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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Os jornais estão cheios dos retratos de dois velhinhos: o Papa e Lord Bryce. Dois velhinhos mortos. Vou falar-vos de Lord Bryce. A Benedito XV é possível que dedique minha próxima crônica.

Morreu Lord Bryce aos oitenta e quatro anos e de repente. Doce morte, a sua. Pode-se mesmo dizer de Bryce, como de Fradique o doutor parisiense: "toujours de Ia chance, ce ce Lord Bryce".

Foi na verdade o autor de The American Commonwealth criatura feliz. Escandalosamente feliz. Feliz como um herói de conto de carochinha. Entre ele e os heróis de contos de carochinha eu noto apenas este contraste: Bryce foi solteirão até os cinqüenta e tantos anos enquanto os felizes heróis da Carochinha casam cedo e "têm muitos filhos". Bryce não deixa um só; apenas discípulos, pois, foi por algum tempo mestre-escola. Sim, pai espiritual, isto ele foi de muitos. Ao próprio Brasil chegou sua influência e há aí quem o estude inteligentemente. O Sr. Anibal Freire, por exemplo, é estudante de Bryce, com a maneira sóbria do qual - o Sr. Anibal é o menos sonante dos nossos escritores políticos - a sua possui certos pontos de afinidade.

Alcançou Lord Bryce a glória de semideus entre os anglo-saxões. Era para estes - para os americanos do Norte, para os ingleses, para os australianos, para os sul-africanos, uma espécie de Ruy Barbosa, isto é, o que o erudito Conselheiro Ruy é para os brasileiros. Exagerada, a estima que lhe votavam, como exageradíssima é a que entre nós se vota ao Conselheiro.

Lord Bryce, como o Sr. Ruy Barbosa, foi um dos velhos a quem a Guerra fez perder o prumo, o equilíbrio, o juízo. Que nós outros, criaturas de verdes anos, tão facilmente perdêssemos o juízo - explica-se. Porém os excessos a que sucumbiram não só os Ruys Barbosas, porém, anciãos aparentemente fleugmáticos como o Professor Giddings, José Veríssimo e Lord Bryce - são casos a estudar. Como ficaram sós, na França, Rolland, na Inglaterra, Shaw. no Brasil, o Sr. Oliveira Lima! Lord Bryce foi na onda.

A glória de Lord Bryce começou cedo. Consagrou-o "scholar" - e foi um "scholar" e tanto - seu trabalho de mocidade, publicado aos vinte e quatro anos: The Holy Roman Empire (O Santo Império Romano). Confesso que jamais folheei esse livro de Bryce. Dizem-me que é obra maciça, de polpa. Representa o esforço e as vigílias dum jovem entre as idades de vinte e vinte e quatro anos estudante em Oxford e, na Alemanha, sob o sábio Mommsen. Pouco tempo depois foi Bryce nomeado para uma das cadeiras de Direito Civil, na mesma Oxford. Logo, elegeram-no para o Parlamento. E continuou Bryce a subir, a escalar postos de honra no governo de Sua Majestade, em vitórias fáceis e justas. Um caso, o seu, de "mocidade vitoriosa", como diria o vivaz Sr. Dioclecio Duarte. Pela meia-idade, continuou a carreira triunfal de James Bryce. Continuou pela velhice. Conferiram-lhe o título de Visconde e Deus sabe quantos diplomas honoríficos - uma montanha deles. Devem encher um baú ou dois. Talvez encham três. Vieram da Inglaterra e do estrangeiro estes diplomas "honoris causa". Porque da glória anglo-saxônia cedo passou Lord Bryce à glória mundial.

A esta orgia de glória, quem havia de melhor fazer jus? O admirável é que a ela não tivesse sucumbido inteiramente o pobre escocês. Não sucumbiu. E em plena velhice escreveu um. livro que lhe dá direito a figurar entre os melhores escritores do gênero político.

The American Commonwealth (A República Americana) dá a Bryce o direito a parte, pelo menos, da glória fenomenal que alcançou.

E obra notável. Prima. Revela um observador arguto e um estudante meticuloso da vida política americana nos seus mais íntimos aspectos. Como a conseguiu escrever Lord Bryce é milagre que não se explica. Escreveu-a durante os anos que aqui passou como Embaixador de Sua Majestade. Escreveu-a no meio do furor mundano de Washington. O fato surpreende. Raro o diplomata que conhece o país onde vive. Sua existência é artificial. À parte. Passa às vezes um ministro ou um embaixador vários anos em certa corte: vai embora sabendo apenas onde se come melhor, quem dá mais saborosos chás, qual o mais fino alfaiate e à beira de que lago se passa mais elegantemente o verão. Excepcional, portanto, Lord Bryce. E no seu caso mais estranho, ainda, o fenômeno: Bryce era inglês. Ora, quando se é inglês - fora exceções magníficas! - não é preciso ser diplomata para passar anos a fio em terra estrangeira, ignorante dela. Qualquer guarda-livros ou caixeiro do London Bank, em Pernambuco conhece mais o Brasil que o Sr. Fontoura Xayier a Inglaterra.

Bryce não se contentou em escrever sobre os Estados Unidos trabalho sem igual, no que diz respeito à vida política. Escreveu também de Sul América, excelente livro de observações e impressões. Em geral o inglês escreve bons livros de viagem - porém sobre a natureza. A natureza exótica enche-o de êxtase. As paisagens, descreve-as deliciosamente. Da gente é que muitas vezes sabe apenas maldizer: não se dá ao esforço de compreendê-la. Eça de Queiroz disse uma vez que para o inglês ninguém pode ser moral sem ler a Bíblia, forte sem jogar o "cricket" e "gentleman" sem ser inglês. E é pura verdade. Imagine-se, pois, Lord Bryce no Brasil, face a face com as nossas instituições eminentes: a briga de galo, o jogo de bicho; um caboclo, o General Pinheiro Machado, dono do país; João Cândido, preto retinto, chefe duma revolução. Tudo muito pitoresco e digno de estudo - exceto para um inglês. Pois Lord Bryce de novo nos surpreende: seu livro é justo e até generoso, cheio de simpatia humana. Arguto. Os reparos que faz, ainda que de caráter fugitivo - porque a passagem de Bryce pelo Brasil foi rápida - são quase sempre exatos. Admiravelmente exatos. Não os tingem rancores nem de raça nem puritanos.

O último trabalho de Bryce não o conheço, a não ser de vista. Vi-o na montra dum livreiro com um preço fabuloso a berrar num cartão. Vou tomá-lo emprestado à biblioteca da Universidade e lê-lo. Deve ser bom. Chama-se Modern Democracies (Democracias Modernas). Dizem-me que aí a atitude de Bryce com relação ao sistema democrático é de otimismo. Lendo-o, talvez eu possa recolher um pouco desse otimismo. Porque, francamente, minha atitude ante o glorificado sistema político é muito parecida à de Amiel: em vão procuro-lhe os méritos mais exaltados.



FREYRE, Gilberto. 51. Diário de Pernambuco. Recife, 19 mar. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 200-202.

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