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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Nos ensaios do Sr. Agripino Grieco cuido às vezes encontrar-me a mim mesmo: às minhas próprias idéias classificadas ou coloridas por alguém mais eloqüente.

Confessá-lo importa em elogio próprio: com o Sr. Grieco é honroso ter gostos afins. Nele se vai hoje aguçando no Brasil a mais pura vocação de crítico independente.

É o primeiro a nos trazer para o ofício da crítica um frescor de expressão capaz de revivescer ossos mais secos que os clássicos de Ezequiel; e ao seu gosto como ao seu espírito de análise, sem faltar plasticidade, não falta o ritmo de princípios diretores. Distingue-se assim o Sr. Grieco do todo cera Sr. Ronald de Carvalho como do hoje venerando Sr. Osório Duque Estrada, que tão cedo se fossilizou na postura hierática antes de censor do que de crítico.

Num rodapé d' "O Jornal" ocupou-se ultimamente o Sr. Grieco da obra do sociólogo Oliveira Viana. E o livro do Sr. Qliveira Viana como que se aguça no saber de suas qualidades, interpretado pela inteligência do jovem crítico. Do jovem crítico que em vez de Montesquieu, Bryce e os liberais tão amados pelo Prof. Anibal Freire, cita, através de suas reflexões, estes dois esquecidos caturras: Lê Play e Bonald. Num Brasil saturado de sabedoria de almanaque Bristol do Sr. Gustave Le Bon chega a parecer "snobismo" o simples citar de Le Play e Bonald.

O Sr. Grieco deixa entrever logo uma simpatia: pelo nosso antigo patriciado rústico de senhores de engenho e donos de cafezais. Nesse ponto rimam suas idéias com as do sociólogo Viana.

Os paulistas, esses o entusiasmam como ao Sr. Oliveira Viana. Deles o Sr. Grieco chega a escrever quase liricamente que foram "argonautas da selva" e "fenícios da terra firme".

De fato, no avanço para o Oeste ainda em bruto afirmou-se epicamente o esforço paulista. O que de imoral teve o avanço mal lhe diminui o valor, tanto nos extasia sua estética.

Pelo Norte, o esforço pernambucano não chegou a. adquirir o mesmo ar de epopéia: as circunstâncias adstringiram-no. Mas não deixou de haver, entre nós, a "primavera heróica" que o Sr. Grieco limita ao paulista. Considere-se que diante do paulista às vezes se desdobravam estepes de terra roxa por onde era fácil avançar; pelo Norte dolorosamente se conseguia o menor avanço-oeste. Como o Sr. Capistrano de Abreu lembrou uma vez Anibal Falcão ter destacado, o pernambucano tinha contra si, no esforço expansionista, a inavegabilidade dos rios pelos quais deveria subir ao sertão e a necessidade de defender suas posições no litoral, dos conquistadores europeus.

Mas nesse ponto é apenas parcial o Sr. Grieco. Onde ele me parece flagrantemente errar é nas suas reflexões sobre a sociabilidade do brasileiro. Para ele o brasileiro "é quase sempre insociável". E chega a escrever: "Ao contrário dos gregos que amavam a rua, passeamos, na cidade, lendo o jornal."

A mim parece que muito ao contrário desse modo de ver, o brasileiro de hoje nem é insociável, nem inimigo da rua: ama mais a rua que a casa. No Brasil atual, ainda mais que na Grécia de Xenophonte, domina a idéia de que o lugar do homem é na rua: ficar dentro de casa é amolecer-se e efeminar-se. E tão amorosos somos da rua que a atravessamos nesse doce passo de enterro que é tão nosso, exceto quando acompanhamos um enterro.

Nós amamos a rua. Pertence ao número de esquisitões o brasileiro moderno que passa pela rua lendo o jornal, todo arredio e esquivo às conversas das esquinas e às rodas alegres das portas das tabacarias onde se desfolha a vida alheia e se diz mal do governo.

O brasileiro, aliás, estará mesmo entre os povos mais viscosamente gregários. Fletchet, que viajou pelo Brasil no meado do século passado e é o autor dum livro clássico sobre o nosso país, dá como um dos maiores encantos da terra a sociabilidade do brasileiro. Uma vez, no Rio, numa "gôndola" puxada a burro, que o regalava mais de pitoresco que de conforto, um estranho junto de quem ele se sentara ofereceu-lhe uma pitada de rapé. Fletcher depois reparou que era costume oferecer-se rapé aos companheiros de "gôndola": servia de pretexto ao cavaco.

O brasileiro atual procura mais a rua que talvez à ágora o grego de outrora. Entre nós as mesmas revoluções se combinam na rua; namora-se deliciosamente na rua; fazem-se até negócios de contos de réis.

Aliás é preciso notar que no apego à rua muito influi a clemência da temperatura. Se o grego era o amoroso da ágora de que tanto se fala desde Xenophonte, é que à vida ao ar livre o estimulavam o doce sol e os ventos ligeiros da Ática. E a paisagem. Lembra-me o lirismo com que uma vez me descreveu a paisagem da Grécia, toda de oliveiras e limoeiros em flor, o Prof. Sir Alfred Zimmern, de Oxford.

Também no Recife dos nossos avós, sob as gameleiras, se realizavam as mais importantes transações. Recorda-o, entre outros, o Sr. Sampaio Ferraz.

Na velha Lingueta a vida de negócios era toda de doces vagares e boas conversas: ia-se e vinha-se a passo de enterro. Menino ainda a conheci um tanto desse jeito.

Insociável, o brasileiro não é. Nem inimigo da rua. Ao contrário: o de hoje, na rua satisfaz sua fácil sociabilidade, seu gênio de plasticamente acamaradar-se com meio-mundo, sem, entretanto, ir ao extremo da arte sutil e gentil de cultivar amizades.

O que nós não temos - principalmente hoje, com o cinema - é vida social organizada: "é sociedade", como já observava Saint Hilaire. Bastam-nos os fortuitos contactos da rua; a ligeira camaradagem; a dança. Mas isto é outra história.



FREYRE, Gilberto. 42. Diário de Pernambuco. Recife, 3 Fev. 1924. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 363-365.

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