7
Para as pessoas facilmente irritáveis viajar deve ser, nestes turvos tempos, o maior dos flagelos. Porque os governos parecem competir uns com os outros na fúria de requintar as exigências e sutilizar as prevenções contra o pobre diabo que viaja. Vítimas dum curioso estado mórbido "post-bellum", vizinho da mania de perseguição, assume aos seus olhos o viajante o ar de complexo pesadelo: contrabandista, anarquista e portador de micróbios - tudo reunido.
Manifestam-se em geral essas prevenções na forma dos questionários impressos. Em viagem para a livre República dos Estados Unidos, mal se avista no azul ou cinzento da distância - a cor é conforme a estação - o vulto negro da estátua da Liberdade e já o ativo comissário do paquete está a recolher dos passageiros os rolos de questionários distribuídos na véspera. Há um papel da alfândega pedindo ao viajante, entre outros obséquios, que tenha a bondade de declarar se é portador de peles de foca ou diamantes; em outras palavras, se é contrabandista. O questionário da polícia remexe assuntos ainda mais íntimos: pergunta-se aí ao indivíduo se é anarquista, se veio com propósito de destruir as instituições americanas ou atentar contra a vida do presidente da República; e, também, se é bígamo. No caso de ser bígamo o indivíduo deve escrever singelamente "sim".
Talvez o país da Europa mais cheio de exigências seja hoje a Alemanha. Principalmente a Baviera. Explica-o a anormalidade da sua situação. Na Alemanha há que responder a mil e um questionários - da aduana, da polícia, dos hotéis. Exigem-se muito germanicamente datas e nomes por extenso.
Na Inglaterra o questionário não chega a ocupar uma folha de papel. E: apenas um cartão. O governo inglês, ao contrário do "Times", cultiva, entre outras tradições, a da economia no uso do papel. Os guardas da alfândega e o pessoal do "bureau" de passaportes em Dover tratam os recém-chegados sem aparentar suspeitas, como se fossem todos "gentlemen". Nos hotéis não há questionário da polícia. Não há questionário nenhum. E o viajante, saturado de prevenções americanas, francesas ou alemãs, temem Dover a impressão de ter saído fora do seu planeta ou fora do seu tempo.
É aos Estados Unidos que cabe o título de TERRA DO QUESTIONÁRIO. Nos Estados Unidos faz-se questionário a propósito de tudo e às vezes sem pretexto nenhum. O questionário é ali uma instituição respeitável - tão respeitável como o "baseball". O reticencioso a respeito dumas tantas coisas íntimas - da idade, por exemplo - não deve ir a Yankeelandia. Yankeelandia é um país ouriçado de pontos de interrogação, os mais indiscretos e irritantes. Deve-se ir aos Estados Unidos munido de flexíveis respostas como a daquele diplomata mexicano a uma duquesa que lhe perguntava a idade: "según para lo que usted me necesite, duquesa":
O cidadão americano passa metade da vida a responder questionários. Mal aprende a escrever lhe dá a mestra um papelucho: seu nome? idade? o nome de seu pai? o de sua mãe? que é que você quer ser quando for grande? É a iniciação. Respondido esse papelucho, numa letra que é ainda um gatafunho, está feito o conhecimento da criança com o Ponto de Interrogação. - Daí em diante, a propósito de tudo e com a maior sem-cerimônia, entra-lhe na casa o Ponto de Interrogação, remexe-lhe os bolsos e até a consciência, sonda-lhe os planos, toma-lhe o pulso. E sua tirania é constante.
A função do Ponto de Interrogação é por certo exagerada nos Estados Unidos. Põem-no ao serviço de futilidades. Isto, entretanto, não justifica o fato de, no Brasil, desdenharmos dele a ponto de não sabermos quantos somos; e ignorarmos nossos movimentos de produção econômica, aliás fáceis de fixar; e fatos elementaríssimos da nossa vida e da nossa estrutura social.
Agora mesmo está a organizar-se, no Rio, um congresso de mutualidade, previdência e higiene social. Vai reunir-se em julho sob os auspícios do Ministério da Agricultura e de sua organização foi incumbido o Sr. Deputado Andrade Bezerra, talvez o nosso mais apaixonado cultor daqueles assuntos. Visa excelentes fins esse congresso; seu programa, que o sr. Andrade Bezerra graciosamente me enviou, com a maior nitidez o indica. Entretanto, nada mais fácil de adivinhar ou antes de prever, a dificuldade desse Congresso para, no tocante ao Brasil, ir além de flutuantes generalizações. Faltam-nos inquéritos para servir de base a quanto de pragmático se ambiciona naquele vasto programa. Faltam-nos estatísticas. Sem esses inquéritos diretos, a tendência é, naturalmente, a de aplicar aos nossos problemas de economia individual e economia coletiva, a uma situação "sui generis", soluções européias ou americanas. Ora, nestes assuntos, as soluções importadas resultam, em geral, em fracasso. São como as conchas do poema de Emerson, que retiradas da água e do sol, perdiam num instante o seu encanto.
Ao Brasil não fariam mal mais pontos de interrogação; e menos pontos de exclamação. Ao contrário.
FREYRE, Gilberto. 7. Diário de Pernambuco. Recife, 3 Jun. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 265-267.
|