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Do Professor Marques Braga, do Liceu de Pedro Nunes, em Portugal, acabo de receber um exemplar de sua recente edição anotada das Églogas de Bernardim Ribeiro.
De Bernardim Ribeiro já escreveu Menendez y Pelayo que fora de "sensibilidad casi feminina". Ele foi de fato o avô remoto do lângüido "saudosismo" que hoje floresce em Portugal no "verbo escuro" - tão escuro às vezes - do Sr. Teixeira de Pascoais. O "saudosista" por excelência.
Ao amoroso de Saudades haveria que filiar, num esforço de genealogia sentimental, muito desse lírico ingênuo de "cantadores", muito dessa poesia anônima do nosso sertão: É claro que pelo Nordeste duro de quartzo, entre essas "chique-chiques" e "macambiras" que o sol incendeia nos meios dias ardentes, ganhou o lirismo alentejano o gosto selvagem com que se vai aos poucos individualizando na boca dos "cantadores". O gosto pungente em que se vai requintando a saudade portuguesa. Isto para não falar dos condimentos étnicos no Brasil acrescentados ao lirismo português. Mas deste o nosso permanece ainda afastado por aquela "diferenciação regional", espécie de bretonismo ou provençalismo com relação ao gênio literário francês, de que nos fala o sr. Fidelino de Figueiredo.
Todo o lirismo de Bernardim Ribeiro parece girar em torno dessa preocupação:
"Com quem me consolarei?
Ou quem me consolará?"
(Ég. )
É o mal do amoroso a quem tortura não só "querer bem em extremo a quem t'o a ti quer menor" como, e sobretudo, a saudade:
"Não pode ter
O meu mal comparação
Porque o mal de ausente ser
Não se pode padecer".
(Ég. 5)
E Bernardim Ribeiro canta para se consolar - "pois não havia de escrever para ninguém senão para mim só", como mais tarde o nosso trovador anônimo:
"Eu canto é pra disfarçar
Não dar gosto a muita gente."
E tão viva nota pessoal trouxe Bernardim ao lirismo, tanto frescor de intimidade às églogas e tanta naturalidade, que um crítico inglês da literatura portuguesa, o Sr. Aubrey Bell, chama, no seu estudo Portuguese Literature, ao poeta de Menina e Moça, "um inovador". Inovador tanto na poesia lírica e bucólica como no romance.
É estranho que ao avô da poesia anônima do sertão não dedique o Sr. Leonardo Mota, no seu "Cantadores" - que há pouco recebi - o interesse genealógico que ele merece. Bernardim tem de fato, para nós, nordestinos, para os brasileiros, em geral, um interesse todo íntimo. É seu sangue, por exemplo, que lateja nestes versos tão nossos:
Minha viola mais canta
Quanto mais sofro na vida.
Sou como cana de engenho
Mais doce, mais espremida..."
Bernardim prende a nossa poesia popular - essa que ainda fresca na boca dos "cantadores", tanto nos encanta no livro do Sr. Leonardo Mota - àquela corrente de águas vivas - à poesia provençal - fonte direta da poesia trovadoresca galaico-portuguesa de que escreve Miguel de Unamuno, citado pelo Professor Marques Braga, ter sido "la primera manifestación culta del lirismo en lengua romance en la peninsula".
Vai-se individualizando nosso lirismo? Aos poucos, sim. Mais sensual que o português - isto já se tornou; e é o próprio Sr. Fidelino de Figueiredo, tão rigoroso no seu critério de nacionalidade nas literaturas, quem o admite. Há nessa intensificação de sensualismo uma nota identificadora para efeitos estéticos - que os morais não devem interessar, senão secundariamente, ao crítico literário.
De fato, em relação ao português, revelaria talvez o nosso lirismo, se fosse possível analisá-lo quimicamente, muito mais "desejo dos sentidos" que "ansiedade ideal", Uma nota mais forte de materialidade. Ou de sensualidade.
Esta diferença registra-se, aliás, no seu interessante livro, o Sr. Leonardo Mota, confrontando trovas e quadrinhas nossas com as portuguesas. Entretanto, mesmo na selvagem volúpia do lirismo brasileiro corre do sangue de Bernardim o bastante para identificar um parentesco ilustre.
P. S. do 37: - A nota do Sr. Prefeito, distribuída pelos jornais no dia de Ano Bom, veio graciosamente esclarecer um ponto que o meu artigo de domingo último não esclarecera: que os limites de 20 metros para o perímetro principal, 30 para o urbano e 60 para o suburbano, significam não 20, 30 e 60 metros de lado mas o total. Não esquecer que, excedido esse total - que apenas permitirá uma arborizaçãozinha de árvores de Natal - o critério de taxação é o seguinte: "os terrenos serão taxados por todas as faces onde possa haver edificação" (Lei 1.379).
FREYRE, Gilberto. 38. Diário de Pernambuco. Recife, 6 Jan. 1924. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 352-354.
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