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O Recife dá a quem chega a impressão de uma cidade sem árvores; e a quem demora uns dias a impressão de uma cidade sem música. Nos seus cafés e nas suas confeitarias não há sequer arremedo de orquestra; pelas ruas não vaga um menestrel; os próprios mendigos já não cantam na sua pedintaria; e quem nos dá notícia de um coro de igreja, duma capela qualquer onde se possa ouvir sem desconforto um pouco de canto gregoriano? Dir-se-ia que somos uns convencidos da doutrina de que já não me lembra que maganão citado por Alphonse Daudet: que a música é simplesmente a forma mais dispendiosa de fazer barulho. Amigos da economia e do silêncio, evitamos a música ou, antes, fazemo-la substituir pela chamada cena muda, que deliciosamente combina as vantagens de barateza e silêncio.
Ganharia para o Recife um gostozinho maior com a música, o título de extravagante? Creio que não. Nem com a música nem com as árvores. Aliás a respeito das árvores o atual Prefeito dá mostras de nitidamente compreender a monstruosidade da nossa situação: cidade tropical sem árvore, dando a lembrar um tanto macabramente a quem a avista de longe um amontoado de esqueletos, a secar ao sol.
A música, esta, refina. É a mais dinâmica das artes. Tem mesmo - dizem-no especialistas - valor terapêutico. Não falo, é claro, da chamada jazz music que acompanha as danças modernas; esta deve embrutecer. Tolstoi disse que toda música embrutece, à maneira de incenso. É que Tolstoi não chegou a ouvir a Electra; nem Salomé; nem Also Sprach Zarathustra; nem peça nenhuma de Richard Strauss. Os bons modernos. Convenho com o romancista no tocante à música das danças modernistas, a qual deve na verdade embrutecer. Aliás as tais danças, logo nos títulos, outra coisa não prometem senão aproximar o homem dos seus inferiores na escala zoológica. O passo do camelo (camel walk) aproxima-o desse animal; o passo do ganso (goose step) do ganso; o passo do peru (turkey trot), do peru ou da perua, conforme o caso ou, como se diz na gramática, o gênero. Conhecem-se até fenômenos de radical transformação.
Convém, entretanto, recordar, em justiça aos chamados animais inferiores, que logo depois de principiado o furor da jazz music se fizeram no jardim zoológico de New York experiências interessantíssimas mediante uma jazz band que ali executou peças do seu repertório.
Apurou-se das experiências que os nossos inferiores, em geral amigos da música - chegando até ao extremo da voluptuosidade, como as serpentes - são inimigos da tal jazz. Os macacos não se limitaram, à maneira das cegonhas, à filosófica indiferença ou apatia; neles a jazz excitou fúrias homicidas, iconoclásticas e creio até, mas não estou certo, suicidas.
Colheu-se, outrossim, das referidas experiências que a música é capaz de produzir importantes efeitos fisiológicos. Aliás, esse dinamismo da música, vem, nos Estados Unidos, servindo de assunto a curiosas investigações nos laboratórios de psicologia experimental. A ânsia experimentadora dos americanos parece não ter limites. Um deles, por exemplo - e não foi senão Scripture, autor de The New Psychology - lembrou-se de determinar a influência da música, mediante um aparelho de pressão. Em silêncio, refere Scripture, citado pelo Sr. Moffat em "The Mentor", conseguiu comprimir o aparelho à marca de quatro quilos. Ao som do "Trecho dos Gigantes" na peça "Rhein gold" a pressão foi a 4,1/2 quilos.
Num meio como o nosso, dominado - segundo ainda há pouco observava em sisuda oração de liturgia o Professor Ulysses Pernambucano - pelo furor dos resultados imediatos, semelhante prova do dinamismo da música deve valer alguma coisa. A música, quando inteligentemente escolhida, aumenta em nós a capacidade de trabalho. Não ouso ir ao extremo de referir o caso do flautista de Hamelin e da ação mágica de sua flauta sobre os ratos da cidade medieval, por medo de provocar contra mim as fúrias da Sociedade Protetora dos Animais. Os curiosos acharão a história, com as suas minúcias mais íntimas, entre os poemas de Robert Browning.
O que eu sou é um convencido da delícia da música. E não só da "music for music sake", que é alguma coisa como a arte pela arte do decadentíssimo "fin de siêcle". Meu amor pela música tem igualmente seu travo pragmático: a música reduz a necessidade de conversar que sempre foi para mim agudo tormento. A música pode ser uma forma dispendiosa de fazer barulho; mas é preciso não esquecer que consegue silêncios compensa dores. Nunca hei-de esquecer o minuet de Paderewski e isto não só pelo meigo da peça como porque uma vez, num clube, quase miraculosamente me livrou das garras inquisitoriais dum causeur. Inquisitoriais, sim; há hoje uma inquisição cujos agentes são os causeurs e os dentistas. E ao lado deles, os clássicos são como doces criancinhas ao lado de barbudos gigantes maus.
FREYRE, Gilberto. 4. Diário de Pernambuco. Recife, 13 Maio 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 256-258.
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