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Artigos : Imprensa  



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Continua a ser nota e sensação, nos Estados Unidos como na Europa, o romance de René Maran, Batouala. Acabo de percorrer-lhe, quase numa só leitura, as cento e oitenta páginas, em tênue brochura que me emprestou um amigo francês. Um encanto, o romance. Há nele colorido gosto, um não sei que de fruto exótico. Dispus-me a ler Batouala com uma tal ou qual desconfiança. Temia um livro de propaganda. Vã a suspeita, felizmente. No Sr. René Maran o artista deixa à distância o propagandista. Recorda, neste respeito, Turguenev. O que o romance de Maran faz é pegar do vivo a vida africana, a do seio do mato bravo, ainda não europeizado - vida de crianças grandes, agindo só por instinto e por associação de idéias. Se põe a nu, a sangrar ao sol, as chagas que vai abrindo entre a gente primitiva e ingênua de Oubangui-Chari (África Equatorial Francesa) a intrusão vitoriosa do europeu, fá-lo sem berrar, ao fim de cada página, um "j'accuse" O "j'accuse" vigoroso, forte, zolaesco, brada-o o autor no, prefácio - um "j'accuse" contra a civilização, "orgueil des Européens, et leur Chamier d'innocents". E mais adiante: "Tu n'est pas un flambeau mais une incendie. Tout ce a quoi tu touches, tu le consumes. . . "

Porém isto, repito, no prefácio. Começado o romance, sem se impessoalizar de todo como quisera Flaubert, e como o próprio Maran o pretende ("ce roman d'observation impersonelle" escreve ele no prefácio), cessa o romancista de ser a voz sonante de uma dor. E a própria dor que ele deixa falar, como certos mendigos por cuja miséria fala a boca aberta de suas gangrenas.

O estilo de Maran é claro e incisivo. Conseguiu o romancista negro fazer suas aquelas qualidades de clareza e "mesure" que tanto atraíam o grande talento verbal de Nietzsche à bela prosa francesa. Mas o estilo é o homem,. como vem dito e repetido desde - já me esquece desde quem - e há no René Manin algo dele próprio, muito dele, muito pessoal, que não foi de modo nenhum aprendido à força de penosos exercícios de retórica.

Aqui está, por exemplo, a paisagem da África Equatorial pegada no fim vermelho dum dia: . "Le soleil a presque disparu. Il resemble, tant il est rouge, à la fIeur énorme d'un énorme flamboyant. . . Alors, de larges rayures ensanglantérent l'espace. Teintes degradées, de nuance á nuance; de transparence á transparence, ces rayures dans le ciel immense s' égarent. Elles mêmes, nuances e transparences, s'estompent jusqu'a n'être pluss". Isto está admiravelmente dito. Teria feito tremer de gozo os nervos daquele esteta de "nuances" que foi Paul Verlaine. E é de um negro. E de um negro puro - um negro de nariz tão chato que a gente se espanta de ver nele fixado, como por milagre, um pince-nez respeitavelmente europeu.

Escrevendo para o Brasil - onde cada cidadão que lê é uma boca aberta para devorar os "à paraitre" das livrarias parisienses - não me darei ao ridículo de falar de René Maran e de seu Batouala, como novidades. Cuido que nesse mesmo jornal já A. Fernandes se terá ocupado em deliciosa crônica do "veritable roman négre", laureado pela Academia Goncourt. Se venho nesta minha coluna tocar a mesma tecla é que o romance de Maran me parece algo mais que uma sensação de livraria da última mala de Paris: é transnacional no interesse que excita.

Nem menos interessante que o romance é o romancista. É Maran uma revelação do talento negro. Seu nome é mais um pedaço de cortiça com que tapar a boca a quantos falam da "ingênita inferioridade do negro", como fato coado pela ciência e filtrado pela experiência. Pois aqui está um preto de cabelo encarapinhado, rebelde às carícias do pente fino e da pomada; de lábios grossos e roxos como os de um escravo núbio numa cena teatral das Mil e Uma, Noites; de ventas chatas como as do antropóide da conceição portdarwinista -, autor de um grande livro.

É um dos primeiros negros, esse Maran, a surpreender o mundo com a excelência de sua arte literária. Exemplos de mestiços, não escasseiam. A mestiçagem - é fato que parece apurado - aguça certas qualidades, produzindo talentos esquisitos. O lugar-comum de que do branco e do preto resulta sempre um tipo com as más qualidades de ambos é, como tantos lugares-comuns - o que prova ser o senso comum mais raro do que se crê - oco palavrório. Há toda uma fartura de exemplos de grandes talentos e até gênios, negróides. Lembrem-se alguns dos mais familiares: Dumas, Gonçalves Dias, Rubem Dario, o "Aleijadinho", Gonçalves Crespo, Torres Homem, Rebouças, Machado de Assis. Porém mestiços, todos. E sem nenhuma "consciência de espécie", ou "consciousness of kind" - como diria o sociólogo Giddings, meu mestre na Universidade de Colúmbia - africana. Basta recordar entre os híbridos mencionados, o poeta maranhense. Nele - que era mulato - a consciência de híbrido induziu-o, não, como seria natural, a uma como saudade africana, porém ao "indianismo". Daí as notas falsas, insinceras, de sua obra, que de indianista (como a de José de Alencar) o é somente na intenção e no arrevesado dos nomes próprios.

René Maran é negro puro e com a plena consciência de sua origem. E se nele vier a florir - como é lícito antecipar - um dos grandes romancistas contemporâneos, que belo exemplo da "ingênita inferioridade do negro"!

Da sua cátedra, na Universidade de Colúmbia, proclama meu outro mestre, o Professor Franz Boas, que "nós (os estudiosos de Antropologia) não sabemos de exigéncia alguma da vida moderna, física ou mental, que se possa demonstrar, com evidências anatômicas e etnológicas, estar acima da capacidade do negro". É verdade que para a massa de cidadãos norte-americanos o Prof. Boas é uma "vox clamantis" no deserto de Arizona, onde ele passa seus verões estudando os índios de Pueblo.

René Maran acaba de mostrar, incisivamente, triunfalmente, em Batouala, que o escrever de bons romances não é o monopólio de ruivos europeus. Nem de "snobs" cá das Américas, como o Sr. Graça Aranha. E cingindo com os louros do "Prix Goncourt" o autor, aliás do1icocefá1ico, de Batouala, deliberadamente ou não, saudaram no indivíduo os finos juízes parisienses, as belas possibilidades artísticas, em termos europeus, da gente negra.1

1 Já depois de escritas estas notas um jornal me traz a espantosa notícia: a venda de Batouala em França é de cerca de 8.000 exemplares por dia!



FREYRE, Gilberto. 59. Diário de Pernambuco. Recife, 6 ago. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 225-227.

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