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Numa roda sisuda tive um dia a sem-cerimônia de dizer: sob o ponto de vista da alta cultura o alfabetismo de grande número, tendendo à mediania, só pode ser desfavorável. O protesto foi unânime. Muito zangado; um pedagogo chegou a dizer que semelhante tese importava na defesa do analfabetismo; e que defender o analfabetismo era defender a mais negra das pestes.
Com a minha vasta incapacidade para a discussão, recolhi-me todo esquivo à estranheza da idéia irritante para, nos meus vagares, analisá-la. Seria simplesmente uma dessas idéias-bolas-de-celulóide, com o seu brilho exterior? A mera bizarrice jamais me atraiu: menino, não perdi nunca o tempo a colecionar selos; depois de grande, não me tenho dado ao trabalho de colecionar frases bizarras, para uso nos chás e nas confeitarias. Confesso, entretanto, esta tendência do meu espírito: de pôr lugares-comuns pelo avesso. Um lugar-comum pelo avesso é quase sempre perturbante verdade. Virem-se pelo avesso os grandes rótulos "liberté, egalité, fraternité", "o século XX, século das luzes", "ordem e progresso", "Zeballos o maior inimigo do Brasil", "as trevas da Idade Média", "o sorteio militar é a salvação do Brasil", "a família francesa é a mais corrompida de todas" etc. etc. e ter-se-ão coisas escandalosamente verdadeiras. A receita, ou antes o processo, é quase infalível.
Creio que virando pelo avesso a idéia de ser o alfabetismo a felicidade máxima dum povo, ter-se-á uma grande verdade. Basta, no Brasil, tanta assuada acerca de analfabetos; de serem eles a causa da nossa gloriosa República não ocupar ainda no universo o lugar que lhe compete, ao lado das chamadas grandes potências. Pobres analfabetos! E pobres, não pelo seu analfabetismo, mas por serem assim tratados, ou antes maltratados, pelos meio-cultos.
E tudo isso por quê? Porque um velho de Mainz inventa, com uns paus e umas rodelas, uma máquina para salpicar de sinais pretos rolos e rolos de papel; e um frade-pedagogo de Wittenberg um tanto histericamente se rebela contra o Papa; e um genebrês de juízo solto empolga meio mundo com suas teorias antinaturais e anti-históricas. E eis-nos sob a superstição do alfabetismo.
Superstição hoje impermeável. A piedade pelo analfabeto, temo-la quase todos - porque a imprensa e Rousseau fizeram-nos extremamente sensíveis a tudo quanto é infortúnio. Quem, se dependesse da simples pressão do seu índex sobre um botão elétrico transformar, como por encanto, todos os analfabetos em leitores dos jornais e eleitores republicanos, demoraria um instante em fazê-lo?
Entretanto, estará mesmo no alfabetismo a felicidade máxima de um povo? Ai de mim, que ainda me perturba a dúvida de tão clara verdade! E, aqui entre nós - maior ainda é minha perversão: eu não comprimiria o tal botãozinho. Ao contrário: se possuísse o talento mecânico do meu amigo Dr. Sousa Lemos empregá-lo-ia em inventar uma máquina, no gênero daquela de Wells, porém com este fim - produzir analfabetos. Digo-o sem nenhuma malícia; digo-o com a maior das canduras.
O analfabeto é um ser útil e interessantíssimo, o que não sucede com o meio-culto. Do meio-culto já o poeta inglês Pope escreveu em versos que andam pitorescamente traduzidos em português pela Marquesa de Alorna: "A little learning is a dangerous thing" ...
Em toda parte é o analfabeto um ser interessante. Subtraído da cultura humana o contingente dos analfabetos, escancara-se ante nós formidável lacuna. Basta recordar as "folk dances" dos russos; e a música dos negros norte-americanos. Eu mil vezes prefiro um menestrel dos nossos sertões a toda legião de poetas meio-letrados cá do litoral. Em Portugal foram os analfabetos e os quase analfabetos a gente que mais me encantou. Povo tão bom e tão doce não creio que exista; tinha razão o Padre Soeiro em pedir para eles a bênção de Deus. Contrasta com o Portugal da superfície; o das festas oficiais; o da literaturazinha de confeitaria do Sr. Júlio Dantas; o que faz a barba, e mal, à inglesa e o mais, da política aos requintes sibaritas, à francesa. Quem vê esse Portugal mal adivinha o outro - o que Jacinto achou, passada a fronteira, na fala doce dos guardas da alfândega; e está na gente que cuida das vacas e colhe dos vinhedos e faz azeite e vende peixe e, cantando, trabalha, ditosamente alheia às teorias anticlericais e antidinásticas e ao falatório bolchevista. Em Coimbra são as tricanas que falam de Antônio Nobre; os acadêmicos perguntam por Mary Pickford.
Quais são, na Europa, as glórias máximas do alfabetismo? A Suíça e a Finlândia. À Suíça há quem exageradamente diga que o mundo só é devedor de relógios, latas de leite condensado, Jean Jacques Rousseau, Haller e queijos - artigos todos facilmente substituíveis, quando não dispensáveis. Quanto a Finlândia, só lhe conheço de notável este contingente: ter fornecido a Eça de Queiroz o original para uma de suas melhores caricaturas.
Nos Estados Unidos há hoje uma espécie de contra-vapor contra a mania de uniformizar que os vinha empolgando. A obra de uniformização chegou ali a possuir completa parafernalia, uma verdadeira máquina para comer todos eis traços pitorescos e sinais próprios da gente adventícia e que o fazia tão fácil e ligeiramente como os tipógrafos que devoram as vírgulas, os traços-de-união e outras minúcias de pontuação e soletração. A tendência hoje é outra. E convém notar que certos elementos da população, como os montanheses de Kentucky, sempre são resistentes à tirania das forças uniformizadoras. Meu eminente amigo, o Professor Armstrong, encontrou entre os ditos montanheses, cujo gênero de vida é o mais pitoresco, um falar muito expressivo, mais semelhante, talvez, ao de Shakespeare que ao da Broadway.
Aliás, neste respeito, representam os analfabetos papel muito nobre, como elemento saudavelmente conservador. Principalmente entre povos cuja neofilia chega a ser, como entre nós, nevrose. Compare-se a fala do sertanejo com a do semiletrado do litoral: é aquela a mais rica em nervos. E a Portugal, vítima, como nós, da mania de estrangeirice, sucede o mesmo. Que o diga uma de suas vozes mais autorizadas: a do Sr. Afonso Lopes Vieira. E com esta clareza: "Não saber ler tem sido para o nosso povo uma fonte de cultura espiritual. Todos que conhecemos a província sabemos que são os analfabetos que melhor falam a nossa linguagem."
FREYRE, Gilberto. 3. Diário de Pernambuco. Recife, 6 Maio 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 253-255.
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