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Artigos : Imprensa  



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"Que há num nome?" pergunta um personagem de Shakespeare. Que há num nome? devem perguntar desdenhosamente os prefeitos do Recife, ao mudarem, com um traço fácil de pena ou mesmo de lápis, os nomes de nossas ruas e praças.

Esse verbo "mudar" é aliás muito conjugado no Recife. Vive o Recife a mudar de casa, de profissão, de colégio. Ultimamente, quis até mudar de lugar, dando-se ao luxo dum terremotozinho, cuja realidade, entretanto, ninguém cientificamente apurou.

Mas sobretudo vive o Recife a mudar os nomes das ruas. Poderia mesmo sugerir-se que as placas com os nomes das ruas fossem entre nós de ardósia; e os nomes escritos a giz, bastando criar-se um lugar de calígrafo na prefeitura.

Um lugar? Vários lugares. E esses calígrafos seriam talvez gente mais azafamada que os reparadores dos sempre esburacados canos d'água ou dos nossos telefones de brinquedo.

Num simples nome de rua residem às vezes imensidades. Apagar um nome assim, seria destruir imensidades.

A importância dum nome de rua não está em que a rua se pareça exteriormente com o nome. Já se diz num fado antigo que "Vista Alegre é rua morta; a Formosa é feia e brava; a rua Direita é torta; a do Sabão não se lava."

Mas num nome antigo de rua - ou melhor, no primeiro nome duma rua - há sempre alguma coisa de íntimo e espontâneo e até poético. Alguma coisa daquela "alma encantadora", sobre que João do Rio compôs todo um livro fácil de reportagem.

Um amigo meu chegou a convencer-me outro dia de que o nome "Aflitos" deve desaparecer do mapa do Recife. De fato, na estrada dos Aflitos moram hoje burgueses regalados e felizes, cujas casas possuem "abat jour" e piano. Nada têm de aflitos.

Mas no dia seguinte passei pela estrada dos Aflitos a pé. E cheguei à conclusão de que deve continuar "Aflitos". Pois é possível que seus habitantes não vivam aflitos com aquela rua toda esburacada?

Havia no Recife ruas de nomes deliciosamente pitorescos. Basta recordar à-toa: Rua das Águas Verdes, Travessa do Quiabo, Beco do Catimbó, Cruz das Almas, Ubaias, Beco da Facada, Rua das Crioulas. São nomes em que se sentem sugestões de poemas.

Hoje a Rua das Crioulas é rua - ou avenida? - Numa Pompílio. E o nome solene de Numa Pompílio dá ali a idéia de colado a goma arábica sobre o legítimo - tão ingênuo mas tão de acordo com o tédio moroso e lângüido daquela rua batida de sol. São nomes intrusos, os improvisados e impostos pelos conselhos municipais.

Rua das Crioulas, Estrada das Ubaias, Rua das Águas Verdes são nomes com a ingenuidade, o sabor, o colorido, o sem-esforço dos primeiros nomes. Nomes quase espontâneos. E é injusto que um nome assim desapareça do mapa da cidade a um traço "non-chalant" de lápis oficial.

Ao Instituto Histórico, sempre tão atento aos embarques e desembarques, aos aniversários e às datas liberais, cabe opor-se a esse hábito execrável de mudar os nomes das ruas, de que há quinze anos parecem empolgados os nossos prefeitos e conselhos municipais. Porque o Instituto se propõe a zelar nossas tradições; e os nomes de ruas são tradições a zelar.

Ignoro, aliás, a quem se deve o ter a Rua da Imperatriz voltado a ser a Rua da Imperatriz de outrora, depois de toda uma série de revoluções onomásticas. E a Rua do Imperador a ser Rua do Imperador. Se é ao Instituto, parabéns ao Instituto.

E seria justo salientar que o atual prefeito, o Sr. Antônio de Góes - a quem é fácil perdoar o leão de ferro fundido e a ponte maracajada do Parque Amorim diante do seu continuado esforço em prol da arborização da cidade - se tem mostrado livre da nevrose de mudar os nomes das ruas.

Mas tudo que se diga no Recife contra a mania de "mudar" inconscientemente, à toa e a todo pano e a favor do hábito de "conservar" inteligentemente, nunca é sem atualidade. Pelo que me parecem oportunas essas reflexões.



FREYRE, Gilberto. 32. Diário de Pernambuco. Recife, 25 Nov. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 336-337.

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