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Da Outra América
Há palavras com as quais se conseguem milagres. Milagres de economia verbal.
Basta saber graduá-las quanto à inflexão e à cadência : exprimem mil e uma coisas, de um extremo ao outro, do grave ao agudo.
"Delicioso" é assim. É um adjetivo amplo e elástico. Convém ao Sr. Almachio Diniz como ao Sr. Anatole France. E há toda uma filosofia em atravessar a vida com a palavra "delicioso" nos lábios, distribuindo-a para a direita e para a esquerda, como a destra untuosa e boa de um bispo distribui a bênção.
Podem ser, ao mesmo tempo, "deliciosos", um verso de Shelley ou de Laforgue e um verso de Victor Hugo; um gesto de Cécilé Sorel e uma postura; do Sr. Domício da Gama; um paradoxo de Jean Cocteau e uma página de filosofia do mesmo Sr. Almachio Diniz.
Já Amado Nervo escreveu uma vez do seu amigo Ruben Dario que a palavra "admirable" lhe permitia "responder todas las preguntas, comentar todos los sucesos, intervenir en todas las conversaciones". Deliciosa palavra, o "admirable" de Dario, que pela só inflexão da voz do poeta fazia as vezes desse mundo de palavras com que nos ameaçam e nos estonteiam os "causeurs" profissionais.
Mas o exemplo clássico dessas palavras, de uma elasticidade que as torna verdadeiramente mágicas, vamos encontrá-lo em Rostand. Recordam-se os senhores do "mais" de "L' Aiglon". O mais elástico dos "mais". Um delicioso "mais". Um "mais" mágico.
"Sentez-vous tout ce que ce mais veut dire?" Era um "mais" que neutralizava em cinzento o mais puro dos brancos ou o mais puro dos pretos.
O Stembroken do nosso querido Eça entrincheirava-se diante das situações mais diversas da vida mundana num "c'est tres grave". Mas um "c'est très grave" invariável quanto à inflexão e à cadência. Excede a inteligência dum diplomata finlandês ou suíço manejar uma frase com a plasticidade e a fluidez com que Rubens Daria manejava o seu "admirable".
Porque o certo é que isso de "responder todas las preguntas, comentar todos las sucesos, intervenir en todas las conversaciones", com um só adjetivo, requer sutilezas de artista e uma voz ágil e fluida como a própria água. É arte que não se aprende nos tratados de retórica nem nas escolas de bem dizer, essa de atravessar a vida com um "admirable" ou um "delicioso" ou um "mais" nos lábios sóbrios e continentes.
FREYRE, Gilberto. 51. Diário de Pernambuco. Recife, 6 Jun. 1924. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 384-385.
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