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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Joaquim do Rego Monteiro trouxe-nos de Paris e de Nice vinte e nove telas que vai expor nestes dias no Gabinete Português.

Deliciosos trabalhos. Surpreendem. Espantam. Tanta mocidade e tanto talento deixam-nos sob um encanto difícil de fixar.

Joaquim do Rego Monteiro, com quem me acamaradei em Paris, quando ele e Vicente, seu admirável irmão, moravam numas águas-furtadas da Rue Gros, é ainda um rapaz de' dezenove anos. Puro adolescente. Quase uma criança.

O "studio" da Rue Gros. Umas águas-furtadas. Por cima dum quinto andar. Chegava-se lá quase sem fôlego, como depois de ler em voz alta um período de Ruy Barbosa.

No "studio", todo salpicado de tinta, primeiro nos reunimos uma tarde, em volta a um farto jantar de macarrão. Rodeavam-nos pastas de tinta, boiões de geléia, pincéis, latas de sardinha, pacotes de biscoitos, borrões e originais de desenhos, telas com as primeiras pastadas de côr, estudos a lápis, rolos de pão - tudo numa espantosa promiscuidade.

Depois, durante os três meses que estive em Paris, muito nos reunimos na alegre água-furtada da Rue Gros. Aí encontrei um dos irmãos Martel- não me lembro se Jean ou Joel. (Os Martel são hoje, depois de Bourdel, os escultores mais interessantes da França.) E Brecheret. O paulista Brecheret.

Do "studio" íamos às vezes, depois das vastas macarronadas, ao café de La Rotonde. Iama-nos regalar de pitoresco. De bizarrice. E regalávamo-nos. Lembram-me ainda alguns tipos deliciosos. Parece que os estou vendo entre a fumaraça do café. À toa recordarei quatro ou cinco: aquele javanês de barbicha, magro e gótico, que deve estar ainda a apodrecer tristonhamente de tédio num canto de café; a alegre mulata côr de sapoti e sempre de turbante que foi modelo do Sr. Virgílio Maurício; um hindu alto e ósseo, com uns olhos de magnetizador de teatro; aquele desenhista holandês, amigo de Vicente Com os bigodes louros e tristes caídos aos cantos da boca e como que grudados a goma arábica sobre um rosto de menino-Jesus; Foujita, numa onda de discípulos graves; muito "moço e o rosto apenas salpicado pela felpa negra do bigode; Floriane.

No meio dos rostos exóticos e bizarros de La Rotonde é que o de Vicente, róseo e gordo, assumia certo ar prosaico de caixeiro-viajante. Joaquim tinha então o ar de um colegial ainda tímido que se tivesse desgarrado em Montparnasse.

E é ainda com um pouco daquele seu ar de colegial que ele agora nos traz de Paris e de Nice vinte e nove telas que são simplesmente espantosas para um principiante.

Os trabalhos de Joaquim do Rego Monteiro são todos paisagens e marinhas. Assuntos ingênuos: recantos de bairros quietos com as suas lojitas de telhado vermelho; trechos de cais batidos de sol; pedaços de ruas meio tristonhas onde habitam e negociam "petits bourgeois" morosos e bons.

Às vezes, nesses quadros encantadores, as lojitas, os vapores e os sobrados parecem, pelo colorido, lojitas, navios e casas de brinquedo. Mas olhando-os bem, tomam aos nossos olhos um ar muito sério: o azul da água, de duro e claro, desfaz-se num azul negro e fluido; tem-se a sensação de profundidade.

Há um ar de família entre a pintura de Joaquim e a de Jorge Barradas. O mesmo não sei que de deliciosamente ingênuo. E sendo uma pintura, a de ambos, sobretudo decorativa, evita, entretanto, os grandes brilhos de cor.

O irmão mais moço de Vicente é ainda mais radical que o pintor português. O "futurismo" de Jorge Barradas desfaz-se em fácil "bombom" comparado com o "futurismo" de Joaquim.

Deste, os trabalhos dão muito a lembrar os de William Yarrow. Os dois muito pessoais.

Ante as massas plásticas de cor que lhe oferece a natureza em bruto, a ânsia de Joaquim é reter apenas os valores íntimos, para os reunir, num ritmo muito pessoal, em "composições". Todo o supérfluo é depurado.

Compreendida a diferença entre "compor" e "reproduzir" está iniciada a mais' simples das criaturas no "futurismo" de Joaquim como no de De Garo e no de Jorge Barradas.

Futurismo, pintura de composição? Futurismo, a arte de Joaquim? Pura conversa. Conversa de idiotas. A arte oriental tem sido sempre de composição.

O absurdo está em querer julgar a composição pelo critério da representação. É como se alguém quisesse julgar as qualidades do pavão pelas qualidades do papagaio: muito cheio de cor o pavão, a escancarar a plumagem em leque; mas não fala. O que se queria era que o pavão falasse como o papagaio. Não fala. Reparem bem, meus senhores: o pavão não fala. O pavão não presta porque não fala como o papagaio.

Será menor absurdo julgar a pintura de composição ou mesmo a de interpretação pela fotografia colorida?



FREYRE, Gilberto. 44. Diário de Pernambuco. Recife, 17 Fev. 1924. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 369-371.

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