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Da Outra América
Em Pedras, no Estado das Alagoas, Delmiro Gouveia deixou a meio uma obra que se anunciava formidável. Dela ainda se ouvem à distância os efeitos de orquestração. E foi de fato a obra de um "homme orchestre" .
Hoje, também nas Alagoas - onde acabo de estar - o Sr. Carlos Lyra vai unindo às boas tendências do governo do Sr. Fernando Lima uma série de admiráveis esforços criadores. O mais recente é a estrada de rodagem de Leopoldina a São José da Laje, com a ponte sobre o rio Canhoto e o cais de proteção contra a fúria das águas selvagens.
Rasgou-se a estrada por uma natureza ainda em bruto; que ondula; onde o matagal às vezes se esgalga numas como barbacãs de castelos góticos para depois achatar-se em volúpias rasteiras, numa orgia de verde. A própria estrada leva às vezes grandes extensões a serpentear, a fazer SS, contornando encostas agudas ou serras abruptos, comendo-os até à ossatura, deixando-os, vencida a resistência, a sangrar ao sol.
E esse esforço difícil, esse como raspar a unha de duras encostas para fazer caminho, sentimo-lo através de quilômetros.
Uma estrada, a de Leopoldina a Laje, onde o próprio "Page" a correr toma o ar dum automóvel de brinquedo; e galgá-la dá às vezes "frisson". "Frisson" que o gozo estético sublima em esquisito prazer para os olhos; para os nervos, para a imaginação.
Verdadeiro gozo estético se experimenta, de fato, em certos SS da estrada, orlando serras quase dramaticamente. Da ponte de Jacuípe a paisagem é um encanto: as águas ostentam uma frescura e uma inquietude selvagens.
Ao rodar por esses cinqüenta quilômetros de estrada nova, num dos autos que a desvirginaram, pensava, com o meu eterno pedantismo de pessoa livresca, na tese de Demolins: Comment la route crée le type social. Essa estrada de Leopoldina a Laje se plasmar um tipo social à sua imagem será um belo tipo de homem arrojado. É o ritmo da vida social e econômica de toda uma região a definhar à falta de canais par ande drenasse a selva virgem de sua produção, que a nova estrada vem intensificar.
Representa um grande esforço criador, ao serviço do espírito de iniciativa ou cooperação de particulares - espírito ainda rara entre nós. .
Nos Estados Unidos e em certos países da Europa é que o espírito de iniciativa particular deixou de causar "frisson" nos nervos do público. Entre os americanos, nada mais comum , que unir um indivíduo o nome e os milhões a uma obra de ação social do tipo, por exemplo, dessa Rockefeller Foundation, a que hoje consagra o melhor da sua generosidade John D. Rockefeller Junior, o segundo da áurea dinastia.
Vem muito a prapósito referir, o gesto, entre nós, do comerciante Sr. Manuel Almeida, doando à "creche" da Jaqueira, recentemente inaugurada, a soma de 1.000 contos. Ao contrário do que era de esperar numa terra de elogia fácil, ande tudo é pretexto para o nome e a retrata nas jornais, a gesto do Sr. Manuel Almeida consumou-se quase sem estridor.
Entretanto, foi um gesto singular. Rara. Surpreendente. Foi quase cama se uma carga de neve tivesse embranquecida a rua Nova.
Esses esforços criadores, essas iniciativas particulares devem entre nós estabelecer um precedente, criar uma tradição, elevando nassa burguesia um tanta acima de si mesma, tirando-nos da mole passividade com que esperamos tudo do Governo.
Não falta par certa na Recife, ande se exerce a espírita de iniciativa ou cooperação particular; nos colégios particulares sem laboratório e incapazes de pagar bons professores; nos hospitais; na manicômio da Tamarineira, necessitando de tantas instalações novas; na Biblioteca Pública, a apodrecer na mais triste das abandonos; no museu do Instituto Histórica; nas igrejinhas antigas dissolvendo-se na umidade, à falta dum pouco de carinho.
FREYRE, Gilberto. 47. Diário de Pernambuco. Recife, 9 Mar. 1924. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 376-377.
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