileiro parecia concentrar seu esforço na arte de xingar ou xingologia, isto é,a arte de "injuriar, de insultar, de rebaixar o adversário mediante o emprego de vocábulos descomedidos, soezes, ignóbeis e sujos" palavras, acrescentava, do vosso Carlos de Laet.
- Ora, São Francisco, o Sr. Carlos de Laet! Mestre-escola caturra, velho lambareiro, um laudator temporis acti...
Então o santo, sem amargor, porém com muita firmeza, disse: o primeiro jornalista do Brasil, esse velho a quem chamais infantilmente caturra. Não, não é por ser Conde da Santa Sé que o digo. Há jornalistas-condes que não valem coisa nenhuma: apenas sabem traduzir do francês e mal. O Sr. Carlos de Laet este, não, é um dos velhinhos mais cultos que conheço; quando ele era menino ainda se estudavam no Brasil as humanidades. Porque no vosso rico país a mania é hoje do prático, resultado daquele furor imitativo dos Estados Unidos que Eduardo Prado de longe adivinhou. Imitam o superficial, o sensacional, o facilmente acessível, divulgado pelos cinemas, pelos caixeiros-viajantes e pelos estudantes que de cá regressam após um ano, sem saber inglês, mas de posse dum diploma de doutor em eletricidade ou bacharel em escrituração mercantil.
Esquecem-se que; em país algum, exceto a Inglaterra, são mais demorados que aqui, nos Estados Unidos, os estudos de cultura geral.
O santo demonstrava conhecimento íntimo das nossas coisas e dos nossos homens. Conservei-me em silêncio. Analisava-lhe agora os pormenores da fisionomia e do porte: a barba dum ruivo seco, o olhar ora duro, ora irônico, ora resignado; a elegância sóbria do fato azul-cinza. O well groomed, mas sem exagero nem requinte. Achei nele certo ar de família com aquele sisudo pedagogo de suíças vitorianas, Matthew Arnold, cuja velada ternura escapa a tantos.
Continuando, disse o santo fidalgo, a um tempo jornalista e conde, como o Sr. Carlos de Laet: temo parecer radical, mas ao meu ver o Brasil precisa duma ditadura honesta e enérgica, que estabeleça por lá o respeito de Deus e - da polícia. E um dos deveres dessa ditadura seria reduzir jornais e faculdades de Direito e Medicina ao mínimo, uns Cinco ou seis jornais, duas faculdades de Direito, umas duas de Medicina.
- Mas enquanto não vem essa ditadura messiânica, santo?
- Medidas repressivas. Quanto à profissão de imprensa exigências tão severas de habilitações intelectuais, morais e cívicas, que impusessem a esse ramo de atividade a célebre lei de Darwin, isto é, a sobrevivência do mais apto.
FREYRE, Gilberto. 2. Diário de Pernambuco. Recife, 29 abr. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 250-252.
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