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Tomo para o artigo de hoje um assunto que não é por certo fácil de desfolhar. Nem de compreender. Ao contrário: dos mais ouriçados. Advirto-o logo ao suave leitor que o vai percorrendo entre dois goles de café: evite-se a acidez duma decepção.
Quem o provoca - este complicado artigo de hoje - é um jovem amigo querendo que lhe receite leituras como quem receita compostos de glicerofosfato ou cloridrato de cocaína. O princípio é o mesmo. A responsabilidade, talvez maior.
Há primeiro que fixar o caso do meu amigo. É interessante.
Trata-se de um ansioso de "leituras filosóficas". Veio-lhe a ânsia, ou antes a volúpia, quase de repente; e sucede que o sistema de educação seguido pelo meu amigo jamais lhe proporcionou o luxo duma iniciação filosófica. Este ponto, abandono-o à atenção dos pedagogos nacionais.
A iniciação filosófica seria uma espécie daquele livro de amostra de que nos fala Randolph Bourne a propósito de certo curso universitário: "Um livro de amostras de pano donde se vai recolher o padrão para uma roupa."
A imagem tenta a um desdobramento. É de uma rara expressividade. Desdobremo-la.
Folheando o livro de amostras, passam sob os olhos e pelos dedos do iniciando vários retalhos de pano de que ele vai sentindo a espessura; distinguindo os de seda, que rangem entre os dedos, dos asperamente felpudos; apreendendo distinções mais sutis; vendo de cores uma variedade de tons e de nuances - umas amigas, outras inimigas logo ao primeiro contacto.
Nessa variedade de cores e padrões vai o iniciando escolher-se um pouco a si mesmo. E não será preciso que lhe desdobrem ante os olhos todo o enorme rolo duma peça de pano para permitir-lhe antever a roupa depois de pronta quanto à espessura e quanto à cor; o retalho dá bem a idéia.
O mesmo se poderia dizer da iniciação literária: outro curso que tomasse o aspecto de um livro de amostras. Os retalhos teriam a vantagem de nos familiarizar o gosto com uma variedade de padrões; de nos excitar o senso de valores e, mais que isso, o critério de avaliação. Porque a função das iniciações é estender a paisagem do espírito.
Desse ideal me parecem afastados os nossos cursos de literatura - simples pretextos a análises gramaticais e a horríveis biografias de escritores.
Mencionei de propósito as iniciações filosófica e literária: parecem-me complementares. Inseparáveis. No estudo chamado de Humanidades são aquelas em que principalmente começa a individualizar-se o gosto do indivíduo, sem propriamente contrariar o ritmo clássico nem certa ortodoxia característica, nos pontos essenciais, do que se considere alta cultura.
A erudição passivamente ortodoxa, por melhor documentada, não chega a pura cultura. Há que haver a flama do gosto próprio, certa vibração pessoal, um senso íntimo, heurético, intuitivo de valores, um quase dom premonitório, desse que se atribui às mulheres e aos místicos.
Por outro lado não chega a ser cultura naquele alto sentido, mas simples impressionismo, o elemento pessoal, intuitivo, espontâneo, quando desgarrado dos gostos e dos valores ortodoxos sem às vezes os conhecer de fortuito contacto sequer; sem os conhecer mesmo a retalho; separado deles não por esforço consciente de seleção, mas por ignorância, ou na melhor e mais rara das hipóteses, por premonição.
Matthew Arnold deixou-nos da cultura o famoso conceito: apropriar-se do que há de melhor. O conceito peca pelo que tem de acomodatício: o que há de melhor para Arnold era o que oficialmente, historicamente, havia de melhor no seu tempo.
Seu conceito reduz-se, num símile, a este ridículo: prover-se de cultura é como prover-se duma linda dentadura postiça. Não seria o processo um esforço íntimo e criador, mas a plasticidade a pressões exteriores.
Opostos ao conceito de Arnold, mas sem resvalar pelo mole hedonismo de Oscar Wilde nem pelo fácil impressionismo do Sr. Anatole France, vamos encontrar o critério que se poderia chamar empático - como é delicioso o grego! - de Huysmanse de Pater e a "cultura como esforço vivo" (culture as a living effort) de Randolph Bourne.
Para Huysmans, o processo da cultura - ele não o define; o esforço de interpretação é meu - seria apropriar-se não do melhor, no sentido oficial, mas do congenial com o nosso "eu". Outra coisa não faz, intuitivamente, na arte como na vida, o indivíduo de gosto superior. O próprio Brunetière disse uma vez que a reação contra o egoísmo era fugir de dentro do nosso "eu" para procurá-lo nos outros. De modo que o mesmo altruísmo seria ainda uma pesquisa do "eu" nos outros.
E acaso não nos procuramos todos uns nos outros? Não nos procuramos na paisagem como nas gravatas e nas gravatas como nas idéias? Somos diante dos outros e diante das coisas e diante das idéias um poeta à procura de rimas.
Empático era Des Essentes quando se deixava às vezes desgarrar do sufrágio oficial, como no caso do "grand rire" de Rabelais, do "solide comique" de Molière, da "lange verbeuse" de Cícero, das "graces elaphantines" de Horácio. Ao mero esforço de apropriar-se do que há, oficialmente, de melhor, opunha Des Essentes aquela sua aguda volúpia de encontrar-se nos outros. Aquela sua coragem de seleção.
Igual era o processo de Pater - suavizado porém por muitos anos de chás, entre as becas hieráticas de Oxford.
Naturalmente é um critério aristocrático: para aceitá-lo é preciso aceitar um ideal seletivo de cultura. É um critério que só se justifica no caso do "eu" capaz de largas projeções: no caso do "eu" capaz da dolorosa volúpia de expandir-se para então recolher-se a si mesmo, num gozo agudamente sentido.
Dar ao gosto superior, em vez da fácil missão de absorver o congenial como o antipático, a de criar, num voluptuoso esforço, um mundo à sua imagem, parece-me o fim da cultura digna desse nome. Hedonismo, uma tal cultura? Não porque importa em esforço. Busca de valores mais psicológicos que documentados. Ou como se costuma dizer, enciclopédicos. Isto sim.
Vejo porém que o meu amigo ficou sem as suas receitas. Reservo-as para outra vez. Outra vez em que me venha a veneta de escrever artigos como o de hoje.
FREYRE, Gilberto. 40. Diário de Pernambuco. Recife, 20 Jan. 1924. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 358-360.
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