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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



[COMENTÁRIOS EM TÔRNO DAS ESTAÇÕES DO ANO]


O frio passou. O aspero aquilão já não nos corta a pelle. Agora o que há é a caricia de um friosinho bom, assim como a brisa de beira-mar. A paysagem não é mais aquelle do inverno, triste, soturna, quasi sem côr. É outra. Para gozal-a nada como um passeio de manhã cêdo a um recanto da cidade. As arvores, tão feias durante o inverno, com os seus galhos seccos e nus, ganham nova folhagem. As trepadeiras rebentam em gommos e em flores dando aos frontões das casas, por onde ellas sobem, um ar de adoravel graça silvestre. A gramma está verde, e reponta da terra com viço. Tudo se tinge de uma côr verde claro. É a côr da primavera.

Há um encanto especial nesse variar de paysagem e de tempo, nesse passar de uma estação a outra. É bonito quando o outomno começa e as copas das arvores se tingem de ouro, e, ao mesmo tempo de melancolia. Porem, mais bonito ainda, é a passagem do inverno cheio de brumas á clara primavera. O encanto, desse variar de paysagem, nós tropicaes, acostumados a uma natureza perpetuamente em flor, desconhecemos nos nossos paízes nativos. Nosso tempo é quasi o mesmo todo o anno. Nossa natureza, quasi rebelde a mudanças bruscas.

Aqui, não. a natureza muda. O tempo e a paysagem mudam. E essa mudança de estações a tudo affecta: as modas de roupa, as de chapeu, as de calçado, o estylo dos autos, os sports; os divertimentos. Cada estação vem com a sua cor, o seu tom, a sua fructa, os seus gostos. E faz uma revolução nas "vitrines" dos solertes lojistas americanos. Parece que uma das novidades desta primavera é a cor berrante das camisas de sêda, das gravatas, das fitas de chapéu, dos collarinhos. . . Uma camisa branca, pura, sem listras ou quadrinhos de côres vivas, raramente ri uma vitrine. O americano não tem o gosto pelo branco e pelas cores neutras, que me parece um signal de referimento. É verdade que estamos na primavera, e os dias são bonitos, cheios de sol e de côr. Mas isso, a meu vêr, não justifica essas camisas com listras de amarello vivo, ou esses collarinhos de quadrados multicores. Nossa Senhora!

Mas vamos ás outras cousas que a mudança de estação affecta. A primavera tem os seus divertimentos, quasi todos elles ao ar livre, em contraste com as festas de recinto fechado do inverno. Os dias são bonitos e é preciso gozal-a em almoços á rustica em passeios de bote, em corridas de auto, em partidas de pesca á beira de quietos riachos. A todas essas cousas, moças e rapazes vão juntos, em íntima camaradagem. É sabido que a coeducação é largamente praticada nos Estados Unidos e que a amizade de rapaz a moça e quasi a mesma de moça moça ou de rapaz rapaz. Os sexos não são isolados um do outro, como entre nós. O rapaz que se engraça de uma moça, não vae para a esquina, todo romantico, torcendo sua bengalinha. Trata de se fazer conhecido da famillia, e, então, tem direito de "make a date" com a moça, isto é, de sahir so com ella para um jogo, para uma fita de cinema, para um chá, para um passeio qualquer. E essas "dates" podem não findar em casamento. É claro que o systema de co-educação depende muito de ser o rapaz um "gentleman" e de ser a moça uma "lady". Mas quem desconhece que o respeito é a base sobre que assenta a educação americana nesta questão do intercurso de sexos e noutra?

Aqui em Baylor, temos o que se chama "Student’s self-government". Isso quer dizer que a disciplina da Universidade está nas mãos dos estudantes. Elles teem as suas leis, a que deram respeito, e das quaes são os proprios policiais. Em questões de puro estudo, tudo repousa, também, sobre a honra pessoal do estudante. Em exames, por exemplo, o instructor não fica de vigia. O estudante ao terminar, assigna um "pledge" declarando que se portou com lisura. Este basta para o professor. O mesmo se dá nos "reading assignements", isto é leitura de certo numero de paginas ou volumes, que alguns cursos requerem. Esses factos, observados nas universidades americanas - a coeducação e o "honor system" são hoje systemas triumphantes. Elles revelam ao estrangeiro que nos Estados Unidos não se comprehende a formação da intelligencia sem a formação do caracter.



Fonte: FREYRE, Gilberto.[Comentários em torno das estações do ano]. Diario de Pernambuco. Recife, mar. 1919. Coluna: Da outra América.

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