YEATS
Da Outra América
Um telegrama no "Diário" de 17 último: "Paris, 15 - De Estocolmo: O Prêmio Nobel, de literatura, foi adjudicado ao irlandês Yeats".
Esse "Yeats" não é outro senão William Butler Yeats. O autor de Irish Fairy & Folk Tales que me perguntara: "Há influências celtas no folclore do Brasil?"
Conheci-o há uns quatro ou cinco anos. Parece que o estou vendo alto e muito branco, as mãos esguias e muito brancas, um cabelo que dir-se-ia todo salpicado duma como poeira de prata. E os olhos cismadores, detrás dumas enormes lunetas de pedagogo. E os dedos finos a brincarem com a fita de seda das lunetas.
Parece que o estou ouvindo falar: de Dublin, de Wilde, do sempre aguardentado Lionel Johnson - um grande místico Católico, das camaradagens da "Young Ireland". Um inglês, o seu, com um sonoro sotaque irlandês. E uma voz debussyana que parecia sempre ir sumir-se.
Era o primeiro grande poeta - quase o primeiro grande artista - que eu conhecia. Viria depois a conhecer Vachel Lindsay, com seu ar de quem acabou de absorver o oitavo ou nono "cocktail"; Rabindranath Tagore, com umas barbas que parecem postiças - dessas que se vendem pelo Natal para os pais fazerem de Santo Claus - e uns dentes de menino a alvejarem entre o roxo dos lábios; Amy Lowell, toda apertada nas suas sedas e rendas, a gordura de "menagére" de hotel ou senhora de engenho parecendo ir espirrar do vestido justo. Mas ninguém me deu até hoje como o Sr. William Butler Yeats a impressão dum poeta.
Tinha eu ao conhecê-lo, na tarde que ele visitou Baylor, dezoito anos ou talvez já dezenove; andava a ler os "lackistas" porém era ainda estranho a William Blake e aos pré-rafaelistas. Se os conhecesse, teria então compreendido melhor o Sr. William Butler Yeats - espírito parente do de Blake e do de Rossetti, sem prejuízo do sabor todo novo do seu lirismo e de sua clara vibração pessoal.
O laureado do Prêmio Nobel nasceu em Dublin em 1865. A 13 de junho. Menino ainda, dedicou-se à pintura. Mas sem o sucesso do pai, John Butler Yeats, de quem há um retrato delicioso de George Moore.
Curiosa figura, a desse velho Yeats, também escritor. Seu livro de ensaios - Essays: Irish and American - é um encanto. Anima-o a flama da ironia. Já no fim da vida mudou-se John Butler Yeats de Dublin para New York, onde morreu em 1921 ou 22. Eu poderia tê-lo conhecido como vim a conhecer o filho glorioso.
O assunto favorito desse Roosevelt virado pelo avesso era a defesa do lazer.Dos vagares. Do que a vida deve ter de inação. A vida sem esse preguiçar um tanto lânguido perdia para ele todo o sabor. Não compreendia os homens que não podem estar voluptuosamente parados na contemplação ou na abstração: os homens incapazes de abstrair-se do que a vida tem de mecânico. Em plena New York de Theodore Roosevelt fez a apologia dos que "however employed, have an idleness which they value as their chief good". Sinto não saber passar isso ao português. Aliás, o pedantismo de citar em inglês, aprendi-o com o Visconde de Santo Tirso.
O Sr. William Butler Yeats - tão filho de John! - deu-me a impressão, com os seus vagares de convalescente, de seguir o pai nessa volúpia do lazer. E talvez viesse afinal a seguir o velho Yeats na pintura, se a influência de Oscar Wilde, com quem se acamaradou em Dublin, não o fizesse entregar-se todo à literatura. Em Dublin chegara a freqüentar a "Royal Society" - escola de pintura.
Aliás, surpreende o número de escritores ingleses que, ou começaram pintores como Yeats e George Moore ou continuaram pintores e escritores, numa feliz aliança de vocações: William Blake, Morris, Dante Gabriel Rossetti. O pintor americano Whistler escreveu todo um saboroso livro sobre a arte de fazer inimizades. (Arte que é tão sutil quanto a de fazer amigos.) E o Sr. Vachel Lindsay mostrou-me uma vez, no Hotel Brevoort, folhas e folhas de papel com uns agudos desenhos seus, a pena. Valendo-se da psicanálise ele atribui a esses desenhos íntima relação com os seus poemas.
No Sr. William Butler Yeats o poeta absorveu de todo o pintor. Mas de vez em quando a vocação do adolescente de Dublin, num enleio diante do mundo de formas sensíveis, se faz sentir no poeta dos elfos.
O Sr. William Butler Yeats é também autor de alguns livros de ensaios: The Celtic Twlight e Ideas of Good and Evil. Uma revista de New York, The Dial, publicou-lhe recentemente as "Memórias", cheias de recordações de Wilde. Há também de Yeats um drama escrito em colaboração com o Sr. George Moore.
Começa agora a ser oficializado e ei-lo membro dessa como Guarda Nacional das Letras: os laureados do Prêmio Nobel.
Antes já se deixara oficializar aceitando uma cadeira no Senado irlandês. É o que mal posso imaginar: Yeats no Senado irlandês. Entre os senadores irlandeses, com as suas vozes de leiloeiro, que vai fazer a voz debussyana de William Butler Yeats?
Um amigo meu dizia-me um desses dias que nas discussões, nos debates e nos concursos vence quem grita mais forte. E no Brasil, creio que é assim. Na Irlanda talvez seja assim. E nesse caso - que há-de ser do Senador Yeats no Senado de Erin?
FREYRE, Gilberto. Yeats. Diário de Pernambuco. Recife, 22 Nov. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 333-335.
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