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Artigos : Imprensa  



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Da Outra América


O século XIX - o "stupide" de Leon Daudet - primou, como se sabe, pelo "idealismo". O "idealismo" da Democracia, do Progresso, da Ciência. O "idealismo" a que o Sr. Jacques Maritain, em Anti-Moderne e, recentemente, em Le Thomisme et la Crise de l'Esprir Moderne opõe o realismo de São Tomás de Aquino.

A obra do exagerado "idealismo" do século XIX foi desgarrar dos seus razoáveis limites um grande número de idéias e um número ainda maior de normas de conduta. Entre as idéias, a de liberdade individual - inclusive econômica - que, felizmente, vai refluindo em toda parte para os seus justos limites. Entre as normas de conduta a tolerância. O século XIX elevou-a a exageros monstruosos.

À universalidade da tolerância se opõe o bom senso: nem sempre é virtude a tolerância. Nada mais natural que tolerar um indivíduo ao seu jardineiro as crenças mais estranhas e mais diversas das suas. A intolerância seria em tal caso um absurdo. Mas tudo se inverte quando em vez do jardineiro se trata da governante dos filhos. Neste caso é a tolerância que passa a absurdo.

Antero de Quental assumiu em face do "Syllabus" uma atitude que causou a maior das sensações: defendeu-o. Do ponto de vista Católico a intolerância da carta Encíclica de Pio IX pareceu-lhe inteiramente justa. E era. O absurdo teria sido a tolerância.

Conta-se que, uma vez, falavam na presença de Tobias Barreto da intolerância da Igreja Católica, talvez a propósito do mesmo "Syllabus" e do mesmo Pio IX. Tobias interveio na conversa: "Não, a Igreja não pode tolerar; a tolerância é filha da dúvida e a Igreja pão deve duvidar, porque acredita possuir a verdade."

A intolerância exerce uma função defensiva. Encontramo-la na política sócio-econômica do Império Britânico e na política espiritual e moral da Igreja Católica. Encontramo-la no bom inglês e no bom Católico.

É virtude, semelhante intolerância? É um elemento criador. A tolerância - a não ser nos seus justos limites - é que nos tornando demasiadamente permeáveis, destrói no indivíduo e nas sociedades a capacidade de ser pessoal ou de manter-se nacional.

Na arte, na literatura, na filosofia os grandes criadores são os grandes intolerantes. Que foi senão a tolerância sob o nome de "diletantismo", o "moi, vous savez, je suis eclectique", esse requinte de espírito liberal que irmana nas estantes os Ohnet e os Flaubert e os Goncourt e os Delpit e, nas paredes, os Gustave Moreau e os Bonnat, que J. K. Huysmans denunciou num dos seus mais pungentes ensaios?

Sainte-Beuve prejudicou um tanto o espírito crítico ligando-o à idéia de tolerância e ec1etismo. Desmasculou-o. O espírito crítico, para ser criador e ter sexo próprio, necessita da intolerância: de ser capaz de antipatizar.

Nós, brasileiros, somos em todas as coisas de uma tolerância que nos acabará comprometendo a unidade nacional. A prova é a facilidade com que nos deixamos penetrar no mais íntimo da nossa vida sócio-econômica por elementos estrangeiros dos mais indesejáveis: desses que saem a rolar pelas pátrias alheias, sugando e absorvendo. Descaracterizando.

O excesso de tolerância neste sentido estende sobre nós a sombra de uma ameaça séria: e de nos tornar, um dia de crise, incapazes de orientar a vida nacional de acordo com as nossas tradições. Nesse dia terrível, de que Deus nos livre, experimentaríamos quanto pode a "escroquerie" de uma minoria toda preocupada em lucros materiais, contra os ideais e os interesses comuns de uma vasta maioria que, tolerantemente, se deixa roer no que lhe é mais próprio, mais íntimo, mais característico.



FREYRE, Gilberto. 49. Diário de Pernambuco. Recife, 23 Mar. 1924. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 380-381.

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