VIDA, FORMA E COR
Prefácio
Êste livro, intitulado Vida, Forma e Côr, publica-se por iniciativa de jovem e já notável crítico literário – Renato Carneiro Campos – que, antecipando-se ao seu colega paulista, o igualmente lúcido Osmar Pimentel, tomou a si a tarefa de organizá-lo e apresentá-lo, selecionando dentre inéditos e conferências proferidas pelo autor em restritos meios universitários, e também dentre trabalhos já aparecidos em português ou em inglês, em revistas ou em livros, um grupo de ensaios sôbre assuntos especìficamente literários ou artísticos. Trabalhos, ao seu ver, representativos do que porventura haja, de literatura, no sentido mais restrito da expressão, numa atividade, já longa, de escritor possìvelmente literária em alguns dos seus ensaios.
Representa assim, esta iniciativa, uma reação de crítico-um dos mais lúcidos, dentre os que se vêm especializando nesse gênero, da nova geração de escritores brasileiros-à intransigência com que mestres já antigos-um dêles, Tristão de Ataíde-vinham excluindo, da Literatura pròpriamente literária, os mesmos ensaios.
São trabalhos de épocas diversas. O ensaio sôbre Augusto dos Anjos foi escrito em inglês e em Oxford; e apareceu numa revista literária de Boston em ano remotíssimo: 1924. As notas sôbre pintura no Nordeste são de 1925. O ensaio acêrca de Amy Lowell inclui trechos de um trabalho, também escrito em inglês, aparecido num jornal dos Estados Unidos, quando o autor era ainda estudante da Universidade de Baylor. Vários dos outros ensaios são de todo inéditos. Alguns, porém, são retirados de trabalhos já publicados: de Aventura e Rotina e A Propósito de Frades, principalmente. A nota sôbre Joyce apareceu primeiro em jornal, depois em Artigos de Jornal-livro esgotado há anos. São também incluídos o prefácio a outro livro, há anos esgotado, Região e Tradição, o prefácio a O Romance Brasileiro, de Olívio Montenegro, o prefácio aos Ensaios de Crítica de Poesia, de Otávio de Freitas Júnior, o prefácio aos Poemas Negros, de Jorge de Lima, o prefácio ao ensaio de Temístocles Linhares sôbre o romance moderno.
Sai êste livro ao mesmo tempo que Talvez Poesia: coleção de possíveis poemas cuja apresentação sistemática se deve principalmente a um poeta que, ainda de meia-idade, está, desde muito jovem, entre os tempos: Mauro Mota. Mas não só a êsse poeta admirável : também aos igualmente admiráveis, e ainda mais jovens do que êle, Tiago de Melo e Lêdo Ivo. Os quais, com o seu ânimo de moços, muito concorreram para que aquêle livro se organizasse, tendo êles próprios espontâneamente contribuído com reduções a formas poemáticas de trechos de prosa de um autor a quem, segundo um dêles, "não é justo que se continue a negar, no Brasil, a condição de escritor literário em lingua portuguêsa".
São dois livros – êste e Talvez Poesia – que se completam, tanto como possíveis expressões, especìficamente literárias, um em prosa, outro, sob forma poemática, do mesmo escritor, como sob o aspecto de uma reivindicação que, aliás, pela vontade do escritor reivindicado, nunca se efetivaria. São, ambos, iniciativas de críticos literários, dentre os mais jovens do Brasil de hoje.
De modo que êste livro emerge-repita-se-quase à revelia do autor; e como iniciativa de jovens escritores e de jovens críticos literários brasileiros, em desacôrdo com alguns dos mais provectos dos seus mestres, em tôrno de um, para êles, escritor, com o direito – ainda segundo tais jovens – de ser assim considerado, de ponto de vista estritamente literário. Isto é, à parte de sua possível condição de cientista, completa pela de também possível pensador.
Se noutras línguas – como na mais literária de tôdas as línguas, pelo menos dentre as modernas do Ocidente, e que é a inglêsa-vem sendo possível a críticos idôneos e a censores severos reconhecer condições literárias em algumas das produções de homens sistemàticamente de ciência e de pensamento, julgam os jovens críticos literários brasileiros, responsáveis por êste livro, ser êsse um critério que pode e até deve ser seguido na língua portuguêsa, contra a orientação daqueles mestres, provectos porém demasiadamente ortodoxos no seu literatismo; e para os quais o fato de ser um indivíduo cientista ou pensador, não o exclui, quando escritor, com qualidades literárias, de admissão entre escritores especìficamente literárias.
O autor dêste livro talvez deva comportar-se, em face dessa divergência entre críticos do seu País, com relação aos seus trabalhos, um tanto como réu diante de magistrados; ou simplesmente considerar-se trívio-me-dìocremente trívio porém trívio – na sua condição de autor de livros, uns mais isto, outros mais aquilo, ainda outros, mais aquilo outro, quase outro, quase todos, porém, escritos sob um só ânimo: o de escritor. E alguns escritos quase exclusivamente sob êste ânimo: o literário, o de escritor ou de ensaísta literário, generosamente reconhecido tanto pelo organizador dêste livro como por outros críticos literários, brasileiros e estrangeiros.
A verdade é que muito se pode atualmente dizer acêrca das relações da Literatura, em particular, ou da Arte, em geral, com as Ciências. Vivemos numa época que é mais do que qualquer outra, das vividas ou atravessadas pelo Homem, uma época científica. O que é certo não só com relação às Ciências Físicas como com relação às Sociais. Especialmente as psicossociais: as que nos vêm abrindo caminho ao conhecimento das bases irracionais do saber racional ou lógico.
Daí a importância da psicologia gestaltiana, por exemplo, para a interpretação de obras de arte e de criações literárias: importância já acentuada pelo Professor Herbert J. Muller no seu Science and Criticism. é Muller quem observa de Zola e dos chamados movimentos "científicos" da época "realista" – entre nós, o caso de Aluísio Azevedo – que inconscientemente se ligaram, pelos seus métodos de observação e de análise, à Física Clássica, hoje obsoleta, enquanto Conrad, Proust, Lawrence, Gide, Virgínia Woolf, seguiram na sua literatura ou na sua arte perspectivas que se harmonizam com as gestaltianas. Daí aquêles romancistas "realistas" se terem extremado no que Proust chamou uma vez, desdenhosamente, de "anotação ordenada de linhas e superfícies", enquanto os Impressionistas, ao modo gestaltiano de Virgínia Woolf e do próprio Proust, os Imagistas, os Expressionistas, vêm interpretando o Homem e suas situações ou experiências, através de particulares desordenados ou dos "quanta" descontínuos dessas experiências; mas dando a êsse desordenado expressão gestaltiana.
Dentro do critério gestaltiano, não são apenas os diferentes gêneros de Arte que precisem de ser aceitos em suas inter-relações: inclusive as sensações de côr associadas por Rimbaud às sensações de forma das vogais. Não são apenas os diferentes sentidos do Homem que se inter-relacionam, tornando difícil separar de modo absoluto uma arte da outra: também as relações dêsses sentidos com quanto seja suscetível de experiência pelo Homem. Daí não haver, para os mais modernos filósofos e sociólogos da Arte, separação absoluta entre conteúdo e forma: nem entre homem e estilo. Pois o homem se revelaria não só no que faz e no diz – ou na substância do que faz do que diz ou do que escreve – como na sua forma de fazer ou de dizer ou de escrever.
Sendo assim, compreende-se que um obra de filósofo ou de cientista possa ser uma obra também de Arte ou de Literatura. é o que acontece quando a imaginação que Mary Column, em notável ensaio sôbre Where We Are, chama de sensuous-palavra a que falta um exato equivalente na língua portuguêsa – entra numa maneira, ainda segundo Mary Column, "orgânica", nessa espécie de criação, como numa obra de Filosofia de Schopenhauer ou de Nietzsche; ou como numa obra de História de Gibbon; ou –acrescente-se a Mary Column – como numa obra crítica estética-não de todo separada da social ou psicossocial-de Sainte-Beuve ou de Walter Pater ou de Remy de Gourmont; ou, ainda, numa obra de Antropologia das dimensões humanísticas e das sugestões estéticas, além das científicas, da de Frazer: um Frazer que escreveu seus livros com um estilo que não se confude com o dos antropólogos apenas científicos. O que é certo também de Havelock Ellis.
Compreende-se também o fato de escritores da grandeza estética de Proust e de Joyce, de D.H. Lawrence, de Gide, de Kafka, deverem muito de sua grandeza total-coroada pela estética- ao que absorveram da filosofia de um Bergson ou da ciência de um Freud. O caso de Proust e o caso de Joyce que desenvolveram métodos de evocação literária e de revelação artística do que aprenderam, direta ou indiretamente, de uma filosofia de tempo e de um técnica de monólogo interior, desenvolvidas por uma filosofia e por ciência de que sua literatura se aproveitou sem resvalar em qualquer espécie de cientificismo ou de filosofismo. Cientificismo em que Zola se extremou precisamente pela sua pobreza de qualidades estéticas ou de virtudes literárias.
Na literatura mais recente do Brasil vem ocorrendo considerável absorção, se não direta, indireta, de Ciência por escritores. José Lins do Rêgo chegou a se interessar, em certa fase do seu desenvolvimento num dos maiores romancistas brasileiros da língua portuguêsa, em estudos antropológicos de folclore. De Guimarães Rosa há quem pense que vem se especializando e estudos científicos de Lingüística associados aos de Sociologia. Jorge de Lima, êste não repudiou nunca a sua formação médica: na sua maneira de ser intérprete literário da realidade brasileira transparece por vêzes o analista científico do homem nacional. Nenhum dêles, porém, resvalou em cientificismo. Nunca a literatura brasileira atravessou uma fase de criação mais puramente literária, a despeito do que, nessa criação, vem sendo componente absorvido de saber científico, direta ou indiretamente, em tôrno dos temas versados pelos autores.
Esta é precisamente a condição ideal para o desenvolvimento de uma moderna literatura. E dentro dessa condição é que é possível o avigoramento, entre nós, de um tipo de ensaio que sendo principalmente literatura em sua forma, não deixe de Ter relações com o que seja um pensamento brasileiro; ou uma ciência voltada para problemas especìficamente brasileiros.
Certo êste critério, enganam-se os críticos que supõem dos analistas do Homem que lidam com fatos relativos ao comportamento ou ao passado humano, de ponto de vista específico-a História, a Antropologia, a Psicologia-e com relação a áreas ou épocas também específicas-a Grécia clássica, por exemplo, a Itália da Renascença, a Nova Inglaterra no século XIX, a Indonésia atual – serem, todos êles, tão-sòmente especialistas nisto ou naquilo. Especialistas preocupados apenas com determinada série de fatos, dentro de também determinadas fronteiras de tempo e de espaço; e, como tais, indignos da atenção dos críticos literários, por um lado, ou dos de idéias gerais, por outro.
São numerosas as exceções a tal espécie de especialismo. Vários analistas do Homem situado se têm impôsto à tentação dos melhores críticos literários e de idéias : Nietzsche, desde os seus estudos sôbre a tragédia grega; Weber, com os seus tipos-ideais derivados de estudos de situações concretas do Homem histórico-estudos em que o gênio do sociólogo é completado pelas virtudes do escritor; Frazer, Havelock Ellis e, mais recentemente, Lawrence da Arábia, com estudos antropológicos que são também obras-primas da literatura inglêsa, como já eram, aliás, as de Pater, o scholar castiçamente universitário de Oxford e as de George Barrow, o inglês-cigano que nos deixou páginas imortais sôbre espanhóis e sôbre ciganos.
Como se destacaram êles-o caso também de um Lulio, de um Luís Vives, de um Montaigne, de um Vico, de um Gracián, de um Fernão Mendes Pinto, de um Ganivet, de um Michelet, de um Taine, de um Darwin, de um Newman, de um Jung-dos simples especialistas para se tornarem notáveis pelas virtudes literárias de suas obras, nem de poesia convencional nem de ficção, nem sequer de belas-letras ostensivamente estéticas ? Precisamente pela potência ou pela qualidade estética, nem sempre ostensiva, mas nem por isto menos vigorosa ou menos valiosa, das suas formas de expressão, por um lado, e das formas simbólicas a que conseguiram, ou procuraram, elevar os fatos em si, sôbre as suas relações entre si, sôbre as suas relações entre si ou com os outros fatos e com valores já estabelecidos entre a maioria dos homens ou, pelo menos, das civilizações. O que apresentaram através configurações, imagens, símbolos derivados dos mesmos fatos: de relações de uns fatos com os outros; ou do Homem com certo tipo ignorado de fatos-relações que foram êles, especialistas com alguma coisa de generalistas, os primeiros a surpreender.
A fôrça da Arte-inclusive da Literatura – está em que, ainda mais do que a Filosofia, é capaz de dar expressão a aspectos da experiência humana que escapam às explicações de físicos, de bioquímicos, de matemáticos e de biólogos, dos economistas e dos sociólogos puramente científicos. São explicações, estas, que não atingem aquêles aspectos subjetivos do mundo de "shape and color, fruit and flower, dream anda song" a que se refere Herbert J. Muller no seu já citado Science and Criticism: um mundo de particulares, que formam, entretanto, uma realidade compósita; a qual só pode ser apreendida gestaltianamente. O que é diferente de ser uma realidade suscetível de ser explicada em têrmos abstratos, desprezada nela a irredutível substância diretamente vivida pelo homem.
Experiência que, segundo pensadores dos maiores dentre não só precursores do Existencialismo como representantes da tradição pascaliana, não pode ser de todo substituída por puras e necessárias abstrações. Pois são abstrações de função apenas instrumental e de valor sòmente arbitrário.
É uma experiência que só a Filosofia consegue, até certo ponto, sondar; que só a Arte pode, na verdade, procurar, se não sempre exprimir, sugerir. Isto principalmente : sugerir, embora intensificando a experiência captada, numas zonas; acentuando-lhe, noutras, os significados através de símbolos, por meio de côres e de formas; e tornando-a mais duradoura; ou mais sensível; ou mais visível; ou mais apreciável através daquelas formas que Sir D’Arcy Thompson mostra em Growth and Form coexistirem no mundo inorgânico, no orgânico e no de arte, aproximando assim a Estética de uma "ciência da forma".
Podemos concordar com aquêles modernos estudiosos de Arte ou de Literatura- de Literatura, em particular-para os quais há sugestões poéticas que dizem mais, através do que nelas é intensificação de símbolos, sôbre uma realidade, que explicações científicas. Tais símbolos são, vários dêles, tomados, pelo escritor literário, da linguagem popular. Do folclore. Da tradição religiosa. Por meio dêles, escritores como Chaucer, como Shalespeare, como Cervantes, como Goethe, como, na língua portuguêsa, Fernão Lopes Neto, têm conseguido fixar "qualidades de experiência" numa linguagem antes popular do que acadêmica. Dessa linguagem pensam alguns críticos, especializados em Semântica, exceder por vêzes a erudita e lógica em exatidão e eficiência; e nela é que puras abstrações se tornam, quando assimiladas por escritor de gênio, expressões ou sugestões de experiência concreta, imediata, sensual até, de um indivíduo aparentemente só—na verdade múltiplo-ou de um grupo com que o escritor se identifique profundamente: por empatia.
Essa identificação não se realiza em têrmos, além de psicológicos, poéticos, apenas através de formas poemáticas; ou de convenções novelescas ou dramatúrgicas de expressão literária. Também através do ensaio. Do ensaio livremente literário ou com alguma coisa de filosófico como o de Pascal, o de Seift, o de Lamb, o de Nietzsche, o de Pater, o de Ganivet, o de Montaigne, o de Unamuno. Do ensaio biográfico, como o de Sainte-Beuve ou o de Strachey. Do ensaio histórico como o de Gibbon, o de Michalet, o de Trevelyan, e, entre nós, o de Joaquim Nabuco, o de Euclydes ou o do Machado do O Velho Senado. A tendência para considerar-se o romance a expressão literária por excelência do Ocidente civilizado é tão nova que tem alguma coisa de arrivismo. Arrivismo triunfante mas arrivismo. Lawrence da Arába-ensaísata-não é menos criador literário do que o outro Lawrence: o romancista. Nem o Pompéia, d’O Ateneu é menos poético que Casimiro de Abreu. Nem as páginas de Nabuco sôbre Maçangana contêm menos poesia do que o Minha terra tem palmeiras de Gonçalves Dias. Ao contrário: mais. Mais poesia, mais literatura, mais verdade, mais beleza. E também mais Brasil. Mais forma e mais côr do Brasil.
Raro é, aliás, o artista ou o escritor para quem não exista a sugestão de uma região ou de uma província, em particular- de ordinário a do seu tempo de menino – presente de modo nem sempre ostensivo, às vêzes até sutil, nas formas ou nas côres mais características da sua expressão. A certa altura do seu desenvolvimento no mais arrojado dos grandes pintores modernos, Picasso poderia Ter dito: "A Espanha não existe", querendo dizer que para êle ou para a sua arte não existiam influências ou resíduos especìficamente espanhóis que as condicionassem nem sentido antes regional, de vida, que nacional, de convenção. Mas seriam palavras que exprimiriam a pura convicção de um indivíduo; e não a realidade da formação de um artista e da sua personalidade de criador. Joyce pode Ter chegado a exprimir-se num inglês quase de todo recriado por êle. Mas sem que nesse inglês deixasse de haver Dublin, a Irlanda, o Catolicismo latino do irlandês. Todo um mundo de formas e de côres –de sugestões de formas e de côres-ao mesmo tempo particulares e gerais. Regionais e universais.
"Forma" e "côr", em suas relações com a Vida ou com o Homem, sabemos terem sido temas com os quais muito se preocupou o gênio investigador de Goethe, por alguns considerado o criador de tôda uma ciência especial, a Morfologia, dedicada ao estudo das inter-relações entre forma e crescimento. Hoje, porém, já se admite uma ciência mais ampla que a desenvolvida por Goethe e que é a moderna Ciência da Forma, exposta de maneira magistral por Sir D’Arcy Thompson no seu já referido Growth and Form.
Para Mr. Herbert Read-um dos maiores críticos de Arte dos nossos dias –as teorias que, através de expressões principalmente matemáticas, Sir D’Arcy Thompson desenvolve em seu ensaio, têm êste interêsse imenso para os estudos das formas nas Artes: de indicarem serem idênticas as leis que regulam seu desenvolvimento no mundo orgânico, no inorgânico e no das Artes. Mesmo assim, as formas em Arte não apareceriam independentes de imaginação: de um ato inicial de imaginação criadora.
Mas êsse ato inicial de imaginação não importaria em previsão absoluta da forma a decorrer dêle. Uma vez iniciada, a forma de arte inacadêmica, viva, se desenvolveria como as formas se desenvolvem no mundo orgânico: vital e orgânicamente. Daí a fraqueza daquelas formas de arte acadêmica que são formas de todo previstas pelo escultor ou pelo pintor ou pelo escritor que acadêmicamente as desenvolve : são formas sem vida. Daí a fôrça de formas de Arte-inclusive de Literatura-em que o criador e a criação se interpenetram como fôrças de vida- Vida e Arte-às vêzes através de violentas incorreções, do ponto de vista da ordem ou da elegância acadêmica. Daí, também, o vigor de expressão artística que á no aparente descontínuo de formas de um Proust em contraste com a fraqueza de obras compostas dentro do absoluto contínuo de formas: o recomendado pelos Boileau. Contínuo, ordem, lógica que antes de desprezados por Proust e por Joyce, foram superados por Yeats.
Uma das recordações do meu tempo de estudante que mais me alegram a memória é a de William Butler Yeats. A impressão que me deu o irlandês foi bem a de quem fizesse passar "swans upon the waves of time" fazendo-se obedecer tanto por uns como por outros: tanto pelas formas de vida por êle postas em movimento como pelas "ondas de tempo" por êle surpreendidas também em movimento. De Yeats recebi a sugestão de que Arte, tal como êle sentia que devia ser a da Irlanda moderna, era de sagas e até de supertições da gente do povo que precisava nutrir-se; de infância; de memória; de tradição; de tempo indiferenciado em seus aspectos de passado, presente, futuro. Quase a mesma sugestão de Herder aos jovens alemães que receberiam sua influência de criador de criadores- um dos quais, o próprio Goethe.
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Foi com irlandeses como Yeats, Column, Joyce – dois dos quais tive a ventura de conhecer pessoalmente, sendo eu ainda estudante- que principalmente aprendi a preferir, em Literatura, a sugestão ágil, evocativa, empática à descrição lenta, retrospectiva, impessoal. Com êles e com os Impressionistas franceses. Com êles e com os Expressionistas alemães, cujo teatro encantou-me de tal modo que depois de vê-lo, em Berlim, perdi quase de todo o gôsto pelo outro: o convencionalmente realista e descritivo. Com êles e, dentro das literaturas ibéricas, com Ramon Lulio e com Gil Vicente e com Fernão Lopes e Fernão Mendes Pinto.
Já mais de uma vez referi o fato de Ter sido talvez o único brasileiro da minha época de estudante universitário que estudou o Anglo-Saxão anterior a Chaucer, ganhando, nesse estudo, um sentido de ritmo literário semelhante ao que adquirira no estudo do Grego; e contrário ao exclusivamente latino. Foram aquisições que bem ou mal se integraram no meu modo literário de ser, juntamente com aquelas influências espanholas e portuguêsas também raras na formação de brasileiro de então; e com as de franceses como Villon, Pascal, Montaigne, Rabelais, Molière, Baudelaire, Michelet, Gautier, Rémy de Gourmont, Mallarmé, Laforgue, então menos lidos no Brasil do que Corneille, Racine, Vítor Hugo, Chateaubriand, Taine, Renan, Anatole.
Tal integração, se é que houve, se processou principalmente através do que o Imagismo me ofereceu, mais através de Yeats do que de Gautier, mais através de Amy Lowell do que de Ezra Pound, de sugestões no sentido de uma disciplinação da sensualidade das palavras pela subordinação da simples sensualidade das palavras verbal à visualidade das imagens e dos símbolos comunicados às palavras; pela subordinação, também, do sentido apenas sonoro das palavras, a um sentido rítmico; e êste às vêzes capaz de ser interrompido por arritmias necessárias ao vigor de expressão; capaz, por conseguinte, de agastar-se, para ser rítmico sem ser convencionalmente sonoro, e, em certos casos, para ser rítmico, da pontuação convencional.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962. 396p.
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