Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



31


Numa literatura fácil, eu vinha, um desses dias, seguindo página a página o palavrório lírico modernista do Sr. Graça Aranha em Estética da Vida - quando de repente, já farto dessa filosofiazinha de alfenim, que hei-de encontrar à página 187? Todo um trecho forte, deliciosamente forte, desafinado do resto do livro, que é lamentavelmente medíocre. E leio o trecho, e o releio, e vou sublinhá-lo a lápis, quando me ocorre que o livro não é meu. E sucede que por causa desta só meia página deliciosa é possível que eu tome amanhã a coragem de gastar cinco ou seis mil réis no livro do Sr. Graça Aranha. Se o fizer hei-de perguntar ao livreiro por que não se inventa um processo de vender livros a retalho, à página.

O que nesta meia página deliciosa de Estética da Vida serve de assunto ao Sr. Graça Aranha é o "pragmatismo brasileiro". Em palavras mais líquidas: essa volúpia de ação material, esse furor de resultados imediatos que nos vem há anos empolgando. "Depois de ter sido uma nação paradoxalmente clássica - escreve o Sr. Graça Aranha - movida pelo humanismo e pela imaginação literária, eis o Brasil lançado no extremo da oposição à cultura intelectual. Há um pragmatismo que procura suplantar todo o intelectualismo".

O Sr. Graça Aranha não está só nesse seu ferir tecla de modo algum nova; nem a versar assunto virgem. O mérito superior de sua meia-página é que aí se congelam, numa síntese feliz, observações dispersas sobre o que é talvez o mais agudo mal do Brasil de hoje: a absorção dos interesses da alma pelos do ventre.

Já no livro de Bryce - esse Bryce que por aqui passou muito às pressas, numa pressa de fiscal experiente, contando os passageiros dum bonde - vem a respeito certa observação meio-irônica. Refere, Bryce (South America, Observations and Impressions) que as únicas escolas de que teve conhecimento no Brasil foram escolas de caráter estritamente prático: direito, farmácia, engenharia, minas, medicina, odontologia.

Feriu-o, sem dúvida, a falta aqui entre as nossas bananeiras, senão de miniaturas, de caricaturas ao menos dessas Oxford e dessas Cambridge onde a juventude inglesa aprende de beca a soletrar o grego e a ler o inglês ainda sem ossos de Godofredo Chaucer. Nada mais natural que semelhante espanto, num compatriota e quase contemporâneo do Newman que escreveu o forte apologético de Oxford e do humanismo em geral que é The Idea of a University.

Nos Estados Unidos as Harvard, as Yale, as Columbia, as Princeton constituem o que o Sr. Oliveira Lima chamou uma vez "a ingente fábrica de idealismo duma nação arrastada para os interesses materiais". Às vezes os interesses do ventre projetam até pelos claustros e yards das universidades, sua sombra monstruosa; mas a reação dos interesses da alma é certa. Daí o encanto com que de Harvard escreveu o escritor peruano Sr. Francisco Garcia Calderon: "Parece que ali não chegam os rumores da vida nova, o estrondo e a soberba dos reis industriais."

A decadência no Brasil do humanismo data da República; vem-se nos últimos anos aguçando. Aliás, nos últimos anos, em toda parte se tem feito sentir uma como crise geral do humanismo. O próprio laboratório especulativo ficou ameaçado de converter-se em simples usina pelo gramatismo vitorioso. Destilou-se sobre a metafísica muito ácido erosivo. Mas se sente já o sopro da reação. Principalmente em Croce, em Balfour, e na revivescência da filosofia tomista. Na Itália, um professor ilustre, o Sr. Sanarelli, acaba de iniciar verdadeira campanha contra a "ciência de fins imediatos e quase mercantis" e a favor da pura. Contra a ciência de usina; a favor da do laboratório. Na Espanha representa a reação contra a ciência de usina e fábrica, o Sr. Ramon y Cajal.

Certo, o humanismo não chegou no Brasil em tempo algum à flor aberta das artes liberais, desenvolvidas do trivium ou do quadrivium da Idade Média. Mas mesmo assim nossos avós e bisavós do Segundo Império foram homens de forte imaginação literária e certa cultura clássica. Estudavam-se com certo decoro as humanidades. Não havia anevrose do imediatamente útil.

Ora, a reação deve ser justamente contra essa nevrose. Faz-se agudamente necessária uma transmutação de valores, a favor dos da Alma, contra os do Ventre. Isto, a começar pelo ensino secundário. Impõe-se reabilitar entre nós o prestígio das humanidades, dos estudos inúteis. E deve ao meu ver esse cuidado anteceder os esforços ruidosos a favor duma instrução universal e dum ensino popular de duvidosa conveniência. Carecemos principalmente duma elite de alta cultura, sem a qual resvalaremos para o número dos povos inferiores.

Contra essa perspectiva não se venha alegar nossa superioridade de esforço material e técnico nestes últimos decênios, toda a nossa quilometragem de estradas de ferro e todo o nosso luxo de "water closets" de porcelana. Tudo isso é mera exterioridade; nada disso é criado, é próprio, é nosso. Nada disso identifica ou destaca uma cultura nacional.

Nós, brasileiros, estamos numa fase crítica da nossa formação.

Os interesses do Ventre vão levando vantagem. Somos uns voluptuosos da luz elétrica, do bonde elétrico, do fogão elétrico, do automóvel, do cinema. Por esses valores materiais vamos medindo as nossas forças. Só o imediatamente útil nos interessa. Vamos passando da escola primária às profissionais e aos cursos técnicos, num vôo sobre os preparatórios - essa caricatura das antigas humanidades. Querem os pais as escolas que lhes preparem os filhos para os exames ou para os empregos, o mais breve possível.

A expressão entre nós do industrialismo e do capitalismo - inevitavelmente nestes próximos anos - onde nos levará, dada nossa indigência de reservas de idealismo que sirvam de corretivo à volúpia de materialidade?

Nosso falado progresso nacional vai tomando o ar horrível duma civilização do conforto físico - espécie de edição melhorada e aumentada do 202 de Jacinto: bons elevadores, bons fogões elétricos, bons lavatórios, bons "water closets", bons automóveis. Não reagiremos em tempo?



FREYRE, Gilberto. 31. Diário de Pernambuco. Recife, 11 Nov. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 330-332.

Topo
Voltar Página inicial