ALHOS E BUGALHOS
Prefácio
Contou-me o Conde de Sabugosa, quando o conheci em Lisboa, ele já muito velho, mas ainda esplêndido de inteligência, eu mal saído da adolescência, que Eça de Queirós – de quem fora tão amigo – não gostava de ser considerado sem literato nem letrado – isto seria para os Pinheiros Chagas – e sim artista. Escrevia como quem criasse arte. Sem aliteratizar-se.
Receava, talvez, o que por vezes acontece com o literato ou o beletrista: resvalar em literatude. Literatude que chega a ser a negação da literatura criativa para requintar-se em simples caligrafia: em esforço ou esmero só de composição quase desprendida da vida.
Daí poder dizer-se que o escritor precisa de acautelar-se contra a literatude; e não deixar-se bizantinizar em literato ou em beletrista ou burocratizar-se em letrado. Pois é evidente a distância de escritor criativamente escritor para literato; de tal escritor para beletrista; de tal escritor para letrado.
Que haja letras como expressão de literatura criativa. Mas que se resguarde o que há de criativo em tais letras do que de literatude nas outras: das esmeradamente compostas por letrados ou por beletristas sem criatividade artística; ou por letrados apenas sabedores de coisas que não interpretam dando-lhes vida ou espírito: o poder poético do escritor-artista. Daí biografias que não ressuscitam mortos; histórias que não vão além de mecânico registro de ocorrências; subsociologias escritas em antiartístico ou em anticriativo sociologês; subfilosofias traçadas em filosofês. São letras a que falta arte não que as decore, mas que lhes dê ânimo. Vida. Criatividade.
Há, assim, letras que são arte no sentido poético, no sensual, no plástico, no interpretativo, no criativo, por vezes no filosófico, outras vezes no místico: sentidos que distinguem a expressão do artista da do não-artista. Ensaios dessa expressão são os de Montaigne, em francês; os de Nietzsche, em alemão; os de Pater, em inglês; os de Unamuno, em espanhol. Poesias como a de Dante, a de Shakespeare, a de Rimbaud, a de Manuel Bandeira, a de Dario. Ficção como a de Cervantes, a de Swijt, a de Balzac, a de Dickens, a de Henry James, a de Proust, a de Thomas Mann, a de Eça, a de Machado. História como a escrita por Michelet, por Gibbons, por Carlyle, por Burkhardt. Biografias, autobiografias, memórias que sejam também criatividade sob expressão artística: as confissões de Santo Agostinho; as de Rousseau; a biografia de Newman por Strachey; a autobiografia de Newman; a de Henry Adams. E, ainda, a expressão mística como a de Santa Teresa. Ou drama como o dos gregos, e atualmente, em português o de Nélson Rodrigues. Ou filosofia como a ainda jovem de Platão ou como, em dias mais recentes, a de Marx e de Bergon. Ciência como a de Darwin do Beagle. Ou como a de Freud. Ou como a de William James.
Quando em livro antigo e sábio – para alguns sagrado – se fala em letras que matam em contraste com o espírito que vivifica, já se toca no nervo do assunto: o de haver letras que são apenas literatude, apenas composição, apenas retórica, apenas gramática. Letras que são negação da melhor criatividade de que o homem seja capaz. Mas capaz como artista literário: criativamente artístico no seu modo de ser literário. Como uma espécie de equivalente, como artista assim do tipo criativo, do artista plástico, do artista musical, do artista místico. Mais próximo deles do que do escritor que escreve literalmente como letrado, como beletrista, como literato, isto é, mais retórica do que expressionisticamente; ou como – quando científica a matéria que aborda – tecnocrático na sua linguagem. São linguagens, estas, que, sendo literalmente literárias e até, ora beletrísticas, ora eruditas e, por vezes, modelarmente gramaticais nos seus purismos acadêmicos, deixam de corresponder ao sentido de criativas. São das letras que se contrapõem ao espírito de que fala autor clássico e, para alguns, repita-se, sagrado.
A discriminação entre os dois tipos de letras que se impõe para que não se confunda o que numas seja, ou possa ser, criativamente artístico – num tão amplo sentido do que seja artístico que possa confundir-se como o poético como sinônimo de criativo – e o que noutras se apresente como literalmente literário sob aspectos por vezes requintados de literatude.
Com os Huxleys – desde o velho, Thomas, do tempo de Darwin, e autor de On a Piece of Chalk, aos recentes – os dois irmãos: os ensaístas Aldous e Julian – vem se verificando na língua inglesa um verdadeiro romance nas relações de literatura com ciência. Com filosofia. Com as artes. Um novo tipo de ensaio que, por vir se inclinando por temas científicos, filosóficos, estéticos, não tem deixado de enriquecer a literatura propriamente dita deste gênero: a ensaística. Um gênero de que foi mestre, língua francesa, Montaigne, e mestre, na mesma língua, Pascal. Como escritor literário e ensaísta, um interessado com inteligência e sensualidade nos mais vários assuntos, inclusive nos que depois dele se denominariam de antropologia filosófica; outro, em questões filosóficas e até nas teológicas, nestas divergindo dos jesuítas. Os dois, supremos estilistas. Supremos artistas literários. Renovadores das letras européias.
Entretanto, é nas línguas inglesa e espanhola que vêm surgindo, desde que há ensaio literário, um maior número de obras-primas desse gênero. Basta que se recordem, dentre os escritos em inglês, os ensaios de Lamb, os de De Quincey, os de Walter Pater, os de Newman, os de Thoreau, os de Emerson, os de Oscar Wilde e, dentre os mais recentes, os de Chesterton, os de Edmund Wilson, os daqueles dois Huxleys, os de Geioge Santayana, os de Bertrand Russell, que à base dos seus ensaios literários de lúcido pensador foi distinguido com o prêmio Nobel de literatura. Dentre os aparecidos em língua espanhola, destaquem-se os de Gracian, os de Vives, os de Unamuno, os de Ganivet, os de Azorin, os de Baroja, já clássico; e, dentre os mais recentes, os de Ortega, como literatura da melhor.
Há críticos que consideram o ensaio dos espanhóis superior a seu romance, e enxergam no próprio Cervantes um ensaísta sempre presente no ficcionista: um ficcionista quase único no seu modo inclassificável de ser escritor de ficção sem deixar de ter sido de história ou de psicologia social por antecipação. Tais formas de expressão literária – o romance e o ensaio – também foram combinados em inglês dos nossos dias por Wells, Chesterton e o próprio Shaw – um Shaw célebre por seu prefácio-ensaios – depois de ter sido antecipada por Swift e por Defoe.
Não se diga da literatura em língua portuguesa que é de todo pobre no gênero: o ensaio literário. Não terá sido Vieira, o dos sermões famosos, a seu modo um ensaísta? Não se poderá sugerir o mesmo de Fernão Mendes Pinto e, como pioneiro do próprio ensaio associado à ciência, Garcia de Orta? Não foram ensaístas admiráveis Garret, Ramalho, Eça, o Visconde de Santo Tirso, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Antônio Sérgio, Oliveira Lima, Gilberto Amado, Afrânio Peixoto, José Lins do Rego, e não o são, atualmente, Carlos Drummond de Andrade, Prudente de Moraes, neto, Afonso Arinos de Melo Franco, Sérgio Buarque de Hollanda, Otto Lara Rezende, Nélson Rodrigues, Pontes de Miranda?
Vários, na nossa língua, os de talvez menor porte especificamente literário ou artístico, ou os ainda a se afirmarem plenamente, que, lidando com assuntos científicos, históricos, sociológicos, jurídicos, vêm fazendo literatura por vezes ensaística, da mais castiça, como M. Jourdain fazia prosa: sem o saberem. À língua portuguesa não vem faltando, nem falta hoje, vocação para o ensaio como expressão literária em harmonia como que, no brasileiro, é, em vários casos, misto de ânimo lírico e de gosto pela análise, pela observação, pela interpretação, pela crítica criadora sem deixar de ser objetiva.
Dos ensaios que se reúnem em Alhos & Bugalhos talvez seja discutível, para puristas das chamadas belas-letras, sua condição de castiçamente literários. Serão, para tais puristas, marginais de literários como forma, sendo alguns, com efeito, um tanto, mas não exclusivamente, científicos nas substâncias. Mas, mesmo assim imperfeitamente beletristas, não lhes faltará interesse humano, social e, especificamente, literário. A perfeição literária em literatura nem sempre será superior a imperfeições. A história da literatura não contém apenas registros de obras ou de autores de todo perfeitos no seu beletrismo; ou puros nesse requinte; entre os imperfeitos e mistos encontrando-se não poucos notáveis pelas sua criatividade irregular mas significativa. O caso de Proust. Ou o caso de vários Prousts. Deficientes serão eles nas chamadas graças convencionais de estilo, além de demasiadamente desviados dos modelos de correção clássica ou acadêmica de linguagem. Talvez maus exemplos para os jovens pelo muito que neles é repetição, além de outras deselegâncias. Vêm eles, entretanto, sobrevivendo nessa difícil história – a da literatura – como autores dos melhores pelas suas inovações, originalidades, descobertas de sentido literário junto, por vezes, ao não-literário. Entre esses sobreviventes, ensaístas que, pelo gosto de críticos ortodoxamente literários, no sentido estritamente beletrístico da literatura, não deveriam ser considerados literários: quando muito ensaístas, mas ensaístas extraliterários. Explica-se assim que haja, para tais ortodoxos, essa condição anormal: ensaístas, sim, mas extraliterários. Ou – par os beletristas mais pudibundos – subliterários.
Acentua-se que ensaios assim duvidosos quanto á sua virtude literária têm sobrevivido á sua condenação por puristas e se tornado até clássicos: na língua portuguesa os do nada beletrista Garcia de Orta, por exemplo. À sombra de precedentes assim ilustres é possível que os ensaios reunidos em Alhos & Bugalhos mereçam ser considerados ensaios literários. Não serão belles-lettres no seu sentido mais dengoso: nem pretendem sê-lo. Mas não lhes faltará de todo aquele sal que define a arte literária de expressão; e que, faltando, os condenaria a ser, para os leitores de paladar literário menos estritamente beletrístico e mais artisticamente católico, insossos ou insípidos ao ponto dos repugnantes.
Através do ensaio literário tem sido abordado matéria antropológica: Frazer, o do Golden Bough, tornou-se escritor acolhido nas melhores histórias da literatura inglesa. O caso, também, de son, outro psicólogo-filósofo, se situam entre ensaísta de alto valor literário. Ruth Benedict escrevia com elegância literária: seus estudos de antropologia são ensaios a que não falta a graça da expressão artística. A mesma graça que se encontra em Rondônia, de Roquette Pinto. E também nos ensaios de Simmel sobre a sociologia da moda. Ou nos de Munford, sobre artes de túmulos. No Tristes Tropiques de Lévi-Straus. Nas páginas de Jean Duvignaud sobre bancos de sonhos: páginas de ensaístas literários debruçado sobre assunto antropológico.
Tais precedentes animam um simples brasileiro a, em Alhos & Bugalhos, segundo o que já se ousou fazer no seu de edição esgotada Vida, Forma e Cor, pretender, como ensaísta literário, abordar, além de assuntos especificamente literários, aspectos de uma sociologia da arte e de uma antropologia da cultura menos abstrata do que existencialmente condicionadas.
O ensaísta literário e as artes – principalmente a da pintura – vêm sendo, há tempos, além de bons vizinhos, bons amigos. Mais do que a maioria dos críticos profissionalmente de arte, é o ensaísta literário que tem revelado, interpretado, situado na história geral da cultura as mais sutis características de pintores, de escultores, de compositores, de cineastas, de Chaplins, de Diaghilevs, de Nijinskis, de Albertos Cavalcantis, de Marthas Grahans. Basta que se recorde o que de pintores escreveu magistralmente Walter Pater, talvez o mais literariamente ensaísta de todos os ensaístas literários de que há notícia; e ele próprio plástico, pictórico, além de musical, no seu escrever. Tão lúcido na interpretação da filosofia de Platão como na da arte de Da Vinci. O caso, já recordado, de Proust: tão ensaísta na sua ficção e sempre tão voltado para artes. O caso, também, este atualíssimo, de André Malraux, além de ser o do inglês – ensaísta dos melhores – Herbert Read: ambos, em sua abordagens de assuntos de arte, ensaístas literários e não tecnocratas da crítica de arte ou da sociologia da arte: que também pode ser tecnizada. é preciso que marginais de certa espécie, isto é, com ânimo para abordarem assuntos de arte e até de ciências que possam, quando tocadas de humanismo no seu modo de ser ciências, ser interpretadas com uma mais ampla compreensão e uma mais lúcida perspectiva.
Nos ensaios reunidos em Alhos & Bugalhos há matéria de todo inédita – como novo ensaio sobre José Lins do Rego, como " Karl Marx, gênio literário desviado de sua vocação"?, como três ou quatro outros ensaios --; junta-se também a republicação, revista pelo autor, de ensaios literários, como o há anos publicado em Portugal sobre Eça e Ramalho. Ou como trechos do longo ensaio que é concentrada uma interpretação, porventura, em alguns pontos, nova do estilo, talvez um tanto retrospectivamente manuelino, de Oliveira Martins que encantou Valéry Larbaud, o tradutor francês de Ulysses (em introdução ao livro Um brasileiro em terras portuguesas, Rio de Janeiro, 1953).
Santo Antônio de Apipucos, março, 1977.
GILBERTO FREYRE
Fonte: FREYRE, Gilberto. Alhos e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. 192p.
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