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Artigos : Imprensa  



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Em Brook1in, perto de Boston, passei uma tarde com Miss Amy Lowell. Miss Lowell não é só a "Sapho yankee", como daí a apelidou uma vez o erudito Sr. França Pereira. É também um Lucullus de saia. E esta dupla personalidade - Sapho e Lucullus - no físico de uma governante alemã: gorda, rósea e de lunetas.

Já uma vez me ocupei, nesse jornal, de Miss Lowell-poetisa. Falarei hoje de Miss Lowell-Lucullus, não menos interessante que a outra.

Do ouro ancestral, que é farto, se serve a escritora ilustre para fazer da vida a mais graciosa das artes - sorvendo-lhe o licor, gozando-lhe os encantos de som e as delícias de gosto e as riquezas de cor. Ora, considerem-se as reviravoltas do mundo: o ouro de tersos ancestrais puritanos gasto na busca de gozos mais ou menos pecaminosos: charutos finos, bons bocados para as ceias gentis, telas a cores aguadas de Manet, marfins chineses, estofos macios, encadernações de luxo, objetos frágeis, inúteis, perversos e dum sensualismo pagão. Parece lição invariável. da história: o século dezessete, severo, "grisatre", de espírito cingido por um como cinto de castidade, seguido pelo século dezoito - solto; mundano, voltaireano.

Vai-se das ruas tortas, coloniais de Boston à beleza elegíaca de Brooklin - o bairro de ricaços aristocráticos - em menos de uma hora. Brooklin fica toda entre árvores, elisiamente; e dentro das grandes árvores um luxo de palácios - palácios que imitam os estilos todos -" o florentino, o de Luís XIII, o das Missões, o da Renascença, o manuelino. Está-se lá como num museu de arquitetura. É o arvoredo - olmos na maioria - que atenua os contrastes de estilo arquitetônico - espécie de bric-à-brac de gigantes. Serve o arvoredo nesse caso de "nota de unidade" - como diriam certos estetas - dando à paisagem a significação a que os demais elementos parecem subornados. De fato, a emoção que se apossa de nós, a percorrer Brooklin, é de repousada beleza.

A casa de Miss Lowell está no fundo dum vasto sítio, por cujos caminhos bem cuidadoso automóvel roda deleitosamente. Não parece "casa de poeta"; deu-me a lembrar antes uma abadia. Em volta, olmos solenes, tão solenes que se fora menino eu seira incapaz da sem-cerimônia de galpar um deles. Há árvores assim, que não convidam a intimidades, parecendo homens sizudos, de sobrecasaca, vestidos para ir à missa ou a um enterro ou a uma sessão acadêmica.

Dentro, a casa guarda menos que no exterior as origens severas da famosa família Lowell. Há, sim, móveis ancestrais - sólidos, sérios, de pau preto ou de canela. Porém, dir-se-ia que sobre tudo aquilo passou a carícia das mãos voluptuosas, "fin de siécle", de um Edmond Goncout - dispondo os objetos graciosamente, com arte, com gosto. E há nas salas um luxo sóbrio. A macieza dos estofos convida a ócios dannunzianos. Encanta a beleza esquia dos jarros. Delicia o olhar uma tela saudosa, esfumada, toda em nuances, de Manet. Há desenhos egípcios, em relevo, maio gastos. Há bibelots lindos. A um canto, sobre uma mesa, um jarro fino, frágil, donde sorriem flores ainda frescas.

Flores. . .A poetisa de Legends ama as flores. Seus poemas estão cheiros de violetas e de rosas; de tulipas e de amores-perfeitos. Das páginas dos seus livros se exalam perfumes e parecem querer sair, vivas e frescas, as flores que as enchem. Dir-se-ia que há misturada à tinta de que ela se serve o suco de rosas espremidas numa moenda. É que Miss Lowell vive entre flores esquisitas que me fizeram pensar nas que vêm descritas em A Rebours.

À mesa, à luz de candeeiros esguios, entre cortinas de seda, ao tinir da prata ancestral, Miss Lowell é criatura encantadora, misto paradoxal dos encantos de Sapho e de Lucullus. Aqui está uma mulher que consegue Ter espírito e dinheiro ao mesmo tempo! É combinação que raro ocorre.

Após o jantar, o café, na biblioteca. Espaçosa sala, a da biblioteca, e com um ar nobre, estudioso. Nas estantes, livros encadernados com esmero. Uma fartura de livros sobre o poeta Keats, aquele louro poeta inglês que jaz, no cemitério protestante de Roma, na sua amada Itália e de quem Miss Lowell prepara, com erudito cuidado, a biografia. Depois do café, charutos. Miss Lowell possui uma secretária cheia de caixas de charutos de Havana e de Minilla - charutos finos, perfumosos. E é Miss Lowell rec1inada num sofá, um charuto apertado entre os dedos muito brancos, quebrando o severo silêncio da livraria com suas risadas argentinas, falando de arte, falando de literatura, falando de si mesma, falando dos outros, a Miss Lowell que ficará vivendo na minha memória.



FREYRE, Gilberto. 61. Diário de Pernambuco. Recife, 20 ago. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 232-234.

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