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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



55


Recomeçarei estas cartas, interrompidas por excessos de "ascholia" (para usar enigmática palavra grega) memorando a morte de um amigo meu e do Brasil. Esta crônica é de homenagem, simples mas de todo o coração, a um velhinho querido que acaba de desaparecer aos setenta e tantos anos: John Casper Branner.

Não cheguei a conhecer pessoalmente o Dr. Branner. Uma vez, planejei ir vê-lo na Califórnia onde ele vinha gozando sua velhice tranqüila de sábio. Tinha tudo pronto para a viagem, menos o dinheiro. E como sem dinheiro não se vai à Califórnia, não fui. Nossa amizade continuou sendo o que fora desde os meus primeiros meses nos Estados Unidos: puramente epistolar. Aproximara-me do ancião ilustre o comum interesse pela língua portuguesa: nele, velho amor cuja flama resistira ao gelo de muita decepção; em mim, entusiasmo de adolescente. A primeira carta foi minha; respondeu-a logo o Dr. Branner. Veio depois uma segunda carta oferecendo-me certa quantia pela revisão do texto português que acompanha seu mapa geológico do Brasil. Fiz a revisão: reparos a lápis a certos deslises de linguagem. Não chegou a tempo, a não ser a última parte. Mas a nossa amizade estava feita. Daí por diante a troca de cartas foi freqüente.

Cartas sempre interessantes, as suas, revelando o grande curioso que foi até a morte. De uma dignidade que deixava entrever sua origem sulista, possuía, entretanto, Branner, o espírito humilde do sábio. E a mim, de quem ele poderia ser avô e que por certo não sou um Della Mirandola, escrevia, pedindo-me que o informasse ora disto, ora daquilo. Às vezes era "o pedaço dum poema lírico em português". Não o compreendia: mandava-mo. Outras vezes era para que lhe corrigisse algum artigo em português. Esta humildade nele que conhecia a nossa língua e literatura intimamente. Em estrangeiros que as conhecem pela rama, o contrário.

Por outro lado, quando inquirido ou consultado, procurava Branner ser exaustivo e completo na informação. Vejo nesta e em outras de suas qualidades o reflorir da alma alemã do seu avô. Branner gostava de remoer, de ir ao fim, de esgotar, às vezes mesmo de complicar. Lembra-me ter-lhe uma vez escrito perguntando qual, a seu ver, a origem da palavra "sertão". Branner foi ao seu Frei Domingos Vieira, à sua coleção inteira de dicionários portugueses, furou, mexeu, investigou tudo ao seu alcance, escreveu a máquina uma página inteira sobre o que achara. A origem mesma da palavra, a esta não achara; nem atinara com ela. Rejubilou quando, mais tarde, enviei-lhe eu a origem de "sertão" que me sugerira, em carta, um amigo do Brasil: de "desertus". "Perfeitamente razoável", escreveu-me. "Por que não dizem nada a respeito os dicionários?"

Foi o Dr. Branner ao Brasil para estudar-lhe a geologia. Dez anos aí passou. Palmilhou as praias do Nordeste, estudando os curiosos recifes que a orlam. Viajou pelo sertão, o verdadeiro, além d'Águas Belas, "de Cabrobó pra cima", o Nordeste das grossas chuvas tropicais, o de coqueiros agonizantes à beira de cacimbas secas. E ficou conhecendo não só as camadas estratificadas do nosso solo, a idade e as espécies de sedimentos e pedras - não só a terra da qual seu mapa a cores é o mais completo que existe, como mapa geológico, porém o povo, à gente, o brasileiro: do de fraque e gravata e anel no dedo ao esquivo e anguloso sertanejo. O sertanejo, o matuto, o praieiro. Em uma palavra: conhecia Jeca Tatu em todos os seus aspectos. E gostava do animal; tinha genuína simpatia pelo "Romo brasiliensis".

As coisas e pessoas do Brasil nunca o deixaram de interessar. Quando eu digo "coisas do Brasil" não me refiro às políticas, nem "pessoas" quer aqui dizer os políticos. Os brasileiros que interessavam vivamente o velho sábio eram os Oliveira Lima, os Alfredo de Carvalho, os Arrojado Lisboa, os Euclides da Cunha, e, dentre os novos, os Monteiro Lobato e os Gustavo Barroso. Urupês eu li no exemplar, em encadernação de luxo, que o autor oferecera ao Dr. Branner. Encantou-o o livro pela sua nudez e sinceridade. Mandoume com uma carta entusiástica. "É muito brasileiro e muito bom", escreveu-me do Sr. Monteiro Lobato. E noutra carta: "... é um verdadeiro artista com coragem e habilidade". Li o livro é também por ele me encantei: ali estava viva e nua, pegada em flagrante, em todo o seu sabor original, em toda a sua cor, no vagar quase gemente de sua ação, a vida brasileira. Gostou o sábio dos meus reparos e, esta vez, escreveu-me em inglês: "I am glad you liked it (Urupês). It seems evident that Monteiro Lobato is a very unusual, independent and able man".

Era freqüente entre nós a troca de livros. Emprestou-me vários dos seus, sempre com reparo conciso sobre o autor ou o trabalho. Fazia o mesmo com relação aos livros que eu lhe mandava. Dir-se-ia que nele, o estudo íntimo da fisionomia das rochas e da idade dos sedimentos, aguçara a faculdade crítica com relação a homens e a livros. Gostou muito da "Revista de Língua Portuguesa", da qual lhe enviei os exemplares - dois ou três números - que recebera do Brasil. "É um trabalho valioso e bem dirigido."

Ativa velhice, a do Dr. Branner, "sub tegmine fagi", na Califórnia, à sombra dessa Universidade a que ele dedicou talvez o melhor do seu tempo e de sua energia: a de Leland Stanford. Sempre atento ao que ia pelo mundo, ao que achava interessante, correspondendo-se com vários amigos, achava ainda tempo e ânimo, aos setenta e tantos anos, para trabalhar em mapas, traduzir ao inglês Alexandre Herculano e escrever memórias de sua meninice. Foi sempre um formidável trabalhador. Não o amoleceu a languidez dos verões brasileiros nem lhe desequilibrou os nervos o uso do nosso café de que tanto gostava. Não só do café; de todos os pratos da cozinha brasileira era o velho sábio apreciador e até entusiasta. Achava-os nectáricos. Gastronomicamente, morreu um exilado. Abrasileirara-se seu paladar e menos de um ano antes de morrer rememorava saudosamente a delícia de um mocotó, de uma feijoada, de um bacalhau com leite de côco, de um doce de leite. Considerava nossos pratos, e o disse uma vez num artigo, escrito a meu pedido para El Estudiante, "contribuições de alto valor para o bem-estar da raça humana".

Creio que o último artigo que em português escreveu o Dr. Branner foi esse. Foi publicado em maio de 1921 em "El Estudiante Latino-Americano", revista que então dirigíamos em New York eu e o meu amigo chileno Oscar Gacitua. Escreveu-o em resposta a este meu desafio: "o que eu faria se fosse um estudante brasileiro de volta ao Brasil."

Ficou porventura, neste artigo, sua última palavra à mocidade de um país que soube amar com o mais puro dos afetos e cujo futuro vislumbrava risonho seu grande, seu imenso, seu vitorioso otimismo. Estava planejando ir ao Brasil agora, em maio. Mas veio a morte e levou-o, sem dar-lhe tempo de dizer adeus à terra onde "canta o sabiá" e da qual, se "lá no eterno azul" aonde subiu, "memória desta vida se consente", há-de continuar meigamente enamorado.



FREYRE, Gilberto. 55. Diário de Pernambuco. Recife, 16 abr. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 212-214.

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