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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Exatamente quando me dispunha a louvar no Sr. Antônio de Góes o Prefeito mais amigo das árvores que ainda teve o Recife, vem parar-me sob os olhos a Lei Municipal n.º 1.379; e aí leio, espantado, escancarando bem os olhos para estar certo da realidade, que "os terrenos serão taxados por todas as faces onde possa haver edificação". Os limites são de 20,00 metros no perímetro principal; 30,00 no urbano e 60,00 no suburbano.

Decididamente um paradoxo. Um paradoxo para o Recife. É como se na França despovoada se instituíssem prêmios para os casais sem filhos ou mesmo para os celibatários.

Diante desse impensado recurso de taxação municipal - como não se espantar a pessoa amiga das árvores? Confesso candidamente meu espanto.

Se a tendência entre nós já é no sentido de construir as casas pegadas umas à outras, imagine-se o que vai ser agora, com o estímulo de "os terrenos serão taxados por todas as faces onde possa haver edificação".

O que aí se estimula é exatamente o nosso maior vício de construção: o das casas pegadas umas às outras. Quase trepadas umas por cima das outras. Sem espaço livre. Sem espaço para árvores acolhedoras e vastas. Um amigo meu, de passagem pelo Recife, ficou um desses dias muito surpreendido ante o número, no Recife de casas assim.

Não temos no Recife problema de economia de espaço. Pode o Recife expandir-se à vontade. Tem pano para as mangas. Por que então limitar o direito de faixas laterais de terreno a um total de 20 metros no perímetro principal, 30 no urbano e 60 no suburbano? É ou não estimular o tipo vicioso de habitação sem quintal ou com

o mínimo de espaço livre?

Nada mais simpático neste sentido que a campanha em Madrid de Arturo Soria y Mata. Recorda-a, no seu interessante livro Higiene das Cidades, o Engenheiro Baeta Neves, de Minas Gerais, que o Recife há pouco hospedou por uns dias. Queria Soria y Mata que em Madrid toda casa tivesse seu espaço livre, com árvores e jardim.

Nós estamos a estimular justamente o contrário. A lei 1.370 é hostil aos espaços livres; pelo menos os deseja reduzidos ao mínimo.

Limita-se assim a ação saneadora e benéfica da árvore, exatamente onde ela é mais necessária. Muito mais necessária que em Madrid. Porque nós somos uma cidade que se precisa defender dos ventos secos, de solo arenoso; de um eterno sol de verão. E a defesa é a árvore.

Sob o ponto de vista estético - e aqui entra a "poesia" desdenhada, segundo se diz, pelo eminente Sr. Estácio Coimbra - precisa o Recife defender-se contra o perigo de virar tristemente um esqueleto de cimento armado. A natureza deu também à árvore o papel de nota decorativa das mais fortes. O que atenua o desgracioso da fachada do nosso Palácio do Governo senão aquele pinheiro gentilmente inclinado e aquelas velhas palmeiras de uma verticalidade que é também uma lição de nietzscheanismo?

Um amigo meu, espanhol, dizia-me uma tarde, a propósito do arvoredo inglês: "Os povos têm as árvores que merecem." Era uma tarde em que passeávamos entre o lindo arvoredo de Oxford.

Mas não é certo. Nós, brasileiros, não merecemos as árvores que a natureza aqui oferece aos seus inquilinos. Inquilinos, sim. Porque em relação à natureza, não passamos ainda, nestes quatrocentos anos, de inquilinos a donos.

Mas o ponto é este: não merecemos as belas árvores que aqui se nos oferecem em vão - como, a eunucos, belas mulheres nuas. Não merecemos a palmeira. Nem o jambeiro. Nem o tamarineiro. Merecemos talvez o mamoeiro e a bananeira, já muito nossos.

Em centenas de anos, não aprendemos a sentir o encanto das nossas árvores. Nem o valor. Porque se os sentíssemos, acima de considerações de ordem econômica, estaria o esforço a favor da árvore - da árvore na rua e da árvore ao lado ou em redor das habitações.

Por me ter habituado a admirar no Sr. Antônio de Góes, não só o laborioso que o Recife todo admira, mas um grande amigo das árvores, é que estranho e lamento a lei 1.379. E aqui registro meu desapontamento e meu espanto.



FREYRE, Gilberto. 37. Diário de Pernambuco. Recife, 30 Dez. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 350-351.

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