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Um telegrafista da Western? Um caixeiro do London Bank? Não, um rapaz de Lisboa que faz calungas: o Sr. Jorge Barradas.
Criatura sem nenhum "savoir faire", esse Sr. Jorge Barradas. Sem nenhum "savoir vivre". Sem nenhum senso de oportunidade. Ao contrário: duma despreocupação quixotesca. Prova-o o modo por que aqui veio parar - sem uma carta sequer do Sr. João de Barros; e, primeiro que isso, a idéia de aqui ter vindo parar.
Seu ar ingênuo de telegrafista inglês há tempos que o atrapalha na vida. Todos nos deixamos impressionar pela aparência; a aparência consegue milagres. É fato, este, que a psicologia social já constatou quase experimentalmente; e anda hoje na pena fácil dos meros vulgarizadores do assunto como o Sr. Gustavo Le Bon. Por isto Benito Mussolini, antes de assumir a chefia dos "fascisti", tomou aquele seu ar solene de artista de cinema, de Napoleão de Hollywood. E esse ar solene de Mussolini salvou a Itália.
Para vencer na vida vale mais o ar que a realidade. É preferível nascer com uma cabeça que venha a entusiasmar um cunhador de medalhas a nascer com a cabeça dum selenita - embora a cabeça dum selenita contenha, segundo Wells, as mais complexas ciências. Rubén Dario - ou foi Nervo? - notou na França e na Espanha a fascinação das grandes barbas como as de Valle Inclan. Em nossa gloriosa Pachecolândia ele notaria o decisivo prestígio da calvície, do porte solene, da aparência madura, do ventre arredondado.
Falta ao Sr. Jorge Barradas o ar dum grande pintor. Falta-lhe ao porte, convicção. Faltam-lhe umas barbas à Montparnasse. É o diabo. Com essa sua despreocupada verdura e simplicidade juvenis não se consegue impressionar ninguém. A não ser exagerando-as. Nada como os extremos. Tivesse o Sr. Barradas aparecido de fofas "culottes", chamando o seu irmão "papá" e comprando nas confeitarias, em vez de maços de cigarros, boiõezinhos de doces e saquinhos de bombons, e outro teria sido o efeito da sua exposição: a exposição dum menino-prodígio. Mas não quero gastar o espaço todo a mostrar que de valores psicológicos o Sr. Jorge Barradas não possui a mais vaga das noções. Economicamente, sua exposição foi um grande fiasco. Era natural que o fosse: as únicas possibilidades de sucesso fácil não as soube aproveitar o pintor ingênuo.
A não ser que ele esperasse vencer pelo só encantamento das suas telas pelo puro prestígio da sua arte. Não creio que vá a tanto a ingenuidade desse português. Sob esse ponto de vista, a exposição revelou até a presença, em Pernambuco, dum número de "virtuosi" superior ao que eu supunha existir. Destaque-se um fato que nos honra: a melhor, a mais deliciosa das telas que trouxe o Sr. Barradas - a que representa o interior da capela de Jesus - foi num instante adquirida.
Da arte do Sr. Jorge Barradas ousarei escrever ligeiras notas; mas de puro impressionismo; porque em assuntos de pintura não possuo - ai de mim! - noção de valores bastante fixa e bastante clara para outra espécie de crítica. A alta crítica é a da avaliação muito mais que a mera impressão. A avaliação, porém, exige imensidades de cultura; não as posso satisfazer. Aos vinte e poucos anos, ainda que se possua gosto muito fino, o mais que se consegue em crítica é escrever Confessions of a Young Man. E Confessions of a Young Man, como o declara seu autor wildeano, é obra não de descrime mas de puro sensualismo, que a isto se reduz em última análise o impressionismo.
Cuido que a nota mais viva do temperamento do Sr. Barradas é a ânsia simplificadora. Um cronista escreveu que ele agita ritmos novos; quando o grande ritmo de sua arte é o da síntese; e este não é novo. Vamos encontrá-lo na velha pintura hindu; e na pintura japonesa; e na pré-rafaelita.
É preciso não esquecer que a mania analítica do naturalismo foi apenas a mania dum período; e que mesmo em pleno naturalismo houve um Whistler. O naturalismo, na pintura como no romance, causou-o a superstição de ciência com C maiúsculo de que nos fala Daudet em Le Stupide. Foi uma reação paradoxalmente antiartística a de copiar a natureza em seu estado bruto, repeti-la com toda sua massa de pormenores e todo seu peso. Uma arte suicida essa dos Zola e um tanto dos Goncourt e dos Degas. Não queria saber da síntese. Entrevia na síntese o espantalho do estereótipo. Idiotas! E a arte dos primitivos. Como se o fim da arte não fosse digerir, à maneira dum estômago, a natureza bruta. "Art is nature digested". Quem o disse foi George Moore. E não agora, mas há trinta anos.
Sr. Barradas consegue delícias de simplificação. É raro nas suas telas um traço supérfluo. Na Alemanha e em Paris, em New York e na Espanha os pintores "d'avant garde" tendem todos eles, ansiosamente, para essa simplificação de que Picabia é hoje um "virtuoso". Mas tantas vezes o efeito dessas ânsias é contrário! O que sucede acertas arbitrariedades simplificadoras na ortografia, sucede igualmente na pintura: em vez de simplicidade, resultam em confusão. Resultam em paroxismos. Por isto de muita pintura nova se pode bem dizer que em vez de natureza digerida é uma indigestão da natureza. O Sr. Barradas consegue ser simples dando a falsa impressão de consegui-lo sem esforço, sem essa epilepsia de cores amassadas com fúria que o professor Eugenio de Castro surpreendeu na pintura do seu talentoso compatriota, Guilherme Filipe.
O Sr. Jorge Barradas é também um voluptuoso da cor. Isto sem desprezo pelo desenho, que na sua obra é fino, fazendo adivinhar um sopro leve de influência inglesa. Sua atitude para com a cor é antes oriental que ocidental, o que aliás não deve surpreender num filho dessa Lisboa cheia de sol, onde o árabe deixou um pouco de si próprio e destilou um tanto de sua volúpia. O Sr. Barradas sente das cores o que elas têm de mais íntimo e de mais poderoso: os valores emocionais. Seu colorido segue o senso desses valores, desprezando um tanto a repetição das cores do natural. Isto fica para a gente dos laboratórios, para essas criaturas de avental branco e óculos à Harold Lloyd, que são os químicos da fotografia a cores. O Sr. Barradas é apenas um artista.
FREYRE, Gilberto. 6. Diário de Pernambuco. Recife, 27 Maio 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 262-264.
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