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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Um deputado pernambucano, o Sr. Luís Cedro Carneiro Leão, quer ver estabelecida no Brasil "uma inspetoria de monumentos históricos".

Se não erro, é este o sentido do seu projeto: que se entregue a uma organização oficial a defesa e o cuidado de quanto monumento ou alfaia histórica vai tristemente apodrecendo por aí. Defesa contra os tentáculos dos compradores estrangeiros. Os compradores estrangeiros de azulejos eclesiásticos em grosso. Os compradores estrangeiros que nos vão dilapidando as sacristias, os claustros, os interiores de igrejas e conventos, ante a perfeita "nonchalance" das autoridades eclesiásticas e dos institutos históricos e arqueológicos.

Nada mais oportuno que o projeto do Sr. Luís Cedro. Nunca nossos monumentos precisaram tanto de defesa oficial. O que do Brasil antigo nos resta hoje de pé está de pé por milagre. O gosto da antigüidade entre nós parece limitar-se a alguns senhores de fraque discutindo no Instituto Arqueológico o heroísmo republicano de Bernardo Vieira de Melo.

Quando em Olinda furou-se, roeu-se, esfuracou-se, dilapidou-se de azulejos a antiga Sé, para lhe dar o falso arrojo catedralesco de agora, os tais senhores de fraque continuaram a discutir, entre goles d'água, o heroísmo de Bernardo Vieira de Melo, frios como o gelo ante os horríveis ultrajes. Quem protestou foi um simples rapaz sem fraque em quem logo se descobriram insolências de garoto. Somos garotos insolentes todos os de pouco mais de vinte e de menos de trinta anos quando pegamos em delito de estupidez os de mais de trinta: É assim que os de fraque se defendem dos sem fraque.

Entretanto a que indivíduo de gosto o Recife novo não dá vontade dum "J'accuse" em regra? É o Recife novo uma obra inestética de engenheiros de que se envergonharia o mais rude "cementarius" medieval.

Se alguém quiser sentir todo o agudo contraste entre o Recife de agora salpicado de anjinhos e confeitos nos seus frontões e os dos nossos avós, alugue um bote ou uma lancha e de certa distância contemple estes dois vizinhos: o Arsenal e o edifício da Fiscalização Federal do Porto. O Arsenal - firme, puro, sóbrio; o edifício novo - rebarbativo, desgracioso, absolutamente sem caráter. A não ser que o tivessem edificado para sede de alguma federação de clubes de "foot-ball" com enfase de "foot". Ou para obter o áureo "Grand Prix" num concurso de Mau Gosto.

Entretanto é só por milagre que o velho Arsenal está de pé. Os construtores a cimento armado de braço dado aos fazedores de anjos - dando à frase, é claro, nova acepção - farejam-lhe gulosamente o local. E de fato: que delicioso lugar para um edifício do tipo da Associação Comercial!

À Inspetoria de Monumentos Históricos incumbiria proteger os edifícios como o Arsenal. E teria por certo de dedicar-se um pouco à obra difícil de restauração - isto é, retirar de certos edifícios antigos as espessas camadas de rebocos, estuques e argamassa restituindo-os à sobriedade ou à ingenuidade original.

Mas o que principalmente se impõe no Brasil é uma campanha que nos eduque no gosto da antigüidade. No gosto do nosso passado. Da nossa tradição.

William Morris, propondo na Inglaterra em 1877 a criação duma sociedade a que a do projeto do Sr. Luís Cedro em parte se assemelha, lembrava que se procurasse avivar por todos os meios o gosto da antigüidade. Morris queria sobretudo "awaken a feeling that our ancient buildings are not mere ecclesiastical toys but monuments of national growth and hope".

Desse seu apelo nasceu toda uma literatura de amor pelos velhos edifícios, pelas velhas igrejas, pelos velhos móveis - esses em que se sente a carícia das mãos criadoras do "magister in arte fabricaturae". E penso às vezes que foi essa literatura de ação - não só dos Morris como dos Ruskin - o que principalmente contrariou na Inglaterra e nos Estados Unidos a vitória absorvente da Máquina e do chamado Progresso.

Talvez em nenhum país se encontre hoje tanto amor pelas coisas antigas como na Inglaterra. Na Inglaterra - vi-o há pouco com os próprios olhos - são ainda numerosos os hotéis e "inns" sem luz elétrica: servem-se os hóspedes, como há cem anos, de círios de cera. Nas cozinhas de Oxford ainda se assam as viandas a espeto, à moda medieval. Como no tempo do Cardeal Wolsey.

Entre nós, impõe-se, como disse, uma campanha que nos habilite a contrariar um pouco a atual volúpia da novidade. Entre os meninos de escola, entre os rapazes de faculdade, entre os mais moços, que são os mais plásticos, deveria estabelecer-se um Dia do Passado. Ou da Tradição. Um dia em que nos recolhêssemos misticamente ao Brasil brasileiro dos nossos avós; e falássemos deles. Um dia de romagem aos edifícios velhos: tantos deles cheios de boas inspirações para bons edifícios modernos.

Na Inglaterra, a sociedade fundada por William Morris, com o concurso de escritores, artistas e aristocratas de gosto, cedo criou raízes de fundo e extenso prestígio. Tornou-se, segundo o Sr. Clutton Brook, "o terror dos arquitetos de fancaria de todo o país".

Deus queira que no Brasil tome corpo o projeto do estudioso deputado pernambucano: a Inspetoria de Monumentos Históricos. É um belo e útil projeto.

Quanto ao Dia do Passado, o Dia dos Avós, o Dia das Coisas Antigas - seria ao meu ver um grande bem instituí-lo. O passado é muito mais que a "contingência necessária" a que uma vez se referiu, num discurso brilhante mas exageradamente neófilo, o Dr. Amauri de Medeiros. E nós, povo jovem, orquestra a afinar-se, gente ainda sem ritmo nacional, mais que os povos estratificados necessitamos do culto do passado.

O instinto de criação alimenta-se do passado; só o de aquisição prescinde dele. Mas uma estética ou uma ordem política adquirida é apenas um empréstimo a 90%; não identifica um tipo nacional de cultura. Não representa nenhum esforço próprio, íntimo, interior, heurético. Não representa nenhuma energia criadora. Daí o ainda feder a goma arábica nosso regime político de 89; e o ridículo do atual "futurismo" dum grupo de rapazes em São Paulo.



FREYRE, Gilberto. 34. Diário de Pernambuco. Recife, 9 Dez. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 341-343.

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