50
Os psicólogos de mulheres. .. Muita gente não acredita neles. Mais depressa acredita na "buena dicha".
Parece-me injusta, a atitude. Temos psicólogos de crianças, psicólogos de loucos, psicólogos. de animais, psicólogos de multidões. Tomamo-los a sério. Por que não tomar a sério os de mulheres? f: a mais natural das especializações. Se tem mistérios, também os tem a psicologia dos loucos e mesmo a nossa - isto é, a dos homens que se supõem sãos. Ou normais.
Por pensar assim é que fui, domingo, ouvir um psicólogo de mulheres. E hora de encanto,. a que passei a ouvi-lo. Sóbrio e agudo, falou da inteligência das mulheres pelo puro prazer de vasculhar o assunto, de penetrá-lo, de compreendê-lo. Assim falavam os gregos.
f: inglês, o psicólogo de que falo. Passou uns anos em Paris: Paris - a Roma donde se sai romano, até um inglês. Imagino que foi por algum tempo um desses ingleses wildeanos que chamam Paris "mon vieux Paris". Hoje, é homem em volta dos quarenta, calvo, de "pince-nez", bigode a escova de dentes, um ar de deputado. É casado - casado de fresco. Creio mesmo que esta sua viagem aos Estados Unidos é de lua-de-mel.
Chama-se W. L. George. Dá-se à inútil ocupação de escrever novelas. Na Inglaterra, "essencialmente prática", os homens-formigas toleram os homens-cigarras. Tanto, que até alguns destes têm morrido numa fartura de libras, ricos, de pança cheia. A Inglaterra adora os "fazedores de livros". Isto desde o tempo de Voltaire que salienta o fato nas suas Lettres.
Há estudado Mr. George grande número de mulheres entre as idades de dezessete e sessenta e oito anos. Destas algumas são casadas, outras solteiras etc. "O falado mistério feminino - opina o psicólogo - não é maior que o masculino. A mulher não é, como se tem dito, misteriosa, impenetrável; é inexplorada. Não tem sido estudada pelo homem tanto quanto merece. Mais intenso tem sido o estudo do homem pela mulher. O homem absorve quase toda a atenção da mulher; por outro lado seu interesse espraia-se em negócios profissionais e em outras fases, para ele sérias, da vida. Não se concentra na mulher. Não procura o homem entender a mulher - o que explica muitas tragédias conjugais. Talvez o maior prazer da mulher é notar que a observa o homem, que a procura compreender. O homem faz menos questão de ser compreendido. Da mulher americana disse o inglês: "Não é o que ela imagina ser. A única diferença entre a mulher americana e a mulher européia é que a daqui usa melhores sapatos. Não há fatos que autorizem a lenda da sua pretendida superioridade."
Julga Mr. George a mente feminina "mais ágil" do que a nossa; porém incapaz de fixar-se em um só assunto. Está sempre a pular de assunto, superficialmente, numa fácil generalização. Igualará a nossa no futuro, na capacidade de concentrar? Mr. George não sabe. Ninguém sabe. Que digo? Talvez o saiba o ilustre membro do Senado brasileiro, Sr. Lopes Gonçalves. Aliás Mr. George, como o Senador Lopes, é feminista. Tomou parte na campanha feminista na Inglaterra. Mas, como disse, sua conferência de domingo não foi em defesa de coisa nenhuma; foi por puro remexer de verdades, de fatos, de reparos, que ele vem amontoando em "carnets", a casos pegados em flagrante.
"O homem é mais respeitador de convenções e das opiniões dos outros que a mulher", disse Mr. George. E citou dois casos. Primeiro este: "Um casal. O homem espera. Veste-se a mulher. Afinal aparece. Pôs demasiado carmim nas faces e nos lábios. Nota-o o marido e diz que não sai com a mulher assim. Toda gente, na rua, olharia para ela. Julgariam-na talvez uma. . . Não, não sai com a mulher assim." O outro caso: "Outro casal- Mr. George e a esposa. Poucos dias depois de casados. Ele põe umas horríveis calças de xadrez. Ela não gosta das calças. E diz que não sai com ele porque não lhe agradam as tais calças." Como se vê, não pensa a mulher - segundo Mr. George - no que hão-de dizer os outros. Seu gosto, é o que a dirige.
"É a mulher - disse o psicólogo inglês - mais primitiva do que o homem." Não é idéia nova, esta. A inteligência da mulher parece mais, que a nossa, com a do selvagem. A do homem é, como se diz em inglês, mais "sophisticated". Estou que foi pensando no "primitivismo" da mente feminina que Schopenhauer escreveu da mulher que era "um ser intermediário entre a criança e o homem feito". Sendo primitiva, a mulher é mais realista que o homem. Vê o que está perto, diante dos olhos, o que é palpável. O homem sonha, procura ver longe, sondar o vago futuro: é idealista.
Muito mais disse o novelista psicólogo de Ursula Trent sobre a mulher. Muito mais disse das suas qualidades e dos seus defeitos ou, melhor, dos seus atributos - porque defeitos e qualidades dependem do ponto de vista. As diferenças psicológicas entre os sexos são tão reais como as fisiológicas das quais constituem por assim dizer a expressão ideal - isto é, em idéias e em atitudes mentais. Negar estas diferenças é tolice. Da minha parte eu creio que as diferenças do homem não desabonam a mulher. Ser diferente não quer necessariamente dizer ser inferior.
FREYRE, Gilberto. 50. Diário de Pernambuco. Recife, 26 fev. 1922. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 197-199.
|