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Do nosso último Imperador Dom Pedro II, pouco o que o Brasil possui de verdadeiramente esclarecedor de sua personalidade. Nenhum estudo, a seu respeito, do que os ingleses chamam "exhaustive". O que possuímos são retalhos de biografia; estudos ainda em borrão; simples notas a lápis, para uma futura reconstituição biográfica do que ele foi!
A falta não é por certo de matéria plástica que neste caso é das melhores. A falta é de escultores. E de gosto, entre nós, pela biografia. Uma forma, entre intelectual e artística, de biografia.
Excetuando Um Estadista do Império, Joaquim Nabuco, o Dom João VI, do Sr. Oliveira Lima, o Diogo Antônio Feijó, do Sr. Eugênio Egas e o Afonso Arinos, do Sr. Tristão de Athayde, que nos resta de literatura biográfica? Subentende-se, é claro, a exclusão do panegírico. Porque o panegírico é apenas a caricatura - no mau sentido - da biografia.
Dom Pedro II continua entre nós um meio-fantasma a interpretar. Dele se tem dito ou muito mal ou muito bem.
O Sr. Magalhães de Azeredo procurou recentemente dizer algo de equilibrado. E suas apreciações ganham por certo em espírito crítico ao ingênuo estudinho do Sr. Conde de Afonso Celso, que é antes obra de apologeta. Não conseguiu, entretanto, o Sr. Magalhães de Azeredo elevar-se acima do que um crítico inglês, o Sr. A. R. Orage, chama "necrofilia", no sentido de superstição da imaculabilidade dos mortos.
Sabor crítico, vamos encontrá-lo neste assunto de Dom Pedro II, em raras páginas: nas do Sr. Oliveira Lima, nas do Sr. João Ribeiro, nas meias páginas do Sr. Jackson de Figueiredo. Este parece ter aprendido com o Sr. Leon Daudet a reagir contra a "necrofilia"; e não raro leva a extremos a reação.
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro projeta uma vasta "Vida de Dom Pedro II". Mas é fácil de adivinhar a natureza e os limites de semelhante empresa.
Onde há muito retalho a recolher sobre a psicologia e a vida do último Imperador é nos livros de viagens de estrangeiros. Deles muito me vali para um "aperçu" que me dei uma vez ao luxo de tentar, da paisagem social do Segundo Império na sua fase áurea (1848-1862) e de que resultou um opúsculo, Social Life in Brasil in the midle of the 19th Century. E essa leitura de livros de viajantes mais me aproximou da personalidade de Dom Pedro II que outra qualquer leitura. Os livros de estrangeiros são às vezes a melhor crítica social de um país. Outras vezes, é certo, são a pior, dado o gosto de generalizar a limitada tabela de valores sociais de tantas pessoas que viajam. Há que saber lê-los.
Nos livros de viagens do período 1840-1888 há, como disse, muito que recolher sobre a personalidade de Dom Pedro II.
Os viajantes que o conheceram meninote ou mancebo fixam todos seu ar melancólico, seu gênio taciturno, sua simplicidade democrática. Gobineau chegou a fazer do moço imperador o herói de um romance.
O Conde de Suzannet - fidalgo francês legitimista - é quem mais seguro retrato parece traçar do imperador em botão. Acentua a gravidade e a tristeza do adolescente.
Estava-se então num Brasil em que menos ainda que no de agora não valia a pena ser menino - tão pouco se brincava e tão cedo se chegava à sisudez da gente grande. "À sept ans", escreve o médico francês Dr. Rendu que aqui esteve no meado do século XIX, "à sept ans le jeune Brésilien e dejá la gravité d'un adulte; il se promene majesteusement, une badine à la main, fier dune toillette que le fait plutôt ressembler aux marionettes de nos foires qu'a un être humain". Também Fletcher e Kidder, viajantes americanos da mesma época, notaram nos meninos brasileiros essa exagerada e meio-clownesca sisudez de adultos. De fato os que possuímos fotografias antigas de avós e tios, sabemos que o Dr. Rendu, Fletcher e Kidder não deformam nesses reparos a realidade.
De modo que a sisudez e melancolia precoce de Dom Pedro II eram gerais na infância brasileira daquele tempo; nele, regente ainda criança, naturalmente se requintaram. Não esqueçamos, porém, que nossos avós em peso mal experimentaram o sabor da meninice. A tendência era fazê-los gente grande o mais breve possível. As meninas, essas tornavam-se muitas vezes donas ou senhoras aos doze e treze anos.
"Ainda criança, a sua influência é ilimitada", escreve de Dom Pedro regente o Sr. João Ribeiro num artigo que às vezes irrita pela ligeireza de opinião. E acrescenta, neste caso com muita propriedade: "Sob a regência o fantasma infantil da imbele realeza foi o bastante para assegurar a monarquia e a paz."
De fato, assim começou a ação social e política do Segundo Imperador: assegurando a paz e a monarquia. Ainda lhe não amolecera o ânimo a literatice liberal. Nem o contacto com o Papá Hupo.
Homem feito, é que viria Dom Pedro a comprometer fatalmente a monarquia, colaborando com as forças hostis à ordem e à tradição nacionais. Não exagera ao meu ver o Sr. Jackson de Figueiredo, escrevendo do Imperador que "foi um revolucionário contra o trono em que assentava" e "ele próprio quem consentiu, senão aplaudiu, que se levasse ao próprio exército o veneno de uma doutrina de todo oposta aos interesses da monarquia". Aliás, reparo semelhante já eu fizera à ação de Dom Pedro II, numas notas a propósito do estudo do Sr. Oliveira Lima Aspectos da História e da Cultura do Brasil.
Faltou ao governo de Dom Pedro II o ar de magistratura paternal que lhe convinha; à sua corte faltou o respeito às tradições; faltou brilho militar; faltou ritmo. Ridicularizou-se o papo de tucano; negligenciou-se o beija-mão; desprezou-se a liturgia de realeza. E sobretudo, desprestigiou Dom Pedro II os valores essencialmente monárquicos: o alto clero, a grande propriedade, o Exército. Isto, no conceito do Sr. Oliveira Lima. O "extremo liberalismo" do monarca afastou do trono as forças saudavelmente ligadas à tradição nacional.
Da ação pessoal de Dom Pedro II é preciso não esquecer o muito bem que lhe devemos; neste ponto pode-se mesmo aceitar a apologia do Sr. Magalhães de Azeredo, quando rememora do Segundo Imperador "os exemplos de magnanimidade, honradez intransigente, amor da pátria e do dever, bondade inexaurível, superioridade às contingências do destino". Nem se deixe de acentuar que ele foi um como polícia moral - polícia moral, note-se bem - que manteve alta a temperatura dos nossos estadistas quando em funções públicas.
Mas é preciso igualmente não encobrir-lhe na ação política e social o que ela teve de anti-histórico e contrário aos mais caros interesses da ordem nacional.
De resto, Dom Pedra II não necessita da "necrofilia" de ninguém para continuar moralmente grande.
FREYRE, Gilberto. 35. Diário de Pernambuco. Recife, 16 Dez. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 344-346.
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