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O instante, que passei na Alemanha, bastou-me para satisfazer umas tantas curiosidades acerca do seu movimento de idéias. Uma dessas curiosidades era a de conhecer, no próprio ambiente nativo, o teatro Expressionista. Provocara-a em mim a leitura de Ludwig Lewison; excitara-a o meu amigo Isaac Goldberg que é um voluptuoso das iniciações.

Houve durante a guerra quem quisesse fixar uma distinção muito sutil e muito idiota entre "kultur" e cultura. Aquela seria uma cultura simplesmente de aplicação e pormenor; esta, de idéias gerais e iniciações. Se não me engano, isto partiu do espalhafatoso Signor Guglielmo Ferrero - um italiano que errou um tanto a vocação, pois devera ter sido, em vez de historiador e 'Sociólogo, empresário de orquestra.

Entretanto, não é preciso conhecer a fundo os movimentos de fluxo e refluxo na cultura européia - admiravelmente surpreendidos, quanto ao século décimo-nono, por Georg Brandes - para ter por aquela generalização audaz muito menos respeito que peja reclame dos elixires de juventude. A verdade é que o contingente germânico de iniciações tem sido formidável. Aquela suposta terra de erudição tíbia onde professores e doutores passassem a vida a remoer e a catalogar, é um centro de idéias moças e expansivas. Um grande centro sempre em experimentações. Wagner, Strauss e agora Shonberg - que são todos eles senão viris iniciadores? E Goethe? E Schopenhauer: Nietzsche, Lessing e esse judeu, Einstein, culturalmente germânico? Responda mentalmente quem já teve o espírito fecundado pelas Palestras com Eckerman; e por Zarathustra; e por Parerga; e por Laocoon.

George Kaiser não é nenhum Herr Professor; não é nenhum pedagogo. Ao contrário; um virtuoso da "gaya scienza". Seu "dinamismo dramático", ontem mera teoria, já teve aplicação vitoriosa. E hoje o teatro de Kaiser é um dos assuntos de estética mais provocantes.

De George Kaiser pode-se dizer que se não apresenta apenas com uma nova técnica; apresenta-se com uma filosofia nova do drama. Devo advertir que no meu emprego da palavra novo viso sempre um sentido relativo. Ora, no teatro de Kaiser não seria difícil descobrir afinidades com o teatro chinês.

A idéia-medula da filosofia de Kaiser, e de sua técnica, é a de que o teatro visa sobretudo a síntese: seu fito é conseguir o máximo de sugestões de beleza no mínimo de tempo e de pormenores realistas. Elimina George o maior número possível de incidentes: quer o maior número de símbolos. Esta é minha interpretação. Resumindo a de Lewison, que é um grande crítico, teríamos: o Expressionismo dramático visa apresentar sem rodeios a vida interior das personagens, sintetizando-lhes as concepções da vida e do universo em visões simbólicas, abreviando, em cenas intensas, longas histórias, moralidades e cosmogonias. E George Jean Nathan escrevia há pouco numa revista de New York que o teatro expressionista é "o drama em forma telegráfica".

O que no teatro de Kaiser requer do dramaturgo e do técnico requintes de visão plástica, é a criação e apresentação dos símbolos. Nos dramas de Kaiser os símbolos parecem ser alguma coisa mais que a "petrified art" de que falava aos nossos avós o esteta Ruskin. Kaiser, com seu dinamismo, com sua ânsia de abstração, que é a nota germânica do seu temperamento um tanto yankee, eleva o papel do espectador de passivo hedonismo à ativa colaboração mental com o dramaturgo. E isto, reduzindo toda a parafernália teatral a uma como matéria plástica - o bastante para comunicar, vivamente, incisivamente. "telegraficamente" - diria Nathan - sugestões de grandes idéias.

Kaiser é Ibsen menos Realismo mais X. Este x é o seu simbolismo sui generis no drama. Kaiser quer fazer com os valores emocionais das cores, das linhas, da luz elétrica, o que na música conseguiu Wagner e tentou Debussy e na poesia conseguiram parcialmente Rimbaud, Mallarmé e Poe. Vê-se que do simbolismo de Ibsen, com o seu luxo de incidentes e minúcias realistas, o de Kaiser está distanciado quilômetros.

No seu teatro não há Noras nem Guidos nem Cyranes nem Hamlets nem Donas Mercedes nem Helmers. Não há nomes. Não há pessoas. Há visões: a Figura Azul, a Figura Branca, o Operário, o Engenheiro. São indivíduos sublimados em tipos por um como processo de economia dramática. Ou artística.

Lembra-me a impressão que fez em mim a primeira peça Expressionista. Não foi impressão: foi sensação. Não assisti ao drama colaborei nele. Aos sinais daquela taquigrafia de emoções e idéias moveu-se-me o espírito num gozo quase criador. Porque das peças de Kaiser ninguém sai sonolento. Há duas alternativas: ir ao fim num gesto intenso ou sair logo, meter-se no primeiro táxi e, reclinando no assento estofado, o chapéu para a nuca, mandar seguir para o primeiro Branpão Sobrinho.



FREYRE, Gilberto. 8. Diário de Pernambuco. Recife, 10 Jun. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 268-270.

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