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Um Natal sem neve, o deste ano, em New York. E a gente daqui, acostumada aos natais branquinhos, não gostou da surpresa. Havia apenas restos de neve a derreter pelos recantos e pelos parques. Porém, não o bastante. E o Natal foi. prosaicamente pardo. Irritantemente cinzento.
Grande festa é o Natal nos Estados Unidos. Festa de todos os gozos fáceis. Festa em que a gente se regala, até quase estoirar, das nectáricas delícias do forno e do fogão: o peru assado, o pudim de ameixa, o róseo presunto, as empadas, os guizados, os pastéis, as ostras fritas, os doces, os bolos. Festa em que o coração amolece, na lembrança de Jesus, nascido numa estrebaria fedendo a esterco, e dos bolsos de burguesia farta rolam, para os pobres meio rotos e com fome, sonantes moedas. Festa em que se trocam, aos milhões, mimos e postais ou simples apertos de mão, desejando "Merry Xmas", isto é, "Boas Festas". Festa de reuniões de família, ou de amigos, em volta do peru assado ou junto ao lume doce, de madeira mole, a crepitar. Festa em que a gente ri, ri e ri e acende velas dê cera azul e vermelha e enfeita as paredes e as vidraças de ramagens verdes e de "mistretos". Festa da árvore de Natal, no meio da sala ou no centro dum parque - árvore cujos pomos são bolas de celulóide, caixas de bombom e brinquedos. Festa em que as crianças cantam as loas e, nas igrejas, a música é toda de glória a Jesus redentor. Festa do melhor santo deste mundo, o Santo Claus, parecido, ao mesmo tempo, ao Deus de James Stephen, a um tio solteirão e a um vovô meigo.
Tudo isto é o Natal nos Estados Unidos. É ainda assim o Natal nesta New York, onde tão ligeiro passa o tempo que as horas parecem comer umas às outras. Não será talvez, o Natal de hoje, a festa íntima de há cinqüenta ou setenta anos. Isto porque já não existe aqui "família", no sentido" puro - quer dizer, romano - da palavra; a pressão econômica força o mecanismo individual. Porém, continua a ser, o Natal, festa de alegria e - curioso - festa, ao mesmo tempo, cristã e dionisíaca. Há um cristão em cada americano e em cada americano há um Dionísio. Como coexistem, não sei. Porém, coexistem. Basta observar o americano no Natal - que é quando ele é inteiramente ele próprio e não a máquina que o obriga a ser," o resto do ano, o sistema econômico-social. É Cristo - dá aos pobres peças de roupa, restos de peru e, aos pequenos, brinquedos; dá às crianças mimos e faz-lhes ternuras; manda aos amigos cartões postais e presentes que passa horas a comprar nas lojas cheias de gente; em uma palavra, lembra-se dos outros. E é Dionísio: lembra-se de si mesmo; da pança, que enche a fartar, de quitutes prediletos; bebe vinho - deleite muito apetecido este ano, por ser fruto proibido; canta cantos eróticos; dança danças eróticas; ama.
Nos Estados Unidos, o Natal faz igualmente alegres a gente grande e os meninos. E destes é difícil destacar aquela, a não ser pelo tamanho. Não creio que haja país em que a gente grande se pareça tanto à pequena. Em toda parte os homens se parecem muito aos meninos - mais do que o supõe a ingenuidade da pessoinha de treze anos. Mas, nos Estados Unidos a semelhança é fortíssima. Vi o Presidente W. Gamaiel Harding sorrir uma vez; outra vez o General Pershing; ainda outra,. Williamn Jennings Bryan e anteontem, apertava-me a mão, sorrindo, o Dr. Nicholas Murray Butler. Pois esses homens todos têm, ao sorrir, caras de Menino-Jesus; caras cor-de-rosa e ingênuas. Dir-se-ia que nunca as roeu por dentro um drama íntimo. Dir-se-ia que nunca arquitetaram um sofisma. A própria Miss Amy Lowell, criatura tão sutil, parece, ao sorrir, uma criança grande. O mesmo Mencken - ironia viva! - tem bochechas de criança e um seu amigo o descreve como parecido a um caixeiro-viajante. Sorrisos sofísticos - são raros nesta terra. Não os vejo em volta de mim. O Cardeal Gibbons esse, sim: seu sorriso era Leonardo da-vinciano. Porém como ele, quem mais sorri? Creio que ninguém nos Estados Unidos. Os sorrisos que eu vi durante o Natal foram felizes sorrisos de crianças grandes.
Mas não é só no meio de sorrisos que decorre o Natal americano. O Natal é aqui um farto jorrar de dinheiro. Gasta-se dinheiro às pilhas. Não é sovina, o cidadão dos Estados Unidos. Pelo contrário: liberalíssimo. O ricaço brasileiro não é tampouco sovina; porém, gasta somente consigo e com os seus, enquanto o americano gasta com os estranhos. O brasileiro à antiga morria pensando em si: deixava a fortuna para que dissessem missas e rezassem padres-nossos pela "sua" alma. O de .hoje, menos medieval e pitoresco, já não deixa com que comprar óleo para o lampião do arco de Santo Antônio: tudo é para a família. Ninguém no Brasil - a não ser algum esquisitão - deixa no testamento uns contos de réis para lima escola, um hospital ou uma obra de arte. Isto é bom para os ricaços americanos. E é no Natal que se fazem as grandes dádivas. Todo mundo é caridoso aqui pelo Natal. No próprio Sul, onde os bons cristãos - metodistas, presbiterianos, batistas - fazem agrados e mandam lembranças aos negros, pelo Natal. É tocante. Ontem quando passávamos, eu e uma amiga, por um armazém perto da Quinta Avenida, estavam distribuindo às crianças andrajosas tijelas de caldo quente e sacos de brinquedos. Era o "Xmas spirit", isto é, o espírito do Natal, em ação.
E os presentes que se mandam aos amigos - os presentes de festa? Há duas semanas que é impossível entrar numa loja na Quinta Avenida sem que nos acotovele a gente. E que lindas estavam, pelo Natal, as vitrines de New York! Flamejavam. Encantavam os olhos. Davam à pessoa que parava, para as fitar, a vontade estupida de ter muito dinheiro, de ser podre de rica. Dizem que o americano nada sabe fazer fora do puramente mecânico. E estas vitrines da Quinta Avenida? A Quinta Avenida é um museu de arte. Aqui é a montra de Avedon que nos encanta: vestidos de senhora que parecem feitos por dedos de fadas. Logo a vitrine de Page & Shaw, cheia de lindas caixas de bombom e latas de doces "glacés". Na vitrine da casa Holden se vêem, em finas gaiolas, pássaros de plumagem multicor e cachorrinhos felpudos; os tapetes persas na montra de Harris seduzem; as caixas de charutos na vitrine da tabacaria ao pé do Flat Iron; a prata reluz dentre veludo cor-de-vinho na vitrine dos joalheiros Gotsham; e que de coisas elegantes, frágeis, artísticas, - relógios, rendas, móveis, flores - percorrem gulosamente os nossos olhos ao caminhar pela Quinta Avenida! Pelo Natal estas vitrines estiveram tentadoras, diabolicamente tentadoras. E, do que lá estava, arrebanhou a gente; a peso de ouro, muita coisa - principalmente a gente que tem namoradas, a pobre gente que tem namoradas!
FREYRE, Gilberto. 46. Diário de Pernambuco. Recife, 29 jan. 1922. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 186-188.
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