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Da Outra América
No dia 5 de fevereiro último, às 4 horas da tarde, foi inaugurada em Washington, na Universidade Católica, a Biblioteca Oliveira Lima.
São 40.000 volumes. Lembra-me o dia em que os visitei com o Sr. Oliveira Lima. Estavam ainda baralhados, sem ordem. Meu amigo fez passar sob meus olhos o encanto de edições em Holanda e em China. Toda uma série de primores. Livros de viagem e de ciência, de biografia e de poesia, romance e obras de direito, ensaios e memórias. Lombadas de luxo passaram-me entre os dedos, as de marroquim a ranger duma como esquisita volúpia. E livros antigos, ainda nas primeiras edições em pergaminho.
São 40.000 volumes, os da Biblioteca Oliveira Lima, recolhidos por toda parte: pelos leilões de Londres, pelas caixas escancaradas dos alfarrabistas de Paris, pelas livrarias de Berlim, de Lisboa, da Suécia, de New York. E encadernados, depois, em carneiras magníficas, dessas que parecem desdenhar da gula dos bichos e da ação erosiva do tempo. Verdadeiros broquéis.
Toda lima manhã passamos no meio daquele luxo de livros, que o meu amigo começava a pôr em ordem, distribuindo-os e fazendo-os distribuir pelas severas estantes de pau.
Lembrei-me de que naquela fartura de livros estava uma fortuna. Os milhares de volumes dispersos pela sala representavam centenas de contos. E eram o nobre esforço de um homem relativamente pobre.
A inauguração da Biblioteca, a 5 de fevereiro último, foi solene. Presidiu-a o Bispo-reitor da Universidade, Rev. Shahan. E rodeavam-lhe o roxo da murça episcopal toda uma onda de fraques oficiais: o Embaixador da Espanha, o Encarregado de Negócios de Portugal, o Secretário da Embaixada do Brasil, diplomatas Jatino-americanos, o ex-ministro dos estrangeiros do Chile, Sr. Carlos Aldunate. E era vasto o número de professores, decanos das faculdades, religiosos das várias congregações filiadas à Universidade, estudantes.
Discursou primeiro o Sr. Oliveira Lima; e foram palavras, as suas, de sóbria emoção e impregnadas do mais fino sentimento de patriotismo continental. Da biblioteca disse que representava quarenta anos de esforços; que os volumes ele os ajuntara carinhosamente um a um. Não se destinava a nova biblioteca ibero-americana a cemitério de livros, mas a um centro de atividade intelectual. Referiu-se ao momento da inauguração da livraria e àquele, dias atrás, em que iniciara seu curso de Direito Internacional, como dois dos momentos mais agradáveis da sua vida: e devia-os ambos à Universidade Católica.
Falou em seguida o Encarregado de Negócios de Portugal, Sr. Mendes Leal. Desde os seus dias de secretário de legação junto à Santa Sé, que o interessava a obra magnífica da Universidade Católica. Sentia-se feliz em assistir à inauguração da Biblioteca ibero-americana, donativo à Universidade de um brasileiro que é tão caro a Portugal: o autor de Dom João VI no Brasil.
O último discurso foi do Reverendo Reitor. Em nome da Universidade agradeceu ao Sr. Oliveira Lima e a D. Flora Cava1canti de Oliveira Lima, a excelente doação; e exaltou-lhes a vida de nobres preocupações.
A Universidade Católica da América, que se eleva com a Biblioteca Oliveira Lima, a um dos grandes centros de estudos ibero-americanos, fundou-a Leão XIII, sobre o donativo de Miss Caldwell, depois Marquesa de Montiers-Merinville. Data apenas de 1889, mas seu desenvolvimento tem sido rápido. Nela se concilia o ideal de cultura do Cardeal Gibbons: "A religião e a ciência são irmãs como Marta e Maria: ambas servem ao Senhor."
A Universidade Católica compreende várias seções, entre as quais o Instituto de Tecnologia (matemáticas aplicadas e engenharia), a faculdade de ciências sociais e filosofia, a de letras, a de teologia etc. Confere os tradicionais graus universitários de B. A. (Bachelor of Arts) e M. A. (Master of Arts). É uma das raras universidades americanas que mantém cursos de Português e Literatura brasileira, cadeira ora ocupada pelo Professor SiqueiraCoutinho.
FREYRE, Gilberto. 48. Diário de Pernambuco. Recife, 16 Mar. 1924. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 378-379.
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