MODOS DE HOMENS E MODAS DE MULHER
Prefácio Modos, o que são?
A cultura brasileira é, para o brasileiro, alguma coisa que lhe pertence quase como se fosse parte do corpo e do ânimo de cada um. À cultura espanhola que Unamuno descobriu lhe doer, quando ultrajada, corresponde uma cultura brasileira com igual ou maior sensibilidade: capaz de doer no brasileiro em dias de angústia para desígnios culturais não correspondidos.
Será que estamos vivendo dias dolorosos para o que, em nós, brasileiros, é nossa cultura nacional? Há brasileiros que pensam estarem vivendo tais dias . Pessimistas, talvez. Pois há sinais de criatividade, nesses setores, que compensam deficiências, noutros.
Através deste livro, será recorrente a apresentação de modos de homem ao lado de modas de mulher, com não poucos casos de formas ou ambíguas ou bivalentes ou mistas. Ou intermediárias entre tais diferenças . E subentendendo-se, de modos de homem, vários deles terem se tornado comuns aos brasileiros dos dois sexos.
Não há desapreço pelos modos de homem, só à base de um inferior quantitativismo. As modas de mulher serão mais numerosas que esses modos, quando, na verdade, os exemplos qualitativos podem compensar essa deficiência e se imporem a um maior apreço, num exato julgamento de valores . Daí a advertência ao leitor de conservar-se em constante estado de vigilância quanto à superação de referências a modos de homem por modas de mulher. Um analista de valores pode chegar a conclusões surpreendentes quanto a superações mais decisivas por serem verdadeiramente mais conclusivas.
São da linguagem cotidiana expressões como "homem de bons modos", "homem de modos finos", com "modos", nesses casos, correspondendo àquelas maneiras, feições ou formas particulares e, até, jeitos, artes e comedimentos próprios de homens bem-educados. De homens habilidosos. De homens requintados nos seus comportamentos ou, particularmente, nos seus meios, civilizados e civilizantes, de expressão.
De onde as palavras módulo e modulação, a primeira significando medida reguladora de proporções de uma obra arquitetônica, a Segunda, ato ou efeito de modular, isto é, de dizer, de tocar ou de cantar melodicamente. Disciplinas sistemáticas, ou estéticas, de fazer, de construir, de compor, de ordenar, de ligar, de unir por diferentes meios técnicos, artísticos, engenhosos, capazes dessas articulações .
Note-se da maneira por que tenderiam a se afirmar mais incisivamente modos de homem serem menos ostensivos que modas de mulher. é no que mais se diferenciam de modas, de conotações não copiosamente femininas.
Modo e moda tendem a confluir a serviço do ser humano. Mas sem perderem essenciais de característicos que fazem, de um, expressão de masculinidade e de moda; da outra, expressão mais de feminilidade do que de masculinidade.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Modos de homem & modas de mulher. Rio de Janeiro: Record, 1987. 181p.
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