O BRASIL E A AERONÁUTICA
Os portugueses foram os exploradores da
navegação moderna. Eles guiaram as empresas do século XV - tão cheias de romance,
heroísmo e glória. Belos navios, com suas velas alvas estendidas deixaram as praias de
lusitana e partiam em demanda de mares e terras desconhecidas. Alguns deles nunca mais
voltavam, outros porém voltaram. Os Magalhães, os Gama e os Cabral voltaram. Depois dos
portugueses vieram os espanhóis, os holandeses e os ingleses, porém os lusitanos foram
os exploradores. Camões, o maior poeta da língua portuguesa, celebrou os efeitos
daqueles heróis numa linguagem de beleza incomparável.
Os portugueses do século XV deixaram às almas
dos seus descendentes o mesmo heroísmo das suas. Deixaram nelas a paixão pelo misterioso
e pelas regiões longínquas e desconhecidas. Isto explica a contribuição valiosa do
Brasil à causa aeronáutica. Muito antes do século XVIII, um padre brasileiro fez
algumas experiências num balão de sua própria invenção. Foi por este tempo que o
fanatismo religioso reconhecia a aeronáutica com uma espécie de trabalho diabólico.
Depois dele apareceram patrocínio, severo e mais
alguns outros. Severo perdeu a vida num acidente. Caiu do seu balão.
Alberto Santos Dumont foi o herói cheio de
sucesso. Foi o primeiro que mostrou praticamente a possibilidade da moderna navegação
aérea. Sua experiência feita em França, em outubro do ano de 1906, foi hora decisiva
para a aeronáutica. O magazine francês "LIlustration" escreveu
que foi "une minute memorable dans Ihistoire de la navegation aerienne".
As experiências decisivas e cheias de sucesso de
Santos Dumont foram seguidas pelas de Farman, Bleriot, Wrights e outros heróis da
aeronáutica.
Foi um esplêndido triunfo pessoal para um moço
de 28 anos. Santos Dumont tornou-se um dos homens mais populares da Europa e do mundo. Em
França erigiram um momento em sua honra. Edison rendeu homenagem ao inventor brasileiro,
a quem chamou "o explorador aéreo".
Porém, não foi somente um triunfo pessoal. Foi
também um triunfo para o Brasil. Ninguém pensava que uma obscura República
Sul-Americana pudesse fazer uma contribuição tão notável à ciência. O nome do Brasil
sugeria a idéia da preguiça tropical. E um gênio, como Mr. Edison disse uma vez que era
o produto de trabalho árduo e paciência. Logo a idéia era errônea.
Santos Dumont retirou-se da atividade
aeronáutica e mora atualmente na cidade de São Paulo, Brasil. Ele diz que seus nervos
sofreram sensações bastantes e agora necessitam de descanso. Mas o interesse pela
aeronáutica ainda arde no seu coração. Sonha agora com o estabelecimento de uma linha
regular de navegação aérea entre New York e Rio de Janeiro. Santos Dumont crê
firmemente no Pan-Americanismo.
Ele pensa que as duas Américas precisam de
manter relações tão íntimas como a França e a Inglaterra mantém atualmente. Uma
linha de navegação aérea faria muito em prol dessa união. Presentemente um navio gasta
20 a 30 dias para ir de New York ao Rio. Um aeroplano poderá ir em 2 ou 3 dias. Para a
América do Sul - especialmente para cidades tais como Bogotá, Quito e outras,
cercadas por montanhas - uma linha de navegação aérea será uma benção.
Milhões americanos e habilidade prática
americana poderão tornar em realidade o sonho do inventor sul-americano. É uma empresa
mais romântica do que o canal de Panamá sonhada pelos latinos e realizado pelo prático
anglo-saxonio. E o Pan-Americanismo é a união dessas duas forças. Certamente o sonho de
Santos Dumont se tornará em verdade, para o benefício do Pan-Americanismo e da
humanidade em geral.
Gilberto Freyre
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Brasil e a aeronáutica. Diario de Pernambuco. Recife, 28 dez. 1919.
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