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Artigos : Imprensa  



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Pergunta-me um estrangeiro por que no Brasil se fala sempre berrando. Dentro de casa, na rua, nos cafés, nas câmaras, lendo, discutindo, conversando, discursando, mercadejando - berra-se sempre no Brasil. Entre nós o próprio cavaco dá a idéia do exórdio de uma luta de sopapos entre estivadores.

Naturalmente, não desejo assumir o ar de um professor de estética da acústica; e prefiro atribuir esse nosso mau hábito de falar gritando a uma natural tendência do homem para afinar com a natureza não só a voz como a moral e o gosto. E a nossa natureza, que nos ensina a todos, na sua indisciplina selvagem, senão a berrar? É a mais tumultuosa das naturezas. Tumultuosa é a matéria brava; tumultuosos são os rios, as grandes massas d'água, sobretudo essa formidável cachoeira alagoada a cujo ruído parece afinar-se todo o nosso furor declamatório. A literatura brasileira - salvando uns raros desafinados - parece escrita para ser lida aos berros. O Sr. Coelho Netto escreve berrando: o tumulto de suas assonâncias dá dor de ouvido. É preciso tapar os ouvidos com algodão para ler o Sr. Coelho Netto. E Alencar. E Castro Alves. E Ruy. E o Sr. Pinto da Rocha. Todos gritam escrevendo.

De todos eles se pode dizer o que de Hall Caine escreveu Oscar Wilde: que de falar tão alto chegara a ninguém lhe perceber as idéias. Idéias, no caso de Caine; palavras - sugere brilhantemente o Sr. Lins do Rego - no caso dos nossos líricos.

Aliás a literatura no Brasil começou logo aos berros. Isso de "débeis vagidos" com relação aos nossos primeiros esforços literários é conversa. Foram berros. A Prosopopéia são noventa e quatro estrofes de rumores bárbaros que a oitava rima não consegue comprimir nas suas dobras hieráticas.

Somos a Stentorlândia. Aqui deveria o Bronzoni citado por Schopenhauer ter vindo buscar material para o seu De Rumori.

Schopenhauer nomeou uma vez os rumores que o irritavam: o estalo dos chicotes dos carroceiros, o ladrar dos cães, o choro dos meninos. "Rumores-assassinos-de-idéias" - chamou-os o autor de Parerga.

Vê-se, entretanto, que Schopenhauer morreu com os ouvidos virgens do agudo falar brasileiro. Falar .horrível. Estridente. Dá a idéia de gargantas que se vão partir. Principalmente o falar das mulheres. Notaram-no, com relação às nossas avós, viajantes europeus e americanos que aqui estiveram no século passado. Augusto de Saint Hilaire, Expilly, William Scully, Fletcher e Kidder. Seriam as avós piores que as netas?

Quanto a escrever berrando, o vício não é exclusivamente nosso, é meridional e notadamente ibérico. Se fosse possível fazer a cores um "mapa-mundi" dos vícios da estética nada mais natural que colorir a vermelho de fogo a Espanha, Portugal, a Provença, a Itália - pátria do Sr. Inocêncio Capa - e toda a América chamada latina, escrevendo: Hic habent Stentores. Um tanto à maneira do Hic habent leones dos cartógrafos medievais.

Na América Latina raros têm escrito sem berrar. Ocorre logo Amado Nervo, que este até intitulou En Voz Baja todo um livro delicioso; e foi um como Debussy, com a volúpia quase doentia da surdina, desgarrado entre stentores formidáveis do tipo do Sr. Vargas Vila. Apareceu no México ninguém sabe como. Desafinado do meio. Exatamente como Antero de Quental em Portugal; Machado de Assis no Brasil; Augusto dos Anjos na Paraíba.

Machado de Assis no Brasil. Se um pedaço de gelo se deslocasse um dia do Pólo Norte, vindo parar, indiferente ao sol e à gulf stream, nas nossas águas ferventes - ainda assim não se teria produzido fenômeno mais estranho que o de Machado de Assis no Brasil. Mulato, epilético, brasileiro - tudo isso, e ainda assim escrevendo sem berrar. Emerson o teria amado como a um irmão.

Ninguém foi mais inimigo do berro que Carlyle, nem mais delicioso apologeta do silêncio. E era da toda hierática Inglaterra vitoriana e dos Estados Unidos da geração dos Lowell, dos Holmes e até dos Emerson que Carlyle escrevia no seu inglês pungente, "were going all off wind and tongue". "É grande a necessidade - são palavras suas no único discurso de sua vida - de nos tornarmos um pouco mais silenciosos do que somos". E contra Demosthenes, lançava Phociano, antecipando a Sra. Montessori.

Esse Carlyle que assim falava da Inglaterra dos Browning e dos Estados Unidos dos Lowell, seria ou não tentado aos extremos do suicídio ou homicídio se aqui tivesse vindo parar? Verlaine aconselhava que se torcesse o pescoço à eloqüência: e Carlyle era homem para pôr em prática violências dessa ordem.

Uma tarde, na Inglaterra, num chá de inn, estando eu a ler um Punch entre goles de chá, surpreendi uma cena interessante: vi uma senhora inglesa pedir a dois estrangeiros o obséquio de conversarem menos estridentemente. Em Oxford conversa-se quase à surdina. E nenhum inglês refinado deve vir ao Brasil sem lunetas esfumadas contra o sol e bom algodão para tapar os ouvidos contra o Berro.

Direi em conclusão que o Berro me parece o último refúgio da fraqueza intelectual. Daí meu pouco entusiasmo pelos grandes oradores, a começar por Cícero. Por que se elogia tanto esse Rei do Berro em quem Montaigne debalde procurou algo mais que sopro de vento? Por que se lê Cícero nas escolas em vez de Thomaz de Kempis?



FREYRE, Gilberto. 33. Diário de Pernambuco. Recife, 2 Dez. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 338-340.

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