[COMENTÁRIOS EM TÔRNO DAS ESTAÇÕES DO ANO]
O frio passou. O aspero aquilão já não nos
corta a pelle. Agora o que há é a caricia de um friosinho bom, assim como a brisa de
beira-mar. A paysagem não é mais aquelle do inverno, triste, soturna, quasi sem côr. É
outra. Para gozal-a nada como um passeio de manhã cêdo a um recanto da cidade. As
arvores, tão feias durante o inverno, com os seus galhos seccos e nus, ganham nova
folhagem. As trepadeiras rebentam em gommos e em flores dando aos frontões das casas, por
onde ellas sobem, um ar de adoravel graça silvestre. A gramma está verde, e reponta da
terra com viço. Tudo se tinge de uma côr verde claro. É a côr da primavera.
Há um encanto especial nesse variar de paysagem
e de tempo, nesse passar de uma estação a outra. É bonito quando o outomno começa e as
copas das arvores se tingem de ouro, e, ao mesmo tempo de melancolia. Porem, mais bonito
ainda, é a passagem do inverno cheio de brumas á clara primavera. O encanto, desse
variar de paysagem, nós tropicaes, acostumados a uma natureza perpetuamente em flor,
desconhecemos nos nossos paízes nativos. Nosso tempo é quasi o mesmo todo o anno. Nossa
natureza, quasi rebelde a mudanças bruscas.
Aqui, não. a natureza muda. O tempo e a paysagem
mudam. E essa mudança de estações a tudo affecta: as modas de roupa, as de chapeu, as
de calçado, o estylo dos autos, os sports; os divertimentos. Cada estação vem com a sua
cor, o seu tom, a sua fructa, os seus gostos. E faz uma revolução nas
"vitrines" dos solertes lojistas americanos. Parece que uma das novidades desta
primavera é a cor berrante das camisas de sêda, das gravatas, das fitas de chapéu, dos
collarinhos. . . Uma camisa branca, pura, sem listras ou quadrinhos de côres vivas,
raramente ri uma vitrine. O americano não tem o gosto pelo branco e pelas cores neutras,
que me parece um signal de referimento. É verdade que estamos na primavera, e os dias
são bonitos, cheios de sol e de côr. Mas isso, a meu vêr, não justifica essas camisas
com listras de amarello vivo, ou esses collarinhos de quadrados multicores. Nossa Senhora!
Mas vamos ás outras cousas que a mudança de
estação affecta. A primavera tem os seus divertimentos, quasi todos elles ao ar livre,
em contraste com as festas de recinto fechado do inverno. Os dias são bonitos e é
preciso gozal-a em almoços á rustica em passeios de bote, em corridas de auto, em
partidas de pesca á beira de quietos riachos. A todas essas cousas, moças e rapazes vão
juntos, em íntima camaradagem. É sabido que a coeducação é largamente praticada nos
Estados Unidos e que a amizade de rapaz a moça e quasi a mesma de moça moça ou de rapaz
rapaz. Os sexos não são isolados um do outro, como entre nós. O rapaz que se engraça
de uma moça, não vae para a esquina, todo romantico, torcendo sua bengalinha. Trata de
se fazer conhecido da famillia, e, então, tem direito de "make a date" com a
moça, isto é, de sahir so com ella para um jogo, para uma fita de cinema, para um chá,
para um passeio qualquer. E essas "dates" podem não findar em casamento. É
claro que o systema de co-educação depende muito de ser o rapaz um "gentleman"
e de ser a moça uma "lady". Mas quem desconhece que o respeito é a base sobre
que assenta a educação americana nesta questão do intercurso de sexos e noutra?
Aqui em Baylor, temos o que se chama
"Students self-government". Isso quer dizer que a disciplina da
Universidade está nas mãos dos estudantes. Elles teem as suas leis, a que deram
respeito, e das quaes são os proprios policiais. Em questões de puro estudo, tudo
repousa, também, sobre a honra pessoal do estudante. Em exames, por exemplo, o instructor
não fica de vigia. O estudante ao terminar, assigna um "pledge" declarando que
se portou com lisura. Este basta para o professor. O mesmo se dá nos "reading
assignements", isto é leitura de certo numero de paginas ou volumes, que alguns
cursos requerem. Esses factos, observados nas universidades americanas - a
coeducação e o "honor system" são hoje systemas triumphantes. Elles revelam
ao estrangeiro que nos Estados Unidos não se comprehende a formação da intelligencia
sem a formação do caracter.
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Comentários em torno das estações do ano]. Diario de Pernambuco. Recife, mar. 1919. Coluna: Da outra América.
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