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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Nas montras dos livreiros de New York acaba de aparecer a obra A Study in Mental Life, do Professor Robert Woodworth, da Universidade de Colúmbia. Recomenda-a meu mestre, o grande Giddings, como a última palavra no estudo de Psicologia.

Há no trabalho do Professor Woodworth um frescor de idéias e de estilo, raro nos livros desse gênero. Até os polissílabos arrevesados, soube evitar o pedagogo. Entretanto, não falta ao seu estilo nem precisão nem método: é sempre "comme il faut".

Destacarei do livro algumas idéias novas. Sem ter a mania da novidade, o Professor Woodworth aponta; calmamente, com o mais fleugmático espírito crítico deste mundo, o arcaísmo de certas definições. A de psicologia, por exemplo. Que é psicologia? Desde os primeiros tateantes ensaios dos gregos na região misteriosa da vida mental que se vêm congelando definições: "ciência da alma", "ciência da mente", "ciência da consciência", "ciência do procedimento". Rejeita o Professor Woodworth a definição dos gregos .porque, ao seu ver, puxa a psicologia para o terreno do desconhecido, inacessível aos métodos de investigação científica. À segunda "definição, " "ciência da mente", objeta o arguto psicólogo porque. "a psicologia é distintamente o estudo de ações e não de coisas". À terceira, "ciência da consciência", oferece o Professor Woodworth esta objeção:. "limita o campo da psicologia aos problemas de consciência, quando os há também de ações inconscientes". A quarta, prejudica-a, ao "seu ver, o freqüente uso da frase "behaviour psychology", que apenas se. refere a parte da psicologia.

Rejeitadas essas definições, apresenta o fastiento psicólogo a sua. Não é fácil resumi-la. Porém, creio que, em essência, é isto: "a psicologia é o estudo da vida mental ou, melhor, o estudo científico das atividades e processos mentais". Que é atividade mental? Tipicamente é uma atividade "consciente". Tipicamente, porém, "não sempre". Há atividades mentais que são apenas" "near conscient", isto é, um tanto, porém, não de todo, conscientes. São parte da vida mental. São objeto, com as conscientes, do estudo do psicólogo.

No estudo de instintos apresenta o autor esta classificação: 1) instintos em resposta a necessidades orgânicas; 2) instintos em resposta a outras pessoas; 3) instintos não específicos. À última classe pertence o rir, a locomoção, a curiosidade.

Das teorias de "supressão de desejos" e de personalidade, sustentadas pela Escola de Psicanalistas, de que é mestre o Professor Freud, discorda em parte o Professor Woodworth. "Freud exagera a influência do inconsciente", opina o autor de A Study in Mental Life.

Estudando a reação a trabalhos de arte, em três ou quatro páginas interessantíssimas, procura o Professor Woodworth definir esse não sei quê: o gozo que a arte provoca. A reação é emocional e intelectual. É o agitar-se deleitoso da imaginação do observador procurando recriar a concepção do artista. E é também emoção pura - algumas vezes fácil de analisar (apelo a impulsos emocionais como a dor, o medo, o desejo sexual etc.); outras vezes, fugitiva à mais sutil análise, incompreensível. Por que é que ao se achar a pessoa, de repente, em face de grande obra-prima - o Apolo Belverdere ou a Sistina Madonna - brotam-lhe lágrimas dos olhos? Ou, também, ao escutar um lindo trecho de música? O Professor Woodworth faz essas perguntas sem saber respondê-las. Ninguém sabe respondê-las.

Procura o psicólogo sutil explicar a atração na arte, especialmente na arquitetura, do "grande" e do "sublime". Talvez seja a "tendência para submissão", a "alegria humilde de submissão" (lhe humble joy of submission). Talvez seja o que o professor chama "empathy", isto é, o projetar-se da: pessoa no objeto - por exemplo, uma catedral gótica. A catedral é grande, magnífica; o observador ao identificar-se com ela sente-se grande. Talvez essas duas reações variem de acordo com a ocasião e a pessoa. Tomo a liberdade de acrescentar: de acordo com o sexo. Será mais natural na mulher a alegria de submissão, diante da grandeza duma catedral gótica, que no homem. E mais natural no homem artístico que no filistino - havendo sempre naquele um toque de feminilidade.

Vários outros assuntos de interesse versa o Professor Woodworth no seu novo livro. E sempre com clareza, frescor, mocidade. Sem, entretanto, perder o prumo, pois a fleugma do cientista é qualidade que não lhe falta.



FREYRE, Gilberto. 49. Diário de Pernambuco. Recife, 19 fev. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 195-196.

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