[EXPOSIÇÃO DE PAPEL EM NEW YORK]
Fui ontem, com um amigo, vêr como se faz papel.
Gosto de vêr como se fazem as cousas, mesmo as menos interessantes como caixas de
papelão, presidentes de republica e "hot water bottles". Porém confesso: numa
exposição de papel esperava meia hora de franco aborrecimento - apenas superior ás
que tenho passado em gabinete de dentistas. Engano. Interessante é que foi minha visita
á exposição de papel - visita não de meia hora porém de hora e meia.
Eu tinha umas vagas noções do fabrico do papel:
o papyrus dos egyptios, os rolos de pergaminho, trapos recolhidos dentre os sujos
detrictos das ruas, o uso mais recente de polpas de arvores. Porém, tudo vago. Faltava-me
uma idéa "clean-out", para usar a boa phrase americana. Adquiri-a hontem, e sem
esforço.
Estava em acção a menor machina, de fazer
papel, que existe humillima machinasinha. Quase um brinquedo, comparada ás machinas de
tamanho ordinario. Vêl-a trabalhar, e reduzir, como por magia, uma massa molle de trapos
a puro e secco papel, era como si estivessemos diante dum Picco della Mirandola,
assombroso aos quartoze annos. Numa extremidade da machinasinha punham os trapos, já
expurgados de metaes e outras substancias nocivas, e embraquecidos em solução chimica;
mais adiante passava a massa, já achatada; logo, sobre essa pasta humida, cahia a
pressão dum sinete: finalmente, o papel apparecida, num rolo secco e consistente.
Atravez dum microscopico vi as fibras de papel.
Vi machinas de fazer enveloppes e de cortar papel. E soluções para o processo de
coloração do papel. Por toda a parte, papel. Uma orgia de papel. Papel ás rumas. Papel
em folhas soltas, esparsas, num baralhamento: o mais ordinario, para misteres humillimos,
junto ao fino e eburneo, do genero fradiqueano. Havia papel branco, de linho, duma alvura
nobre de peitilho de camisa bem engommada; e papel verde, roxo, amarello, azul. Côr de
rosa, também, para bilhetes de namorados. E papel macio e papel aspero. Mil e um estylos
de papel de carta. Papel-cartão para aguas tintas e postaes. E papel, como disse para
misteres mais humildes.
Diante dessa orgia de papel era natural que eu me
sentisse tentado a philosophar. Foi o que succedeu. Philosophei sobre o papel. Por
exemplo: como o papel segue o homem através da vida. O homem morre deixando um pouco de
si proprio em folhas de papel. Quero dizer, é claro, o homem que lê e escreve. Do
primeiro papel em que garatuja a lapis o nome ou o A. B. C. ou 1- 2- 3- áquelle em que
escreve seu "de profundis", quanta folha em branco disvirgina a gente: o papel
dos themas de grammatica e das contas de dividir; o papel dos bilhetes amorosos; o papel
solenne da carta de pedido de casamento; o papel serio das cartas de negocio; o papel
melancholico das cartas de pezames; o roseo, das cartas de felicitações, o dourado, dos
postaes de Bôas Festas. E si a pessoa é alitteratada, Nossa Senhora!
É facil fazer papel. Por isto fabricam-no ás
pilhas. Pois, senhores, já calculou um mathematico que, feito um rôlo de papel que numa
só decada se fabrica nos Estados Unidos, haveria com o envolver o globo, como si o globo
fóra um bonbon.
Um dos mais modernos, essa super-abundancia de
papel. Que faz? Democratiza execravelmente o escrever de cartas, de livros e de jornaes. O
escrever dessas cousas deverá ser o luxo de reduzida elite. Dizia o mestre Dumas, e dizia
bem: "metade das cartas que se perdem devem perder-se". Completa a Dumas o fino
Amado Nervo: "tres quartos dos livros que lemos não deveramos lêr". E os
jornaes?
Escreveu-me durante a guerra o mais fino dos
brasileiros: "quanto eu estimaria ser analphabeto!" Analphabeto para viver
ignorante das mentiras que então se publicavam nos jornaes. Ora, peior que a mais grossa
mentira é a mais espumosa banalidade. E a banalidade floresce espantosamente em tempo de
paz.
Houve tempo em que editar um jornal ou publicar
um livro era alguma cousa de sagrado. Hoje, não. pullulam os jornaes. Nos Estados Unidos
há a bagatella de 23000 periodicos. E destes, a maioria são volumes de 60 paginas.
A producção de livros, esta, tambem, é
assombrosa. Agora mesmo começa nova "Book-Season", ou "estação de
livros". E hoje, pela manhã, estive na casa do livreiro Brentano, na Quinta Avenida,
folheando as novidades. Um horror! Parece que cada cidadão e cada cidadã nos Estados
Unidos está publicando um livro, este inverno. Livros de todo o genero: de viagens, de
psycho-analyses, de versos e de ensaios; biographias, auto-biographias, historias,
sermões, receitas de bolos; trabalhos de critica, exegese, politica, sciencias, arte,
jogo de xadrêz, modas, novelas. . .
Na "Book-Season" de 1920 foi a mesma
orgia. E della, que se salvou? Menos de um decimo: os ensaios de George Santayanna
"Character and Opinion in United States", "Primitive Society", de
Robert H. Lowie, as novellas "Miss Lulu Bett", "Man Street" e
"The Age Innocence", as cartas de William James, quatro ou cinco outros
trabalhos. O mais, litteratice banal. Há de ser o mesmo, este anno. Está sendo muito
falado o livro de viagens de um Mr. Franck, sobre a America do Sul. Folheei-o. raras
paginas de boa critica. O grosso de livro, ruim e trivial. O mesmo é certo da biographia
do sr. Wilson pelo seu secretario sr. Tumulty. Tres saborosos livros novos são: -
"Three Soldiers" (novella), um livro de ensaios e Harold Stearns contra o
Puritanismo e outro, versando questões de lingua e litteratura ingleza, do sr. Brander
Matthews, o ancião professor da Universidade de Columbia.
Porém, volto ao meu ponto: a maioria dos livros
publicados constitue um estrago de papel. Porque não tomar a serio o escrever de livros?
Os arabes comparam a paternidade litteraria á physica e ao plantio de arvores. E inferior
á procreação e ao plantio de arvores é que não é escrever um livro. Ao contrario.
Plantar arvores e gerar filhos é faculdade de todo homem são. Porém para escrever um
livro de verdade, sem ser preciso ter saude, há que sentir o sopro divino.
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Exposição de papel em Nova York]. Diario de Pernambuco. Recife, dez. 1921. Coluna: Da outra América.
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