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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Fui ontem, com um amigo, ver como se faz o papel. Gosto de ver como se fazem as coisas, mesmo as menos interessantes como caixas de papelão, presidentes de república e "hot water bottles", "

Porém confesso: numa exposição de papel esperava passar meia hora de franco aborrecimento - apenas superior às que tenho passado em gabinetes de dentistas. Engano. Interessante é que foi minha visita à exposição de papel - visita não de meia hora porém de hora e meia.

Eu tinha umas vagas noções de como se fabrica papel: o papirus dos egípcios, os rolos de pergaminho, trapos recolhidos dentre os sujos detritos das ruas, o uso mais recente de polpas de árvores. Porém, tudo vago. Faltava-me uma idéia "clean-out", para usar a boa frase americana. Adquiri-a ontem, e sem esforço.

Estava em ação a menor máquina de fazer papel, que existe, Humílima maquinazinha. Quase um brinquedo, comparada às máquinas de tamanho ordinário. Vê-la trabalhar, e reduzir, como por magia, u'a massa mole de trapos a puro e seco papel, era como se estivéssemos diante dum Pico della Mirandola, assombroso aos catorze anos. Numa extremidade da maquinazinha punham os trapos, já expurgados de metais e outras substâncias nocivas, e embranquecidos em solução química; mais adiante passava a massa, já achatada; logo, sobre essa pasta úmida, caía a pressão dum sinete; finalmente, o papel aparecia, num rolo seco e consistente.

Através dum microscópio vi as fibras de papel. Vi máquinas de fazer envelopes e de cortar papel. E soluções para o processo de coloração do papel. Por toda parte, papel. Uma orgia de papel. Papel às rumas. Papel em folhas soltas, esparsas, num baralhamento: o mais ordinário para misteres humílimos, junto ao fino e ebúrneo, do gênero fradiqueano. Havia papel branco, de linho, duma alvura nobre de peitilho de camisa bem engomada; e papel verde, roxo, amarelo, azul. Cor-de-rosa, também, para bilhetes de namorados. E papel macio e papel áspero. Mil e um estilos de papel de carta. Papel-cartão para águas tintas e postais. E papel, como disse, para misteres mais humildes.

Diante dessa orgia de papel era natural que eu me sentisse tentado a filosofar. Foi o que sucedeu. Filosofei sobre o papel. Por exemplo: como o papel segue o homem através da vida. O homem morre deixando um pouco de si próprio em folhas de papel. Quero dizer, é claro, o homem que lê e escreve. Do primeiro papel em que garatuja a lápis o nome ou o A. B. C. ou 1-2-3 àquele em que escreve seu "de profundis", quanta folha em branco desvirgina a gente; o papel dos temas de gramática e das contas de dividir; o papel dos primeiros bilhetes amorosos; o papel solene da carta de pedido de casamento; o papel sério das cartas de negócio; o papel melancólico das cartas de pêsames; o róseo, das cartas de felicitações, o dourado, dos postais de Boas-Festas. E se a pessoa é aliteratada, Nossa Senhora!

É fácil fazer papel. Por isto fabricam-no às pilhas. Pois, senhores, já calculou um matemático que, feito um rolo do papel que numa só década se fabrica nos Estados Unidos, haveria com que envolver o globo, como se o globo fora um bombom.

Um dos males modernos, essa superabundância de papel. Que faz? Democratiza execravelmente o escrever de cartas, de livros e de jornais. O escrever dessas coisas devera ser o luxo de reduzida elite. Dizia o Mestre Dumas, e dizia bem: "Metade das cartas que se perdem devem perder-se." Completa a Dumas o fino Amado Nervo: "Três quartos dos livros que lemos não devêramos ler." E os

Jornais?

Escreveu-me durante a Guerra o mais fino dos brasileiros: "Quanto eu estimaria ser analfabeto!" Analfabeto para viver ignorante das mentiras que então se publicavam .nos jornais. Ora, pior que a mais grossa mentira é a mais espumosa banalidade. E a banalidade floresce espantosamente em tempo de paz.

Houve tempo em que editar um jornal ou publicar um livro era alguma coisa de sagrado. Hoje, não. Pululam os jornais. Nos Estados Unidos há a bagatela de 23.000 periódicos. E destes, a maioria são volumes de 60 páginas.

A produção de livros, esta, também, é assombrosa. Agora mesmo começa nova "Book Season", ou "estação de livros". E hoje, pela manhã, estive na casa do livreiro Brentano, na Quinta Avenida, folheando as novidades. Um horror! Parece que cada cidadão e cada cidadã nos Estados Unidos está publicando um livro, este inverno. Livros de todo gênero: de viagens, de psicanálise, de versos e de ensaios; biografias, autobiografias, histórias, sermões, receitas de bolos; trabalhos de crítica, exegese política, ciências, arte, jogo de xadrez, modas, novelas.

Na "Book Season" de 1920 foi a mesma orgia. E dela, que se salvou? Menos de um décimo: os ensaios de George Santayanna Character and opinion in United States, Primitive Society, de Robert H. Lowie, as novelas Miss Lulu Bett, Main Streete The Age Innocence, as cartas de William James, quatro ou cinco outros livros. O mais, quase tudo literatice banal. Há-de ser o mesmo, este ano. Está sendo muito falado o livro de viagens de um Mr. Franck, sobre a América do Sul. Folheei-o. Raras páginas de boa critica. O grosso do livro, ruim e trivial. O mesmo é certo da biografia do Sr. Woodrow Wilson pelo seu secretário Sr. Tumulty. Três saborosos livros novos são: Three Soldiers (novela), de John Dos Passos, um livro de ensaios de Harold Stearns contra o Puritanismo e outro, versando questões de língua e literatura inglesa, do Sr. Brander Matthews, o ancião professor da Universidade de Colúmbia.

Porém, volto ao meu ponto: a maioria dos livros publicados constitui um estrago de papel. Por que não tomar a sério o escrever de livros? Os árabes comparam a paternidade literária à física e ao plantio de árvores. E inferior à procriação e ao plantio de árvores é que não é escrever um livro. Ao contrário. Plantar árvores e gerar filhos é faculdade de todo homem são. Porém para escrever um livro de verdade, sem ser preciso ter saúde, há que sentir um sopro divino.



FREYRE, Gilberto. 48. Diário de Pernambuco. Recife, 12 fev. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 192-194.

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