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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



[SOBRE O LIVRO "HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO"]


Mandaram-me de São Paulo os editores do sr. Manuel de Oliveira Lima o ultimo livro do nosso compatriota: "Historia da Civilização. Traços Geraes". Já o deve conhecer Pernambuco; Pernambuco, á terra do propheta. Trabalho didactico, creio que, no genero, é o primeiro do sr. Oliveira Lima - a não ser que consideremos puramente didacticas suas conferencias na Sorbonne e nas doze universidades americanas que percorreu em 1913.

Estas conferencias foram feitas perante gente grande. O novo livro, porém, apresenta-se com um nitido proposito pedagogico: é especialmente para meninos, ou antes meninos-moços, dos nossos gymnasios e institutos de humanidades. Num sentido rigoroso constitue o "debut" pedagogico do sr. Oliveira Lima - tardio, porém, ao meu ver, victorioso. A esta obra de "debutant" desejo fazer alguns reparos. Em outras palavras: vou dar-me ao luxo de fazer-lhe a critica.

Estive a ler a "Historia da Civilização" a semana passada nos vagares das minhas horas livres. Confesso-me encantado do livro: no genero, não conheço melhor em portuguez e, em inglez, somente um, este mesmo de feitio diverso, e que é o recente "The Story of Mankind" pelo sr. Hendrik Willem Van Loon. Traz o livro do sr. Oliveira Lima á nossa desageitada litteratura pedagogica um sopro de novidade. Dá a idéa dum Rolls Royce cahido de repente entre carros de boi. Porque sejamos francos: nossos compendios de historia e geographia, como os nossos mestres dessas materias, não prehenchem de ordinario seu papel. Ainda há pouco, em artigo para o "Diario de Pernambuco", já não me ocorre a proposito de quê, fiz umas observações a esse respeito. Entre nós, não passa em geral o ensino da historia, duma. . . historia. Limita-se a datas e a nomes arrevezados e chegará, em alguns casos, a factos; porem factos puramente dymnasticos, politicos e militares.

O methodo do sr. Oliveira Lima é outro. Entre as paginas 25 - porque as primeiras vinte e duas são de preliminares - e ultima do seu interessante livro sandwichou o sr. Oliveira Lima uma forte camada de factos illustrativos da vida e da cultura dos povos. De cada genero de vida e de cada typo de cultura destaca a cor, a nota viva, o caracter, a idea-medular. Assim dos persas informa pittorescamente o historiador que "primitivamente eram montanhezes desprezado o luxo, abstemios, vivendo do espirito em boa parte, sem grande força intellectual creadora como os gregos, nem profunda inspiração religiosa como os hebreus, mas amigos da poesia e da arte e dispondo duma fantasia animada e conceituosa. . . Soldados antes de tudo, pouquissimo fizeram no terreno das artes mechanicas e contentavam-se com que o centro politico de tão vasto dominio fosse tambem e emporio de variadissimas producções, vendo-se ao lado dos linhos do Egypto, os chales de Cachemira da India e as musselinas de Sardes na Lydia" (paginas 44-45). Da capital do imperio medico-persico já informára o sr. Oliveira Lima que era "itinerante, pois que côrte costumava passar nas montanhas de Media, em Ecbatana, e fazia de Babylonia sua Riviera" (pagina 44). Mais adiante, já no capitulo, ou antes parte de capitulo, que dedica á edade media, dá-nos o autor estes traços coloridos da vida medieval: "Si nenhuma agricultura e nenhuma industria caracterizaram a primeira phase da edade media, vestindo os reis no seculo IX a lã que as mulheres fiavam nas herdades, é que o commercio se tornára impossivel pela falta de segurança. Os grandes barões pilhavam os transeuntes - o Rheno era bordado de aves de rapina - e aquelles que não roubavam como salteadores, impunham pesados direitos de passagem pelas suas terras e pontes" (pagina 251). Tudo isto está saborosamente dito, dito com precisão e com admiravel poder de synthese. Um compendio escripto assim, nessa maneira "brisx" - sinto não saber (em portuguez o equivalente desse adjectivo inglez - attrahe e deleita, ao mesmo tempo que informa e faz pensar.

Ao menino-moço excitará a imaginação, dando idéas concretas e animadas das civilizações idas. Lamento que o sr. Oliveira Lima não tenha publicado mais cedo sua "Historia": há sete ou oito annos. Ter-me-ia então livrado do Botelho. . . É verdade que, no meu caso, a argucia dos mestres - um delles, H. H. Muirhead - e leituras em inglez e francez, suppriam de certo modo a pobresa berrante do compendio. Alliás não acredita o sr. Oliveira Lima que "com um compendio, por melhor que seja, se consiga ficar sabendo a materia sem intervenção sabendo a materia sem intervenção do professor" (vide Prefacio). De pleno accordo. No ensino da historia, como no de qualquer outra disciplina, a funcção de mestre e compendio combinados, é ensinar a estudar.

Eu quizera que o sr. Oliveira Lima ensinasse nossos professores a ensinar historia. Seria optimo serviço. Temo parecer impertinente na minha critica aos mestres indigenas de historia: porém creio que é justa. E a intenção é pura e o methodo gentil. Porque minha norma de critica é, arremedando conceito celebre: sobre a nudez forte da sinceridade e manto diaphano da gentileza. Si eu sei que nossos compendios de historia não prestam, que o grosso dos professores não prehenchem seu papel, por que não o hei de dizer? A meu ver deve-se muito a esse desageitado ensino da historia e vacuidade do moderno bacharel brasileiro. Aos nossos paes, o ensino dos classicos, latinos e portuguezes, feito vigorosamente á vara de marmello, suppria dalgum modo a deficiencia em historia. Hoje. . . nem classicos, nem historias. A tendencia do dia é profissionalismo a todo o pano: que levem a breca, ou o diabo, as humanidades. Donde se conclue que é o Brazil paiz muito pratico.

Há noutras observações que desejo fazer em torno do excellente livro do sr. Oliveira Lima. Possuo notas a lapis para um segundo artigo de mil palavras, que irá breve. Este já vae demasiado longo. Alguns dos topicos que versarei no artigo seguinte serão a quase nenhuma attenção dada pelo sr. Oliveira Lima ao factor economico; o excellente resumo da historia dos Estados Unidos, que deve ser cuidadosamente lido pela gente grande do Brasil; a falta dum index pormenorisado e conceitos mais de anthropologia do que de historia, dos quaes, fundado em boas authoridades, discordo, como, por exemplo: "a religião entre os persas, inciou-se, como as demais, pelo culto do fogo e dos astros. . . Dos dois primeiros topicos é que me occuparei mais longamente. Resta-me neste artigo felicitar o historiador magnifico pelo seu "debut" triumphal entre os auctores pedagogicos.



Fonte: FREYRE, Gilberto.[Sobre o livro "História da Civilização"]. Diario de Pernambuco. Recife, fev. 1922. Coluna: Da outra América.

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