Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



58


Escrevo estas notas à ligeira, de volta do teatro, o chapéu para a nuca e um "Pall Mall" entre os lábios. Estou sem sono, a madrugada é fresca e no meu cérebro, assanhado pela comédia de Mr. Arnold Bennett, What the Public Wants, dançam idéias, gritam impressões. Duvido se valerá a pena pôr em ordem estas idéias e impressões boêmias. Para que, se ao primeiro contacto com o papel foge-lhes o encanto que pareciam ter? Parei em todo o caso um esforço.

Em primeiro lugar, o autor da comédia: Mr. Arnold Bennett. Mr. Bennett é inglês. Dos romancistas ingleses de hoje é o que mais me agrada. Não, exagero. Esquecia-me Thomas Hardy, o velhinho, já velhinho - há-de ter oitenta e dois anos já feitos - autor de The Return oi lhe Native. Mas, depois de Hardy, Bennett.

Possui Bennett um olhar de verruma. E sua mão é ágil no fixar de emoções - da mais primitiva à que passa ligeiro como um ai. Em certos sentidos Bennett é a edição inglesa de M. Paul Bourget. Em certos sentidos técnicos. Porque em atitude distanciam-no do autor de Le Disciple léguas e léguas: a do inglês é de esteta puro; a do francês a do esteta cedendo sempre lugar ao moralista, como aquele pintor do conto de Rossetti.

Mr. Bennett há chegado à maturidade de escritor fiel à sua arte. Nada de romances a tese com o artista-psicólogo de Five Towns. E um. tanto parecido ao nosso Eça - um Eça menos amargo. Há nele a mesma ironia, a mesma irrelevânda, o mesmo humour pungente; tudo, porém, como que dulcificado por imensa tolerância.

O que me levou ao Teatro Guild para ver a comédia de Bennett não foi só o nome querido do autor; foi também o assunto. A comédia é um estudo do moderno jornalismo inglês, do qual o americano é a expressão ainda mais viva e mais crua, dos defeitos. É o jornalismo de Lord Northcliffe e de Hearst que Mr. Bennett estuda Com vitoriosa irreverência. E a comédia com todos os seus defeitos técnicos, assanha o espírito e faz pensar. No fundo é um estudo de patologia - primeiro individual, depois social. Ou, talvez, ao reverso.

Nosso jornalismo aí no Brasil sofre de vários males. Pode o nosso jornalismo servir de tema a interessante estudo, aliás já esboçado pelo Sr. Assis Chateaubriand. E os reparos que a certa imprensa do Rio fez o belga Ch. Bernard - admirável pessoa a quem os bombons de obséquios oficiais não entravaram a língua - picaram tanto a mesma imprensa, por serem justos. Seria, entretanto, injusto dizer que o grosso da nossa imprensa tem descido a extremos de prostituição intelectual, como parte da americana. Não é o caso. Continua a brasileira apegada a certas noções de dignidade e de decoro. Se não conserva o prumo em questões de partidarismo político, não vai a excessos no explorar de escândalos pessoais. Se na sua crítica literária, de arte e de teatro cede ao peso de simpatias ou antipatias pessoais, indo a extremos ora de louvor, ora de condenação, não se põe, a troco dum cheque, ao inteiro dispor dum sindicato ou de particulares. Que estes casos de prostituição jornalística aconteçam no Brasil, não duvido; nego que sejam típicos.

Ao meu ver a comédia de Bennett ilustra isto: que o gosto do público é baixo, e procurar satisfazê-la representa, para um jornal, O suicídio de sua idéia de honra. Não só de sua idéia de honra; também do seu humour, da sua crítica, do seu bom gosto. O grosso público não possui consciência ou intuição de nenhuma destas coisas. Sua relação para com tudo isto é a de boi bravo para com os objetos de urna loja de porcelana de Saxe. O que o público quer do jornal é sensação. E quando um jornal se entrega inteiro ao gosto do público, sua circulação há-de naturalmente aumentar; mas já não é uma opinião viva; é uma prostituta.

Na comédia de Bennett a ação ainda gira em volta de certo Sir Charles Worgan - dono de jornal que passa a dono de muitos jornais, a milionário, a homem de decisiva influência na vida inglesa. E todo esse sucesso alcançado quase sem esforço. O homenzinho adotara por lema "What the Public Wants", isto é, dar ao público o que é do gosto do público. E apegado a esse lema subiu, em fácil vitória, a circulação de suas folhas aumentando fenomenalmente e, com ela, os lucros.

É exatamente o método seguido pelo Sr. Hearst, proprietário do mais poderoso sindicato de jornais nos Estados Unidos. No afã de satisfazer o gosto do público, o Sr. Hearst não vacila diante de coisa nenhuma. E semelhante devoção há sido fartamente recompensada. Seus jornais são os mais lidos. Seu sindicato estende triunfalmente os tentáculos pelo país inteiro. E constitui hoje um mecanismo de aguda sensibilidade que marca não só os minutos porém os segundos do gosto do público.

Que é que o público americano deseja do jornal? Isto: exploração de escândalos, divórcios, adultérios, desonestidades - especialmente em volta de artistas de cinema, banqueiros e políticos, e tudo muito coadinho, até aos pormenores mais íntimos; crimes - crimes descritos com as cores mais vivas, com o maior exagero, em letras de flama. Esta é a matéria de primeira página. Depois, farta reportagem sobre "sports", em torno dos quais há sempre grossos escândalos. E a página de caricatura e pilhérias - um humour primitivo para muzhiks engravatados. Depois, largas notícias sobre o que vai pelos teatros de vaudevilles simplórios; ligeiras notas sobre as peças de mérito superior. E continuam as colunas de What the Public Wants.

Ao meu ver, o fato de possuírem os Estados Unidos considerável massa de público meio-educado, a cujo gosto jornais e romancistas procuram adaptar-se, explica a inferioridade da sua literatura quando comparada, por exemplo, à de um país de milhões de puros analfabetos, como a Rússia. Igual confronto poderia estabelecer-se entre a feliz democracia de relojoeiros, hoteleiros e pedagogos que é a Suíça e a mais mediévica Espanha, possuidora, entretanto, de forte literatura dramática. De modo que os fatos parecem levar-nos à conclusão de que o analfabetismo de grande parte dum povo sessenta ou setenta por cento - é mais favorável que uma meia educação, à literatura e à arte. Naturalmente está subentendida a existência duma elite ou inteligência vigorosa.

Se os Estados Unidos vêm dando sinais, nos últimos anos, de um movimento de arte e de literatura que promete muito fruto e muita flor é que se está afirmando, em reduzido número, entre suas gerações mais novas, uma "consciousness of kind", como diria o meu professor Giddings. Neste caso, uma consciência de superioridade intelectual. Já não é absoluta a tirania da massa de meio-educados cujo gosto em literatura não vai além das novelas de Harold Bell Wright e de Robert W. Chambres e em arte de "Mother Machree" e de oleogravuras brilhantes. Sente-se palpitar a energia da reação no ritmo novo dos poemas de Robert Frost, de Ezra Pound, de Amy LoweIl e de Carl Sandburg; no realismo corajoso, investigador, penetrante de Theodore Dreiser, de Edgar Lee Masters, de SincJair Lewis, na crítica rebelde a todas as tradições de chateza intelectual, de Henry L. Mencken, de Spingarn, de Van Wick Brooks, de Nathan com relação ao teatro. Numa consciência mais e mais aguda - aguda até parecer cruel - de superioridade, da parte dos intelectualmente superiores, está a esperança de uma literatura de encanto e de força.

A comédia de Bennett estuda apenas a influência demagógica sobre a imprensa. Esta sendo, pela sua natureza e métodos, mais sensível que a poesia ou o romance ou a música, ao gosto dos meio-educados, continuará a ser por longo tempo, com o cinema, o espelho da chateza da maioria. Por longo tempo, não; para sempre, talvez. E será como um rolo sem fim de documento, de evidência, de prova à tese de Nietzsche, cujo maior horror era à mecanização das coisas em lugar da criação artística, à vitória da massa unida sobre as élites, necessárias ao truncar ou à confusão de papéis entre superiores e inferiores.



FREYRE, Gilberto. 58. Diário de Pernambuco. Recife, 6 jul. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 221-224.

Topo
Voltar Página inicial