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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



NOVO MUNDO NOS TRÓPICOS
Prefácio


êste livro aparece em língua portuguêsa, depois de ter surgido há anos na inglêsa - na qual foi escrito pelo autor brasileiro - e na japonêsa. Em língua portuguêsa, apareceram apenas alguns dos seus capítulos: os que constaram do livro anterior, publicado com o título em inglês - língua em que êsses capítulos foram escritos - de Brazil, an Interpretation e, em português, de Interpretação do Brasil. Livro - Interpretação do Brasil - publicado também em espanhol e em italiano.

Ao aparecer, porém, em língua inglêsa, com o título de New World in the Tropics, já não era, senão em parte mínima, Brazil, an Interpretation; e sim um nôvo, um diferente, um outro livro. Um livro mais amplo que aquêle - com quatro novos capítulos e uma longa introdução também nova; e mais compreensivo. Mais compreensivo em sua tentativa de interpretar não apenas o Brasil, como tal, porém como expressão pioneira de um nôvo tipo de cultura e de civilização - civilização moderna ao mesmo tempo que ecológica - em desenvolvimento em espaço ou dentro de ambiente tropical.

Tomando a iniciativa de publicar, em língua portuguêsa, New World in The Tropics, a Companhia Editora Nacional - tão cheia de serviços valiosos à cultura brasileira - dá ao autor livro até hoje, em grande parte, desconhecido no seu próprio país, a oportunidade de um contato com seus compatriotas em tôrno de problemas que interessam os destinos não só nacionais como transnacionais do Brasil, que é um contato que lhe estava faltando. Pela concessão dessa oportunidade o autor agradece ao eficiente editor Octalles Marcondes Ferreira. A êle e ao diretor da Coleção Brasiliana, o admirável scholar que é Américo Jacobina Lacombe.

Do primeiro livro do autor publicado no Brasil - o intitulado Casa-Grande & Senzala - escreveu o mais autorizado dos seus críticos - o felizmente, naqueles dias, ainda vivo lúcido João Ribeiro, que tanto o louvou - ser um livro sem conclusões: "não conclui ". Crítica que lhe fêz também o insigne escritor Ribeiro Couto: chegara, desapontado, à última página do mesmo livro sem ter encontrado conclusões. De onde seu reparo a lápis vermelho: "Que propõe?"

O autor estava então, de fato, em fase principalmente analítica ou indagadora, em face do assunto já, naqueles dias, de sua máxima preocupação: o Brasil como país - e como cultura - situado em espaço, quase todo, tropical; o Brasil como cultura, quase tôda, mestiça: eurotropical, hispanotropical, lusotropical; o Brasil como gente ou povo quase todo mestiço: mestiço de branco e ameríndio; mestiço de branco-ameríndio-africano. O que mais buscou naquele livro foi analisar, compreender fixar sob nova perspectiva, uma situação complexa da qual, como brasileiro, se sentia parte e sôbre a qual, como antropólogo e como sociólogo e um tanto historiador, se sentia no dever científico de ser, quanto possível, objetivo. Daí uma perspectiva empática, ao mesmo tempo que objetiva, de análise. Um tanto, já, de análise interpretativa. Mas não ainda de síntese, pròpriamente dita; nem, de conclusão. Nem mesmo de sugestões, menos, ainda, de proposições.

Esta outra perspectiva do mesmo assunto só a vem tentando aplicar àquele sujeito-objeto de estudo em trabalhos mais recentes; e à base de um possível saber acrescentado daquela vivência que só se adquire com a experiência, com a intimidade, com a crescente combinação de empatia e de objetividade. Daí conclusões a que, sôbre essa base, se tem aventurado.

Dêsse modo é que se vêm alongando sua possível ciência de analista e sua possível arte de observador do comportamento humano, em geral, e do brasileiro, em particular, numa também possível filosofia. E essa filosofia - se existe - implicaria já um pequeno conjunto, e até uma suma, senão de sínteses ou de conclusões, de sugestões ou de interpretações. De interpretações e de sugestões com alguma coisa de sínteses e de conclusões: as que estão à base de justificativa que, do ponto de vista brasileiro, o autor vem oferecendo para a formação de uma Tropicologia geral dentro da qual se desenvolvessem uma Hispanotropicologia e uma Lusotropicologia para estudos específicos de situações humanas, também específicas, condicionadas por ambientes ou por influências tropicais. Quer situações gerais, quer situações que se apresentem sob aspectos simbióticos - o hispanotropical e, especialmente, o lusotropical - particulares.

Essa filosofia vem sendo discutida: aceita por uns, impugnada por outros. E é natural que assim aconteça desde que não lhe faltam projeções políticas que se chocam com expressões de sociologias ou de antropologias intituladas "objetivas", ou com pretensões a "estritamente científicas" e, como tais, neutras. Neutralidade que, quase sempre, vem significando a manutenção de um status quo ou o desenvolvimento de uma dinâmica que associem objetividade com umas tantas projeções políticas dessas mesmas sociologias, ou antropologias, ditas "objetivas" "cientificas". O certo é que essa objetividade, ou cientificidade, o que vem é principalmente correspondendo a interêsses econômicos, de status quo, ou ideológicos, de dinâmica, que em grande parte vêm representando, uns e outros, imperialismos de potências não-tropicais com relação a espaços, recursos, populações e culturas tropicais. Daí se arrepiarem os campeões dessa "objetividade" e dessa "cientificidade" em face de sociologias e de antropologias que, alongando-se em filosofias dessas ciências, levantam novas perspectivas de situações tropicais e, sobretudo, de relações dessas situações, entre si, e com as atuais potências não-tropicais.

A verdade, porém, é que não vêm faltando entre europeus e anglo-americanos sociólogos e antropólogos de um nôvo tipo para os quais situações não-européias e não-anglo-americanas, em geral, e tropicais, em particular, são situações humanas, em geral, socio-culturais, especìficamente, que, pelos seus condicionamentos ecológicos, se apresentam de tal modo diferentes das tidas ou havidas por outros sociólogo e antropólogos europeus e anglo-americanos - principalmente os psicanalistas e os marxistas também ortodoxos - como universais, que exigem análises novas, estudos novos e, à base dessas análises e dêsses estudos, reinterpretações em profundidade. Recordem-se dentre os sociólogos e antropólogos que, europeus ou anglo-americanos, vêm, entretanto, reconhecendo a necessidades dessas novas análises e dessas reinterpretações um Boas e um Malinowski, um Redfield; e, dentre os atuais, um Balandier, um Berger, um Duvignaud, um Tannenbaum, um Roger Bastide, um Mason, dentre os não-europeus: um Mukerjee, já antigo, e dentre os atualíssimos, um Takder.

O fenômeno de socialismos como os que vêm aparecendo na África e no Oriente, diferentes dos europeus e até em oposição a êsses européismos socialistas, como o russo-soviético, vem sendo precedido por umas como revoluções sociológicas no mesmo sentido, em que antropólogos e sociólogos de países tropicais estão se constituindo filósofos dessas ciências com o propósito de abrirem aos estudos cientìficamente antropológicos e sociológicos, nesses países, perspectivas que, não sendo antieuropéias, sejam não-européias ou co-européias; e não subeuropéias. E quando aqui se diz europeu inclui-se, nessas classificação, o anglo-americano.

A perspectiva de situações socioculturais tropicais que, diferentes das européias, precisam de ser consideradas nas suas diferenças, em vez de ser vistas e analisadas e interpretadas como subeuropéias, vem sendo uma dessas revoluções. E não há dúvida de que, com seus altos e baixos, é uma revolução que está partindo, atualmente, mais do Brasil do que de qualquer outro país tropical. Mais dos tropicologistas brasileiros do que de outros sociólogos, antropólogos, ecologistas que, entretanto, noutras partes da América, na África e no Oriente tropicais, estão igualmente considerando sob novos critérios ecológicos e ecoculturais - problemas que certo imperialismo sociológico de origem européia ou anglo-americana vinha impondo a sociólogos e antropólogos de países tropicais como se as sociedades e culturas dêsses países fôssem passivamente subeuropéias.

Essa revolução mais do que intelectual do brasileiro de hoje - revolução tão de dentro para fora que é como se fôsse uma revolta contra a sociologia que lhe tem sido imposta de fora para dentro, embora a essa sociologia de fora para dentro, o brasileiro crescentemente consciente de ser membro de uma sociedade e de uma cultura em grande parte tropicais, mestiças e não-européias, seja devedor de preciosos estímulos e informes intelectuais - é uma das afirmações mais vigorosas de que êsse mesmo brasileiro já encontrou o caminho para a identificação sociológica da sua situação psicocultural. Essa identificação implica o reconhecer-se êle homem, ainda que herdeiro de cultura européia, situado no trópico; imerso ecològicamente no trópico; ligado ao trópico fisiològicamente, mesmo quando em sua étnica não haja sangue ameríndio ou negro africano: ausência quase sempre compensada pela grande presença, no seu ser psicocultural, dêsse ameríndio e dêsse africano telùricamente tropicais.

Mais: essa consciência, êsse reconhecimento, essa volúpia, até - em alguns casos - de ser homem situado no trópico e sua civilização uma civilização em desenvolvimento em espaço tropical, vem dando, nos últimos anos, ao brasileiro, juntamente com uma reconciliação de sua condição de tropical com a realidade tropical, aquela coragem, aquêle gôsto e, mesmo, aquela volúpia, de procurar ver essa sua condição e essa realidade, para além das fachadas como que oficiais que a vinham escondendo dos seus olhos. Em outras palavras: vem lhe dando a capacidade de "seeing through façades", a que se refere Peter L. Berger nas páginas admiráveis em que propõe e justifica uma humanística para a moderna sociologia. Como acrescenta o Prof. Berger "the façades must be penetrated by one’s own inquisitive intrusions".

Outra coisa não vem procurando fazer o autor dêste livro desde os seus estudos de mocidade sôbre o Brasil tropical e mestiço senão isto: reconhecer nestes dois adjetivos - tropical e mestiço - a realidade de sua influência decisiva sôbre o substantivo. Vê-los para além das fachadas com que o Brasil vinha, por algumas das suas principais instituições oficiais de govêrno e de cultura - o Itamarati, a Marinha, as academias, -- procurando dissimular essa realidade. E sem nunca desprezar o que lhe vêm revelando suas pesquisas, suas indagações, sua curiosidade a respeito das origens, da formação, as possibilidades atuais e futuras do Brasil como sociedade e como cultura condicionadas, em grande parte, pela sua tropicalidade e pelo caráter mestiço da maioria dessa sociedade e do essencial nessa cultura, vem o autor procurando destacar, nessa formação nessas origens, nessas possibilidades, além do positivo, o válido; e além do válido, o valioso. Inclusive quanto ao aproveitamento de valôres tropicais, desde o século XIX, pelo nacional.

Também quanto à relativa benignidade nas relações, no Brasil, entre os vários grupos étnicos-culturais. São grupos que, interpenetrando-se, vêm concorrendo, através de considerável mobilidade social, quer horizontal, que vertical, para favorecer, nesta parte da América, sob a forma de uma civilização moderna em ambiente tropical, uma democracia dinâmicamente étnico-cultual com o mérito pessoal tendendo, cada vez mais, a superar desvantagens tanto de etnia quanto de classe que possam prejudicar indivíduos: sua ascensão social ou socioeconômica; a afirmação dos seus talentos; a utilização de suas possibilidades.

Daí a ênfase que o autor vem procurando dar, por um lado, ao fenômeno da ascensão, dessa espécie de mestiços e, menos ostensivamente, de indivíduos e de grupos ainda de etnias puras e de condições cultural e socialmente desprestigiosas, agora já, em parte, reabilitadas: inclusive a própria condição de escravo; por outro lado, à crescente tropicalização - importante por vêzes em africanização ou em amerindianização - de valôres, de técnicas e de usos, na sociedade e na cultura brasileira, provenientes de civilização européias e de que foram introdutores, no país, europeus na maioria caucasóides com pretensões, alguns dêles civilizadores absolutos de terras e de populações "inferiormente tropicais", situadas no espaço brasileiro.

Verifica-se, atualmente, no Brasil, uma revolução não só nos seus estudos sociológicos, crescentemente situacionais ou ecológicos, como à margem, ou fora dêsses estudos, no sentido da valorização do que, na sociedade e na cultura brasileiras, é tropical, ecológico, não-europeu, inclusive com relação ao tempo. Essa valorização, entretanto, não importa em repúdio sistemático a valôres e a técnicas de origens européia, anglo-americana, japonêsa, suscetíveis de ser combinados - quando possível - com os valôres e as técnicas tropicais, ou de ser adaptados - quando impossível tal combinação - às condições brasileiras básicas de vivência e de convivência, que são as tropicais. De modo algum. Não é o Brasil de agora um país de gente antieuropéia. Não há, entre os brasileiros, nenhum movimento de sentido radicalmente antieuropeu. O que se verifica, talvez, na maioria dêles, é um orgulho nôvo - e o orgulho dessa espécie é um daqueles componentes de situações sociais que, segundo Thomas já advertia, sobrepõem-se até à realidade - do que na etnia de muitos e na cultura de quase todos é tropical, não-europeu e como que telúrico. Orgulho do que é tropical na sua morenidade de vários graus, na música de vários tipos - da de Villa-Lobos aos sambas de morro - na sua culinária também múltipla: nos carurus e nos doces delicados tanto quanto nos rústicos quibebes e nas rudes paçocas. Orgulho de origens não-européias de etnias e de culturas: origens, outrora, escondidas ou dissimuladas por muitos. Orgulho também, da mesma espécie sociològicamente válida do que supõem venham a ser projeções, no futuro, dêsses seus valôres tropicais e mistos de agora que já começam, na verdade, a ser reconhecidos como importantes por estudiosos não-tropicais do assunto: um Marston Bates, entre outros.

Escreveu de situações sociais o austríaco Alfred Schultz - citado por Peter L. Berger, no seu Invitation to Sociology, como "filósofo da escola fenomenológica" cuja obra, a ser breve publicada em língua inglêsa, será, quando assim divulgada, um acontecimento intelectual - que em cada situação - dessas, em que qualquer indivíduo-pessoa, se encontre, -- é uma situação não só definida pelos seus contemporâneos como pré-definida pelos seus predecessores. Pode-se acrescentar que é também uma situação por antecipação definida pelos pósteros: sobretudo tratando-se de sociedades e de culturas em desenvolvimento como as do Brasil: com imenso futuro diante delas. Futuros mais amplos que seus passados socioculturais, embora êsses não devam ser tidos como cronològicamente limitados pelo ano de 1500.

Se Fontenelle disse um dia serem os mortos mais poderosos do que os vivos em sua influência sôbre uma sociedade ou uma cultura - conceito sistematizado pelo sociologia filosófica de Augusto Comte - é justo, entretanto, opor-se a essas generalização, até certo ponto sociològicamente válida, esta outra: que em sociedades e culturas em desenvolvimento é também considerável a influência dos pósteros sôbre os contemporâneos; do tempo futuro sôbre o atual. E dos trópicos o que mais se diz atualmente é que são as regiões do futuro; que o futuro humano está principalmente nos trópicos; que nos trópicos, quase virgens de civilização moderna, é de esperar-se que o homem civilizado e moderno se projete de modo surpreendentemente nôvo, tais as novas possibilidades de cultura a emergirem do seu encontro com essa ecologia quase desconhecida ou quase inexplorada.

Espaço ou ecologia, sôbre o qual está grande parte do Brasil: aquela parte do todo brasileiro ainda por afirmar-se como expressão de um mundo - o situado no trópico - mais do futuro que do presente ou do passado, a admitirmos a divisão convencional do tempo em três tempos que, entretanto, só aparentemente serão assim distintos. Porque o que no Brasil é nôvo, e o que será o futuro brasileiro não deixam de ser um nôvo e um futuro condicionados por uma reinterpretação de passados dos quais o brasileiro é parte; ou que são parte - juntamente com o tempo atual - do brasileiro. Pois o homem é tempo tanto quanto é espaço: sofre pressões de tempo quanto de espaço que o condicionam, embora não determinem seu ser ou - como diria um discípulo de Ortega - seu "estar sendo".

Os que reconhecemos a importância do passado - ou da tradição - no desenvolvimento de cultura, seja ela nacional ou transregional, podemos repetir, dêsse desenvolvimento, com o Professor Américo Castro: "Hay que hacerce com la propia historia, no dehacerse de ella frivolamente". Nenhuma sociedade consegue deitar no lixo a totalidade do seu passado para ser de todo nova e entregar-se de todo a um presente ou a um futuro considerados autônomos.

Precisamente a propósito daquela filosofia de história levantada por Américo Castro é que Miguel Enguidanos, em depoimento sôbre sua própria experiência de espanhol com relação à Espanha - experiência que nêle adquiriu intensidade dramática ao nascer como que de nôvo fora da Espanha - escreveu em " Américo Castro y el futuro de los españoles" ( Cuadernos, Paris, n.º 40, janeiro-fevereiro de 1960), ter refeito sua vida, fora da Espanha, descobrindo-se na plenitude do seu ser espanhol, diz êle: hispânico, poderia ter dito a "conciente y doliente de serlo". De sê-lo com relação ao passado e com relação ao presente e ao futuro; com relação a si próprio e com relação aos demais.

E aqui se ergue um problema de difícil solução: o de continuar um espanhol ou um português ou um brasileiro a fazer-se - em vez de se considerar definitivamente feito - sem desfazer-se; o de assimilar valôres novos, decorrentes de situações novas, sem repudiar o essencial na tradição de valôres dentro da qual nasceu; o de americanizar-se ou africanizar-se ou tropicalizar-se sem desispanizar-se ou deslusitanizar-se ou deseuropeizar-se; o de modernizar-se sem desispanizar-se ou deslusitanizar-se ou desbrasileirar-se; o de tecnocratizar-se sem desispanizar-se ou deslusitanizar-se ou desbrasileirar-se; o de atualizar suas tradições suscetíveis de atualização - inclusive sua tradição de lazer, de ócio, de tempo desocupado, para o qual se acham despreparados tantos povos progressistas, até agora ativistas, e já vítimas de uma sobrecarga de tempo desocupado que precisam de aprender com hispano-tropicais - principalmente, talvez, com brasileiros - a transformar em tempo lúdico contemplativo, recreativo, inútil. Tempo desprendido de preocupações de dinheiro, de compensação monetária, de correção monetária. Tempo impregnado ecològicamente de trópico embora retendo, de suas ligações com ambientes europeus, aquêles mitos, por um lado, e aquelas implicações lógicas, por outro lado, suscetíveis de ganharem novas expressões em ambientes tropicais.

Em livro recente, em que o pensar e o sentir do seu autor, Nestor dos Santos Lima, em vários pontos coincidem com os do autor de New World in the Tropics, neste e noutros dos ensaios em que vem tentando caracterizar a situação do Brasil como a de um sistema de civilização eurotropical destinado a desempenhar, em escala mundial, papel criador, ou criativo - papel que, aliás, já começa a desempenhar com a sua música, a sua culinária e a sua arquitetura - o sociólogo Nestor dos Santos Lima lùcidamente destaca vir se verificando, no nosso país, o que chama "sensível fusão da arquitetura religiosa luso-brasileira com a estrutura da casa residencial a familiar, à qual às vêzes só acrescenta o frontispício e a cruz..." é o que se lê à página 111 de Uma Terceira América. Ensaio sôbre a Individualidade Continental Brasileira (Rio-1967).

Dêsse reparo talvez se possa dizer que coincide com sugestões que o autor de New World in the Tropics vem procurando esboçar desde páginas mais remotas que as de New World in the Tropics. Pois desde a mocidade vem observando, no nosso país, a assimilação de característicos arquitetônicos de casas-grandes por igrejas, ao lado da assimilação característicos arquitetônicos de conventos por casas-grandes, numa reciprocidade porventura peculiar à formação brasileira. Como peculiar à formação brasileira parece ser o fato de não se terem erguido, no Brasil, catedrais da mesma grandiosidade das do México e do Peru: expressões de um poder episcopal ou teocrático, que, na América Portuguêsa, arquitetônica e socialmente crescida, de modo considerável, em tôrno de casas-grandes de engenho, de fazenda e de estância - casas-grandes completadas por capelas - não se apresentou, nunca, nem tão incisivo nem tão absorventes. Bispos, abades, provinciais de ordens religiosas tiveram, no Brasil - ao contrário do que se passou na América Espanhola - um contrapêso, não esporádico, como o dos caudilhos, porém constante e até sistemático, no poder entre nós representado, quer no período pré-nacional, quer na primeira fase do já nacional, pelos senhores das casas-grandes. O que confirma a tese de ser, no Brasil, a chave principal para a interpretação de sua formação socio econômica, a familista ou patriarcalista. O poder daqueles senhores e a influência dos complexos representados triangularmente pelas suas casas (com capelas), suas senzalas e seus engenhos de açúcar ou suas fazendas de café e de cacau ou seus campos de criação de gado, foram, entre nós, podêres e influências superiores ao dos representantes del-Rei, ao dos governos centrais, ao dos bispos, ao dos jesuítas.

Foi como o Brasil se desenvolveu em civilização em espaço tropical - desenvolvimento que continua: com essa singularidade. Mas, por outro lado, com não poucas coincidências como o desenvolvimento de civilizações de origem, como a do Brasil, principalmente européia, potencialmente hispânica, especìficamente portuguêsa, que vem ocorrendo noutros espaços tropicais; e formando, no seu conjunto, um nôvo mundo nos trópicos.

Desnecessário parece ao autor dêste livro recordar que nêle, como nos seus demais trabalhos - nos que vem escrevendo há anos, quer em língua inglêsa, quer na portuguêsa - o critério seguido, de tentativa de interpretação do Homem situado no trópico, não é nem o exclusivamente sociológico nem o apenas econômico ou, mesmo ecológico, porém outro, porventura mais compreensivo, em que a essas perspectivas, por muitos consideradas insuficientes, vem juntando a antropologia - de onde sua "antropologia tropical", considerada científica e filosòficamente válida pelos mestres da Sorbonne - a histórico-social, e psicocultural. Daí a satisfação com que leu há pouco as excelentes páginas e que Carlos Delgado, no número de janeiro, de 1969, de Aportes ( Genebra), depois de opor restrições ao pan-economismo por que se vêm orientando, em ensaios antissociológicos - Delgado chega a referir-se ao empenho de alguns economistas marxistas, e mesmo não-marxistas, no sentido de uma como dessocialização dos estudos sociais - autores como, entre outros, os brasileiros Celso Furtado e Fernando H. Cardoso, o primeiro em Desenvolvimento e subdesenvolvimento e Dialética do desenvolvimento, -- que cita em edições em língua espanhola - Cardoso, em seu Cuestiones de sociología del desarrollo en América Latina - publicado em Santiago do Chile. Carlos Delgado repele a teoria de que o simples desenvolvimento econômico, que se afirme em "elevadas estatísticas do produto per capita", signifique "desarrollo social" e possa ser identificado - do mundo porque o identificou José Medina Echavarría, em Consideraciones sociológicas sobre el desarrollo económico ( Buenos Aires, 1954) - como " progresso humano", -- o próprio Echavarría reconhecido em tempo, "la obsolecencia de la filosofía del progresso en el mundo contemporáneo": progresso cuja " limitación al campo de lo puramente técnico" é destacada por Karl Jaspers e, de diferentes pontos de vista, por Herbert Marcuse.

O que Carlos Romero salienta no seu " El desarrollo social reconsiderado", num pronunciamento que particularmente interessa ao autor de New World in the Tropics, por coincidir com um seu já antigo critério de tentativa de análise e de interpretação de civilizações modernas em desenvolvimento nos trópicos, é o repúdio dêle e outros estudiosos do assunto quer a uma economia, quer a uma sociologia que, como ciências horizontais, se julguem suficientes para essas e outras análises e interpretações. Daí proclamar, referindo-se à América Latina, "la necesidad de desentrañar el verdadero y mas profundo sentido de la historia latino-americana para buscar en ella la raíz primigenia a partir de la cual se há moldeado en el espacio y en el tiempo la forma de ser del hombre y la cultura en América Latina". Mais: para conseguir ir a essas raízes o sociólogo "debe apelar al historiador, al antropólogo, al filósofo de la historia, es decir, a quienes... indagan por el que hacer humano en el espacio y en el tiempo y tratar de descubrir el sentido recóndito del hombre como hacedor de cultura y de historia".

Precisamente o empenho que tem animado o autor de New World in the Tropics em estudos que, partindo da tentativa da análise e da interpretação e da cultura da sociedade brasileira, como sociedade e cultura situadas no tempo e no espaço vêm se estendendo a maiores audácias: à formulação de uma antropologia do Homem situado no trópico, que vá da antropologia biológica à filosófica. E que considere o desenvolvimento social, em conexão com tais sociedades e com êsse Homem situado, além do seu simples desenvolvimento econômico e independente do mito de progresso contínuo e indefinido a que a recente e involuntária charlatanice - charlatanice filosófico-científica - do aliás angélico Teilhard de Chardin veio dar nôvo, embora transitório, vigor. Tão transitório que não vem resistindo sequer aos contragolpes da filosofia anarquista - sob vários aspectos extremamente sugestiva - de Herbert Marcuse; nem superando Jacques Maritain.

Sto. Antonio de Apipucos, 1969 - G.F.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Novo mundo nos trópicos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971. 257p.

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