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Artigos : Imprensa  



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Os pintores que se aproximam da paisagem pernambucana raro conseguem vencer uma dificuldade: a de interpretar-lhe o verde, que aqui é toda uma sinfonia caprichosa.

O primeiro a se aproximar desse verde vário foi Frans Post. Um flamengo. Dele há uma tela no museu histórico de Nuremberg que de Munich o pintor Navarro da Costa muito me recomendou que procurasse. E procurei-a, entre aquela imensidade de quadros, numa gula enorme de sol e de cor pernambucana.

Que falta ao esforço de Post? Falta vibração interior. Pelas mil e uma teclas do verde da nossa paisagem seus dedos hieráticos apenas resvalaram. Pintor mais histórico que estético, mais preocupado em documentar a natureza e a vida dos trópicos que em interpretá-las, mal lhe podemos chamar o esforço, de interpretação. Foi antes de pura "fixação". Post fixou o acessível à fotografia.

Veio depois Teles Júnior. Passa pelo grande pintor de nossa paisagem; e no sentido histórico, no sentido de fiel documentação, ele o é por certo. Desse ponto de vista sua obra representa para Pernambuco um íntimo e alto valor; ele nos documentou admiravelmente toda uma etapa de vida e de paisagem: o Pernambuco dos engenhos que o das fábricas e usinas vai rapidamente empurrando para o passado, na ânsia de mais à vontade fumar os charutos de suas chaminés vitoriosas.

Mas a paisagem de interesse principalmente histórico é em grande parte o exterior: reduz-se quase a uma como crosta. Certo, "a transformação no conjunto da atividade agrícola", que é um fenômeno de história econômica e social, altera a fisionomia das regiões, dando-lhe mesmo, como quer Alfredo de Carvalho - exatamente a propósito da paisagem pernambucana - "novos lineamentos e coloridos" e novas "figuras significativas do cenário".

Mas é preciso salientar que os valores mais íntimos de um paisagem não se alteram de ano a ano com os simplesmente históricos. Daí o interesse mais fortemente estético e, por conseguinte, mais universal na sua vibração, da pintura que se poderia chamar psicológica: a que procura da paisagem, não reproduzir-lhe as exterioridades a todos acessíveis, mas esses valores íntimos que só uma espécie de premonição consegue interpretar.

Reconheça-se o interesse, cada vez maior para Pernambuco, da obra de Post e sobretudo da de Teles Júnior, o mestre admirável. Por outro lado, convém reconhecer que nenhum deles nos deixou interpretações desse verde que nos delicia e nos enlangüece e nos serve talvez para atenuar e suavizar um temperamento assim tão ardente. (Os psicólogos atribuem ao verde ação pacificadora sobre os nervos.)

O esforço verdadeiramente, de interpretação em torno à nossa paisagem é recente. Recentíssimo. É o esforço de um grupo moço de pintores que nos têm visitado: Carlos Chambeland, Paulo Gagarin e, última e notadamente, Nicolas De Garo.

E é o brilhante esforço da pintora conterrânea Fédora do Rego Monteiro, a quem aliás o gosto da mais repousada paisagem européia desafinara um tanto do ritmo e do gosto da nossa. Sua obra importa por isso numa reconciliação.

Deliciosa reconciliação. Provam-no as vinte e tantas marinhas e paisagens de "praia" que nos trouxe há pouco de Boa Viagem, onde aproveitou nesse trabalho admirável os vagares dum mês e tanto de sol.

A volúpia selvagem do verde da "praia" conseguiu-a fixar e interpretar o senso impressionista da pintora pernambucana.

E nesses vinte e tantos quadros de Boa Viagem passam diante dos nossos olhos o verde doentio dos mangues e o verde vivo e puro dos coqueiros adolescentes; o dos cajueiros, mosqueado de amarelo, e o das mangueiras; o das convolvuláceas, salpicadas no verão de frutos bravos e o do mar tropical, que é dos mais rebeldes à fixidez. De todos eles conseguiu Fédora do Rego Monteiro arrancar, como dum teclado, certa vibração interior, um especial encanto de intimidade sob a crosta das brilhantes exterioridades.



FREYRE, Gilberto. 41. Diário de Pernambuco. Recife, 27 Jan. 1924. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 361-362.

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