[PAPA BENEDICTO XV E A HISTÓRIA DO PAPADO]
Esta de luto a Igreja Catholica: morreu Benedicto
XV. Tenho diante de mim, recortado duma revista, o retrato delle - retrato de meio
corpo. Benedicto XV sorri tristemente, quase com amargor; por detraz dos oculos de myope
seus olhos perscrutam com ternura; na mão branca e fina faisca o annel papal e, sobre o
thorax franzino, cingido de sêda branca, rebrilha a cruz. Há no seu rosto
espiritualidade, subtil espiritualidade e um toque de sarcasmo e um não sei quê de
desdenhoso. Este rosto fino ficará na historia como o de um grande papa.
Succedeu Giacomo Della Chiesa, rebento
dillustre familia da Italia, a Pio X - o honesto, bom, patriarchal, mediocre
Pio X. Pobre Pio X! Era incapaz dum lampejo de argucia. Pertencia, com o presidente
Harding, Poincaré e outros genios telegraphicos, á familia dos mediocres. Por isto deve
ter sofrido. A mediocridade, quando collocada acima de si mesma, deve doer - doer
como um pé rustico e callejado dentro de botina de bico fino. A eleição de Della Chiesa
para o pontificado, logo no começo da guerra, esta sim, foi imensamente feliz. Collocou
"the right man in the right place".
A historia do papado, pelo menos a recente,
parece um successivo alternar entre mediocridades e genios. Talvês, no fim de contas,
isto expresse a vontade divina, que faz subir a mediocridade como correctivo do genio. A
vontade divina é tão paradoxal! Mas o certo é que tivemos o saturra Pio IX e depois,
por longos annos, Leão XIII, que em torno de sua figura branca conseguio reerguer
energias e reflorir esperanças; veio então, por volta de 1903, o bom do Pio X, eclypsado
pelos lampejos das sedas roxas de Merryl del Val; finalmente, já em guerra a Europa,
subiu ao throno Benedicto XV. De Pio IX recebera Leão XIII um sceptro vacillante; as
encyclicas "Quanta Cura" e o "Syllabus" e os dogmas da infallibilidade
do papa e da imaculada Conceição da Virgem, por um lado, e a identificação do
pontifice com a causa do absolutismo, por outro lado, haviam trazido contra a Igreja o
peso de fortes opposições. Parecia impossivel reconciliar com o Catholicismo as novas
idéias scientificas (Lyell, Darwin, Wallace, Huxley, etc) e as novas idéias de
sociedade. O pontificado de Leão XIII foi como uma ponte entre apparentes contradições.
Intensificando o estudo da philosophia de Thomaz de Aquino, o illuminado doutor medieval,
deu ao novo papa á igreja o broquel com que triumphalmente romper a crise. E a attitude
da Igreja em face do Darwinismo foi e continua a ser: (1) que a theoria de Darwin é mera
hypothese; (2) que o mundo póde ter sido creado ou por um só acto divino ou por uma
serie infinita de actos - principio sustentado por Thomaz de Aquino do recuo de sua
epoca; (3) que sempre teem os exegetas, desde os mais primitivos, admittido a
interpretação allegorica do Genesis. Sabia, admiravelmente sabia, a attitude papal.
Vieram mostrar mais tarde, as experiencias de Gregorio Mendel que nada tinham de
definitivas as theorias evolucionistas. Hoje, fóra dalguns fanaticos - que os
há na sciencia como em religião - quem acceita, integro, o Darwinismo? E continua a
ser mera hypothese. E, hypothese ou realidade, não é contrario aos principios do
christianismo. Aos protestantes é que o Darwinismo fez perder o prumo - isto é, a
grande numero: uns acceitando-o, renunciaram a mais vaga fé no sobrenatural; outros o
recusaram intransigentemente da torre ghotica de seu litteralismo biblico.
Isto quanto á sciencia. Quanto a questão social
foi egualmente sabia a attitude de Leão XIII. Ahi está, clara e magnifica, a "Rerum
Novarum". Nella deu Leão XIII ás aspirações da classe obreira, opprimida pela
farta burguezia, nitida significação moral e ao sol desta encyclica assumiu a Igreja, na
Europa, nos Estados Unidos e alhures, o papel de pacificadora no grande conflicto
socio-economico. E neste, como nos seus outros gestos de pontifice e de homem, claramente
mostrou Leão XIII que, ao contrario do seu antecessor, interessava-o, muito mais que o
litteralismo dos dogmas secundarios, a essencia do christianismo.
Do pontificado sem relevo de pio X, uma palavra
apenas, e meramente para refletir que nelle vejo um contrapeso (talvês tenha sido um
correctivo) nos vôos de Leão XIII. Não possuia vestigio, Pio X, de alento diplomatico e
o mentor de sua politica pertencia, ao contrario do vencido Rampolla, á escola de Pio IX.
Sob seu governo perdeu a Igreja bôa parte do prestigio que lhe ganhára o fino velhinho.
Coube a Benedicto reerguer a tradição de Leão
XIII. Fel-o magnificamente. Não se fez Giacomo tão admirado como Leão XIII, de quem
não possuia a coruscante seducção; porém conseguio quase tanto como este e com a mesma
nobre fleugma. Do seu pontificado póde-se, sem exaggero, dizer que foi triumphal. Basta
relembrar: a solução do problema irlandês, a victoria dos catholicos na Belgica, o
reatamento - em via de consumar-se - de relações com a França, o começo de
reconciliação como Quirinal. E convem não esquecer a attitude em face da guerra, que
foi de equilibrio quando tudo tendia ao desequilibrio e attitude em face do Bolshevismo,
quase victorioso em 1919. Aquella foi rudemente atacada por gregos e troyanos que não
comprehendiam a vontade do papa de manter, através do conflicto, seu caracter
super-nacional; da attitude de Benedicto perante a revolução social pouco se conhece.
Benedicto si, por um lado, reagiu contra a Terceira Internacional de Moscow, quando esta
começou a extender pela Europa inteira seus tentaculos viscosos, por outro lado,
mostrou-se tolerante para com a "Branca Internacional", sociedade de intenções
communistas, porém, refreiada por principios christãos.
Com Benedicto XV desappareceu um dos tres grandes
"leaders" contemporaneos. Os outros são o sr. Lloyd George e o sr. Lenine
- este, provavelmente, a mais admiravel figura de nossa epoca.
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Papa Benedicto XV e a história do papado]. Diario de Pernambuco. Recife, fev. 1922. Coluna: Da outra América.
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