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Artigos : Imprensa  



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Sábado passado foi para mim um dia sonante. À tarde, no Scolian, ouvi Friedman, o pianista polaco, que desfolhou do teclado dum Steinway as notas de duas sonatas e de sete ou oito estudos de Chopín. À noite fui a Salomé - o drama de Oscar Wilde posto em música por Strauss. É da ópera que me vou ocupar. Strauss regendo Strauss.

Conhecem de certo o drama de Wilde. Há dele uma versão portuguesa de João do Rio. Não a conheço - porém deve ser boa. Paulo Barreto possuía, como ninguém, o verbo voluptuoso com que verter ao nosso idioma, do francês, a obra erótica de Wilde, posta em música por Strauss. A tradução inglesa, acabo de percorrê-la com delícia, página a página, cotejando-a com o original. Sim, Wilde escreveu Salomé em francês. E destaco este fato porque ainda há pouco vi uns versos do fino poeta brasileiro que é o Sr. Araújo Filho, aos quais servia de tema certo fragmento, em inglês, de Salomé. Evidentemente supunha o poeta ser do original o extrato: "I want the Head of Yokanaan". Engano. O original é: "Je vous demande la tête d'Iokanaan".

Edgar Saltos já nos contou como a idéia de escrever Salomé ocorreu a Wilde. Foi uma noite, num café de Piccadilly. Não, foi depois da ceia no café: nos aposentos de Francis Hope. Havia lá uma gravura de mulher com as pernas para o ar, equilibrada sobre as mãos finas. Era Salomé. Impressionou a gravura a Oscar. Tanto que ele exclamou: "La bella donna della mia mente!" Depois do que bebeu-se whisky e soda.

Mas Wilde não esqueceu a gravura. Não esqueceu Salomé. Dois ou três anos depois a tragédia sem igual aparecia em francês, escrita pelo próprio Wilde, talvez com uns toques e retoques de Stuart Merril. Aceitou-a Sarah Bernhardt. Salomé teve o seu "debut" em Paris e por algum tempo foi a mais falada obra de arte, aquela em torno da qual girou a curiosidade do mundo.

Da música de Richard Strauss, sinto não conhecer a história. Pergunto-me a mim mesmo: o que teria atraído um nietzscheano como o grande compositor alemão à personalidade gelatinosa de Wilde? Dir-se-ia haver no que escrevia Wilde, como na sua pessoa, algo de viscoso, que pega nos dedos. Strauss, por outro lado, é seco, quase metálico. Metálico, é bem a palavra: foi a impressão mais forte que dele me ficou, uma noite do ano passado, no "Town Hall", conduzindo Salomé. Entretanto, penetrou Strauss no espírito de Salomé e deu-nos uma música tinta de sangue, arrepelada de sopros de perversão, berrante quando fala Herodes e quando discutem os judeus, grave quando fala o profeta, cheia de fogo no amor terrível, serpentina, de Salomé.

Sábado passado, na Manhattan Opera House, fez de Salomé a grande artista que é Mary Garden. O crítico teatral do "Times" achou Mary Garden demasiado gesticulante. Eu não. Deve ter sido assim a princesa amorosa: excessiva nos gestos, ora em arrepios de luxúria, ora em ondeias de volúpia. Gesticulando sem intenções ou significações aparentes.

Fez de profeta o Sr. Hector Dufranne, belo tipo de homem. Vendo-o tive a confirmação do que me pareceu sempre um erro de Wilde. É este: Wilde põe na boca de Salomé estas palavras sobre o corpo de Iokanaan: "Je suis amoureuse de ton corps. Ton corps est branc comme le lis d'un pré que la faucheur n'a jamais fauché. Ton corps est branc comme les neiges qui couchent sur les montagnes de Judée, et descendent dans les vallées. Les rases du jardin de la reine d'Arabie ne sont pas aussi blanches que ton corps... II n'y a rien au monde d'aussi blanc que ton corps", isto é lindo porém, ao meu ver, vai de encontro a todas as possibilidades. Iokanaan vivia sob os sóis do deserto, meio nu, ora pregando aos que o iam ouvir, ora acocorado, comendo frugalmente seu mel silvestre e seus gafanhotos, ora no Jordão, com a água pela barriga, a cabeça hirsuta, a barba talvez a esvoaçar a um sopro de brisa, batizando. Como é que este homem que vivia ao sol podia ter corpo de neve e de rosas brancas? Seu corpo deve ter sido pardo, requeimado e talvez até peludo. De pêlos eriçados.

No drama de Wilde é num pequeno ruído que está o máximo de intensidade dramática. Este ruído é o da cabeça de Iokanaan, quando a decepa, no fundo da cisterna, o escravo negro. Há um momento de silêncio. Salomé diz: "Non. Je n'enlends rien. Il y a um silence affreux. Ah! Quelque chose a tombé par terre". Fôra a cabeça do profeta. Há na literatura outros exemplos de pequenos ruídos dramáticos. Intensamente dramáticos. De arrepiar o cabelo e de dar um nó na garganta. Ocorre-me, por exemplo, o tá-tá-tá na porta na tragédia de Shakespeare, Lady Macbeth. Também me ocorre o do rufe-rufe do tambor hindu na novela de Kipling Without Benefit of Clergy - pequeno ruído que por si só dá à história seu toque de "morbidezza". Lembre-se mais o ruído do bastão do cego que, vindo na estrada, primeiro vago, depois claramente audível, fazendo tremer como varas verdes o menino no romance de Stevenson, The Treasure Island. E, ainda, o pá-pá-pá-pá das marteladas no ataúde de madeira mole em Adam Bede, a novela de George Elliot. Ocorre-me da literatura portuguesa um exemplo de Júlio Dantas, num conto do qual não me lembra o nome. O ruído é um tic-tac de relógio. Porém citá-lo é tocar nos ruídos sobrenaturais. E destes está cheia a literatura.

O cenário de Salomé, na Manhattan Opera House, foi obra de arte. Lindos os reflexos cheios de luz e do clarão roxo, num roxo cor-devinho, das luzes de dentro do palco. Talvez não exagerasse a atriz americana Mrs. Leslie Carter, que recentemente, como Lady, na comédia inglesa The Circle, disse de volta de Paris: "Em assuntos de técnica teatral estão os americanos tomando pouco a pouco a dianteira em todo o mundo."



FREYRE, Gilberto. 54. Diário de Pernambuco. Recife, 9 abr. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 209-211.

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