O BRASIL EM FACE DAS ÁFRICAS NEGRAS E MESTIÇAS
Aspectos Gerais de um Processo
Conferência proferida no Gabinete Português de Leitura do Rio de
Janeiro a 10 de junho de 1962, a convite da Federação das Associações Portuguesas do
Brasil
Foi com emoção que entrei hoje, pela mão dos
ilustres directores da Federação das Associações Portuguesas do Brasil, nesta casa já
histórica. Com emoção acabo de ouvir as palavras de Leonardo Jorge Pessoa Lopes -
tão animadas de inteligência quanto impregnadas de sensibilidade ao momento, também
histórico, que vivemos, portugueses e brasileiros. Com emoção ocupo, agora, e
igualmente sob a impressão de momento tão dramático, esta tribuna abrilhantada, no
decorrer já de longos anos, pela eloquência de alguns dos maiores homens públicos e
pelo saber de alguns dos maiores homens de letras de Portugal e do Brasil.
Constato a presença, nesta solenidade, no meio
de tantos portugueses e de tantos brasileiros que não sabem separar os destinos do Brasil
dos de Portugal, de destacados representantes da cultura brasileira e da inteligência
portuguesa, alguns deles líderes dos mais altos da diplomacia, da política, da
administração, do magistério, do jornalismo, das ciências, das letras, das artes, nos
dois países. Meus agradecimentos a quantos, pela sua presença, participam este ano, no
Rio de Janeiro, da comemoração do Dia de Camões, vindo ouvir a palavra de quem, adepto
da "vária cor" camoneana, tanto se opõe à mística da "negritude"
como ao mito da "bronquitude": dois extremos sectários que encontrariam a já
brasileiríssima prática da democracia racial através da mestiçagem: uma prática que
nos impõe deveres de particular solidariedade com outros povos mestiços. Sobretudo com
os do Oriente e os da Áfricas Portuguesas. Principalmente com os das Áfricas negras e
mestiças marcadas pela presença lusitana.
É, porém, uma voz como a minha que deve ser
ouvida pelos brasileiros e pelos portugueses que hoje aqui se reúnem para a comemoração
de mais um 10 de junho? É uma palavra como a minha que, num dia como o de hoje, deve ser
escutada, em ano tão inquieto como o de 1962, pelos brasileiros que mais fraternalmente
se preocupam com Portugal e pelos portugueses que, residentes no Brasil ou em Portugal,
nas Áfricas ou no Oriente, já sentem hoje doer-lhe Portugal tanto quanto a Espanha,
sangrando das terras arrancadas ao seu domínio ainda materno por um poder em rápida
ascensão imperial, doía a espanhóis do fim do século XIX.
Tenho dúvidas. A voz reclamada pelas
circunstâncias excepcionais em que vivemos, brasileiros e portugueses, talvez seja, como
em nenhum outro ano, a de um orador eloquente. Eloquente, profético, apocalítico. A
palavra exigida pelo momento talvez seja, como em nenhum outro 10 de junho, a de um
brasileiro que ao sentimento lusitano juntasse aquela eloquência em que o verbo se faz,
em vez de carne, com no Novo Testamento, fogo, como no Velho.
Não vos trago eloquência nem retórica. Nem a
minha voz é a dos oradores que exaltando veementemente as glórias e salientando
brilhantemente as virtudes de um povo, procuram deixar na sombra os por si mesmos já
sombrios e ásperos problemas desse povo. Venho-vos falar de problemas. Examinar dois ou
três deles com franqueza. Considerá-los criticamente em alguns de seus aspectos. Talvez
nessas críticas cometer inconveniências. Mas tal é o meu amor a Portugal, tão igual ao
meu amor ao Brasil, tão desinteressado de recompensas, tão desdenhoso de
condecorações, tão indiferente a agradecimentos oficiais ou consagrações académicas,
que me dá talvez o direito, além de me impor o dever, de dizer a portugueses, numa
solenidade como esta, inconveniências iguais às que tenho dito em circunstâncias
semelhantes a brasileiros. Dos brasileiros não preciso hoje nem precisarei nunca que me
agradecessem com ministérios, com embaixadas, com medalhas oficiais, com prémios
académicos, os possíveis serviços que se venho prestando ao Brasil é pelo puro facto
de ser um escritor independente, nunca um literato acomodado a instituições ou a
empresas; ou um intelectual subserviente a ricos ou a políticos, a partidos ou a seitas
ideológicas. Nunca um escritor que, ao aceitar convites de governos ou de instituições,
se possa murmurar dele que é dos que transigem com governos e instituições mediante
agrados de qualquer espécie. Daí o facto de, pouco depois de ter visitado as províncias
portuguesas do Oriente e da África, a convite do governo português, haver recebido
convite semelhante da União Soviética; e mais recentemente, convite da República
Popular da China para visitar suas terras e conhecer suas gentes.
Ao sentimento lusitano nunca, em tempo algum
deixei de juntar o ânimo honestamente crítico em face do comportamento mais
caracteristicamente português. Português e brasileiro. Somos - sou dos que mais o
proclamam - sociològicamente uma só realidade: portugueses e brasileiros. Venho
insistindo há anos neste ponto. Quem em termos sociológicos toca no Brasil, toca em
Portugal; quem nos mesmos termos, toca no que é português, toca no que é brasileiro.
Ferida portuguesa é dor brasileira. São, há mais de um século, o Brasil e Portugal,
dois Estados, é certo. São hoje dois regimens políticos antagônicos, é verdade. São
agora duas nações separadas - demasiadamente separadas - é facto. Os caminhos
políticos de uma não são actualmente os da outra. Nem os caminhos nem os desígnios;
nem os métodos de acção nem a sistemática de convivência especificamente política.
Não cabe, assim, ao brasileiro ser, em Portugal,
isto ou aquilo em termos especificamente políticos e especificamente
nacionais. Ser isto ou ser aquilo, nesses termos, e agir em função de tais
convicções, é exclusividade portuguesa. Até lá não se compreende que chegue a
solidariedade que nos prenda a portugueses. Nem se compreenderia que portugueses, enquanto
nacional e politicamente portugueses e só portugueses, agissem no Brasil, tornando-se isto
ou aquilo em política especificamente nacional, e por conseguinte, peculiar aos
brasileiros. O comportamento de portugueses só portugueses que aqui agissem, nesse plano,
como se fossem brasileiros, se tornaria, no actual estado de relações políticas entre
os dois Estados, o de intrusos. Da minha parte, durante anos já longos de íntimo
contacto com Portugal, tenho evitado sempre ser intruso na sua política especificamente
portuguesa, por aí se explicando ter tantos amigos entre gente das oposições como entre
gente do governo. Os que me agridem em Portugal, agridem-me no mesmo tom dos que me
agridem no Brasil e me agridem por vezes - nem sempre - em Moscou, em Paris, nos Estados
Unidos. São os que não se conformam com uma interpretação do passado social do Brasil
e das constantes do comportamento ibérico, em geral, e português, em particular, em
terras quentes, e com uma análise de problemas da actualidade não só brasileira como do
mundo euro-tropical, que deixe em crua evidência mistificações sòmente úteis aos ismos
especializados em fabricá-las e em propagá-las, tantas vezes servindo-se para essa
propagação da mais lamentável espécie de inocentes. Inocentes portugueses e inocentes
brasileiros, inocentes americanos dos Estados Unidos e inocentes americanos da América
Latina, inocentes franceses e inocentes ingleses.
A solidariedade que prende os brasileiros aos
portugueses, fazendo que grande parte dos problemas portugueses sejam preocupações
brasileiras, não é política no sentido restrito da palavra: é de outra espécie. Vai a
outra profundidade. Desce a raízes. Projecta-se apoliticamente sobre o futuro. Ela
decorre do facto de constituirmos um conjunto sociocultural que se caracteriza por
tradições, tendências e desígnios comuns a Portugal e aos grupos de descendentes e
continuadores de portugueses mais ou menos profundamente integrados em ambientes
tropicais, o Brasil sendo hoje o maior, o mais importante, o mais expressivo desses grupos
de origem e formação lusitanas.
Dai poderem tais grupos, em termos sociológicos,
ser considerados uma comunidade. Comunidade luso-brasileira, dizem uns, parecendo não
admitir nessa comunidade senão duas presenças nacionais: a de Portugal e a do Brasil.
Comunidade lusotropical, venho há anos sugerindo que se diga, admitindo que as presenças
nacionais passem das duas que são hoje às três ou às quatro que possam vir a ser,
brasileiramente, fraternalmente, josebonifàciamente, amanhã. Mas considerando sempre que
essas presenças, condicionadas de modo decisivo pela sua condição de exprimirem senão
em todos os casos, simbioses, interpenetrações, mais ou menos completas - simbioses e
interpenetrações lusotropicais mais ou menos profundas - correspondem a uma situação
generalizada que sociològicamente deixe caracterizar por sua lusotropicalidade: uma
situação que, da realidade socioecológica hoje característica da América, da África
e do Oriente tropicais colonizadas por portugueses, ou, principalmente, por portugueses,
se admitisse vir-se reflectindo de tal modo sobre o Portugal europeu que o Portugal
europeu, pelo reflexo de suas cada dia mais vigorosas ex-colónias sobre sua talvez já
sociològicamente extinta ou talvez já concluída missão de metrópole de feitio
clássico ou de estilo convencional, passasse a ser considerado membro sociològicamente
tropicalizado daquele conjunto. Porque Portugal sem deixar de ser europeu é, cada dia
mais, na Europa, pela população e pela cultura, uma expressão do trópico por ele
civilizado e cristianizado; mas que por sua vez o revitalizou e até o recriou com seus
sangues e com suas culturas: com suas culturas mais intuitivas do que racionalistas.
Atente-se de início no seguinte: não considero
aqui a matéria em termos políticos e sim em termos sociológicos. É ponto que insisto
em deixar claro. Em termos políticos é possível dar-se outra interpretação à
actualidade de relações entre os mesmos sociológicos do conjunto também sociológico
que se denomine lusotropical. Admito que se possa oferecer de tais relações essa outra
interpretação, em plano puramente político. Repito, porém, não ser o aspecto
político da matéria o que procuro aqui, e o que venho procurando em vários trabalhos,
considerar; e sim o sociológico ou o socioecológico. Sim o antropossocial ou o
sociocultural. Sim o que corresponde a relações de grupos e de culturas com espaços:
relações caracterizadas pelo seu sentido mais profundamente humano, existencial, social,
separado quanto possível do formalmente e transitòriamente político.
Considerando-se o assunto destes pontos de vista,
que traço principalmente caracteriza o que há de comum às sociedades e culturas que se
vêm desenvolvendo dentro de normas inicialmente portuguesas em áreas tropicais e que
dão a essas sociedades e a essas culturas condições de membros de uma só comunidade ou
de um só tipo de civilização? Não creio haver dúvida sobre este ponto: é a
tendência para a miscegenação, no plano biológico, com a língua portuguesa
tornando-se cada dia mais a língua de povos de várias cores e enriquecendo-se de
indianismos, africanismos, orientalismos, brasileirismos, tropicalismos que também lhe
dão, camoneanamente, várias cores, além de vários ritmos. Tendência, note-se bem;
admitindo-se, por conseguinte, desvios e deficiências que a perturbem como política
social que se considerasse sempre e sistemàticamente seguida naquelas áreas e entre
aquelas sociedades bi- ou pluri-raciais nas suas origens. Que a perturbem até de modo
ostensivo como sucede dentro dessa monstruosidade anti-portuguesa e anti-brasileira que é
na Angola actual e no que diz respeito a relações entre brancos e pretos, a terra
dominada pela sob outros aspectos admirável Companhia dos Diamantes; e onde os métodos
de coexistência de europeus com não-europeus, longe de ser os portugueses desenvolvidos
pelo Brasil, são os belgas que resultaram no Congo Belga.
É também a tendência para a interpenetração
de culturas, a europeia e as não-europeias, com a europeia preponderando, por
conveniência comum a europeus e não europeus, sobre as não-europeias, sem que essa
preponderância venha implicando em opressão sistemática das culturas não-europeias
pela europeia: ou - a não ser em casos excepcionais de perversão ou negação da
tendência - em exclusivo ou, quase exclusivo, domínio da cultura europeia como cultura,
imperialmente civilizadora sob a qual as não-europeias devessem desaparecer por
absolutamente inferiores à imperial.
Conheço de perto várias áreas africanas e
outras tantas asianas onde se vêm verificando contactos de europeus com não-europeus nos
trópicos. Vi até onde chegam os extremos de ódio entre homens de cor diferente. Os
extremos de miséria de uns e de esplendor de outros. Meninos, eu vi. Adultos, eu vi.
Velhos, eu vi. Vi até morrer-se de fome nas ruas de Bombaim. Vi brancos em hotéis de
luxo do Joahnesburgo dos quais me disseram ser brancos que não ousavam sair - nem ousam
hoje - do centro da sua cidade por temor aos negros que os cercam. Brancos
sociològicamente ilhéus cercados por todos os lados de ondas do negros enfurecidos.
Enquanto na ilha lusotropical de São Vicente vi todo um Palácio do Governo sem um só
soldado branco ou um só militar europeu a guardá-lo. Desguarnecido. Desprotegido.
Entregue à população docemente mestiça da ilha por excelência lusotropical que é
São Vicente.
Conheço algumas das áreas americanas em que
contactos do mesmo tipo - isto é, de europeus com não-europeus - vêm ocorrendo de
vários modos desde o século XVI. Vi o Peru: onde esse contacto produziu a admirável
pintura cusquenha, produziu o Inca Garcilazo, produziu o mulato agora Santo da Igreja
Martin Porres. Mas onde também há toda uma população ainda indígena tratada de resto
pela europeia e em crescente revolta contra Lima. Vi o Paraguai: o bravo Paraguai
hispanoguarani, vítima, no seu passado, de tanto governo estèrilmente ditatorial.
Conheço as Antilhas: um pouco das que foram inglesas e um tanto das que foram espanholas.
Sei o que sofrem índios e cholos no Equador e na Bolivia. O que sofriam camponeses
em Cuba de usineiros inumanos, alguns deles anglo-saxões, alvos barões de um açúcar
também alvo produzido com tanto sofrimento pelos mestiços e pelos negros daquela ilha,
outrora infeliz por essa espécie de exploração da sua gente mais humilde, agora infeliz
pela ameaça de tornar-se colónia do império russo-soviético; ameaçada, portanto, de
sofrer novas formas de exploração e de opressão. Sei, também, o que sofrem os negros e
negroides mais segregados do Sul dos Estados Unidos: o sofrimento dos desprezados por
serem não só pretos como mestiços de "vária cor".
Não me parece que a caracterização que há
anos sugiro, das áreas marcadas pela presença portuguesa - as áreas de uma população
em grande parte de "vária cor" - possa ser aplicada, com igual generalidade e
igual vigor às situações emicoculturais apresentadas por outras áreas onde se vêm
verificando contactos de europeus com não-europeus. Não se aplica decerto às áreas
marcadas pela colonização anglo-saxónica - tão cruamente desdenhosa, até há pouco,
das populações de cor; nem às áreas de colonização holandesa; nem às de
colonização inglesa; nem às de colonização belga; nem mesmo, considerando-se a
amplitude do ânimo melanistamente democrático dos portugueses, a todas as áreas de
colonização espanhola, embora de várias dessas áreas - da venezuelana, da paraguaia e
da cubana, por exempto - se possa afirmar que se apresentam, na América tropical, iguais
a área brasileira, quer nos aspectos biológicos, quer em alguns dos sociológicos, do
seu desenvolvimento em áreas de populações em grande parte mestiças e de culturas em
grande parte mistas e até simbióticas.
Sendo assim, como se admitir como justa a
campanha que se vem fazendo nos últimos dois anos, metòdicamente, tècnicamente,
dispendiosamente, contra Portugal, em livros, em jornais e em revistas de vários países
- até em revistas como a excelente The New Leader, de Nova Iorque -
e com repercussão no próprio Brasil, sob a alegação de que as chamadas províncias de
Portugal no Oriente e na África são colónias do mesmo tipo das até há pouco colónias
inglesas, holandesas, francesas, belgas; ou das que restam a esses poderes europeus, hoje
impérios em dissolução, no Oriente, na África e na própria América? Como dizer-se
que nessas províncias se humilham populações de cor e se conservam suas culturas à
parte ou à distância, das europeias, com o mesmo rigor sistemático com que ingleses,
holandeses, belgas e mesmo franceses vinham praticando nos trópicos sua política como
que profilática de minorias europeias intransigentemente "superiores", em suas
atitudes e em seu procedimento, a maiorias de gentes de cor consideradas
"inferiores"? Ou separando, em escolas, negros e mestiços de negros, de
brancos, segundo práticas também em vigor não só em alguns dos Estados do Sul dos
Estados Unidos como até na União Soviética, onde os jovens de cor são internados na
chamada Universidade da Amizade destinada só, ou quase só, a esses estrangeiros de
"vária cor" ?
Pode-se criticar nos modernos portugueses, nas
suas relações de europeus com não-europeus, na África e no Timor, não só a
imitação, por vezes, da parte de alguns dos administradores menos genuinamente
portugueses, de subprovíncias e de empresas, de exemplos belgas e ingleses, como a
demasiada lentidão dos seus métodos de elevação - se é que os podemos chamar sempre
de elevação - dos nativos, à condição de civilizados. Em 1950 - observa em livro
recente um crítico extremamente severo desses métodos, o inglês Basil Davidson, a quem
devo aliás generosas citações de trabalho meu - apenas menos de um em cada grupo de cem
nativos da Angola se achava, por cálculo estatístico, na condição chamada de
"assimilado". Grande, portanto, era, ainda há doze anos, e deve continuar a ser
hoje, o número de africanos, na Angola, integrados em tribos; ou destribalizados sem se
terem elevado à condição chamada até há pouco, ao meu ver ineptamente, de
"assimilados", essencial à cidadania portuguesa.
Não nos espantemos, porém, demasiadamente, os
brasileiros, com essa situação que sou o primeiro a lamentar vir-se prolongando nas
África portuguesas além de limites razoáveis. Não nos espantemos demasiado porque
também entre nós, brasileiros, um número não de todo desprezível de indígenas se
conservam em tribos com as quais os contactos dos chamados civilizados se vêm processando
de modo quase sempre desvantajoso para a saúde física e para a saúde moral desses
primitivos. Sem que se venha desenvolvendo e aperfeiçoando neste particular a obra de
assistência aos indígenas iniciada, já na República, pelo grande Rondon, como
organizador de um Serviço Nacional de Protecção aos índios que teve por algum tempo, a
seu serviço, um antropólogo-sociólogo do porte de Roquette Pinto.
Por outro lado, sabemos ser também
considerável, entre nós, o número de brasileiros que não vêm sendo preparados para a
cidadania: para o status de cidadão do qual tantos se conservam ainda distantes ou
à margem. Pois que são muitos dos caboclos brasileiros sendo descendentes de
ameríndios, puros ou mestiços, em prolongada situação de destribalização? Que são,
senão destribalizados em estado ainda um tanto cru, muitos dos cabras brasileiros
descendentes de pretos africanos? Que direito, então, nos cabe, a nós que ainda temos a
Amazónia, o Mato Grosso, o Nordeste, de atirar pedras aos portugueses pelas suas na
verdade lamentáveis deficiências, neste particular, entre populações angolanas, grande
parte das quais conservam-se ainda incapazes de cumprir deveres e de desfrutar direitos de
cidadãos de uma república politicamente moderna?
Do que, porém, não se apercebem certos
estrangeiros que criticam hoje, com excesso de melindres democráticos, os portugueses,
com relação à África, e poderiam criticar, com igual ânimo, os brasileiros, com
relação a numerosos rústicos que são sociològicamente brasileiros sem o serem também
civicamente, é que entre os angolanos ainda aquém da condição de cidadãos, são
numerosos os indivíduos já integrados no status, ou aproximados do status
sociológico, de portugueses. O que se deve - como venho procurando sugerir em, vários
dos meus trabalhos - ao, sistema patriarcal que tendo sido o principal factor da
formação brasileira, também concorreu em Angola e em Moçambique para o desenvolvimento
social de várias de suas populações tribais, étnica e culturalmente heterogéneas, em
sociedades pré-nacionais e até quase nacionais; para o desenvolvimento de
destribalizados em lusotropicais sociològicamente intitulados "portugueses".
Portugueses tão sòmente. A verdade, de que não
se apercebem certos observadores estrangeiros mais superficiais, é que entre portugueses
e entre brasileiros, quem diz português e quem diz brasileiro, referindo-se
a indivíduo ainda rústico vindo de cultura primitiva para a civilizadora e dominante,
diz na realidade português ou brasileiro: mesmo quando esse indivíduo, por não saber
ler nem escrever, não se acha ainda integrado no status, às vezes puramente
decorativo, de cidadão. É o caso do caboclo brasileiro. Tem sido também o caso, no
Brasil, do negro, filho de escravo e afilhado e, posteriormente, compadre, de branco:
branco em cuja família tantas vezes se processou, através do sistema patriarcal de
convivência, o abrasileiramento ou o aportuguesamento, dentro da cristianização, do
negro ainda criança e até do já adulto. Processo quase sempre lento. Contou-me certa
vez Octávio Mangabeira que, em suas excursões cívicas pelo interior da Baía, ainda
encontrou caboclos que lhe perguntavam como ia o Imperador Pedro II. Eram gente
civicamente fora de portas e politicamente fora de época, embora sociològicamente já,
há anos, brasileira. Abrasileirada lentamente por estilos patriarcais de convivência.
Compreendeu-o, lendo, talvez, estudos brasileiros
em que o carácter predominantemente patriarcal, dos métodos portugueses, quando
castiços, de colonização, vem sendo destacado nos seus aspectos positivos e à base do
estudo e da análise de factos sociològicamente expressivos, lúcido observador europeu -
Herwig Weber - que há pouco visitou a Angola e Moçambique com olhos mais atentos à
realidade do que os dos jornalistas do tipo infelizmente mais comum. Encontrou ele
significativo exemplo do carácter das relações de ordinário dominantes entre europeus
e não-europeus em Moçambique - como outrora no Brasil - em "l'attitude d'un noir
employé dans une firme et qui parlant de la famille blanche pour laquelle il travaillait,
s'exprimait toujours et de la façon la plus naturelle à la première personne du
pluriel". Registrou-o em artigo na Frankfurter Allgemeisse Zeitung,
de 8 de Fevereiro de 1962, que vem repercutindo na imprensa europeia mais idônea de
língua francesa.
Não são poucos os africanos, em processo de
destribalização, que na Angola tanto quanto em Moçambique vêm passando da situação
perigosa de destribalizados à de membros de um para eles novo sistema de convivência,
através da sua condição de afilhados de famílias portuguesas ainda patriarcalmente
organizadas. O prolongamento, por conseguinte, do mesmo sistema patriarcal de integração
de nativos em uma cultura sociològicamente cristã, - admito que sistema crescentemente
arcaico, a exigir sua substituição por formas sindicais de organização capazes de
realizar a desejada integração de "nativos" em africanos modernos - que
permitiu ao Brasil fazer de tantos ameríndios arrancados às matas e de tantos negros
vindos, como escravos, das Áfricas, brasileiríssimos brasileiros criados na convivência
familial dos seus senhores, mais padrinhos, em vários casos, do que senhores desses
filhos sociológicos. É certo que numerosas vezes essa integração de carácter
familial, patriarcal, sociològicamente cristão, se fez, no Brasil, e se vem fazendo em
várias partes - não em todas, admito - da África Portuguesa, por meio de castigos
físicos impostos aos recém-vindos de culturas primitivas, para melhor consolidação do
seu aprendizado de uma nova cultura. Mas lembremo-nos de que nos sistemas ortodoxamente
patriarcais tais castigos físicos se estendiam - e até certo ponto ainda se estendem -
no Brasil e em Portugal, aos filhos, sendo raro o brasileiro ou o português de formação
castiçamente patriarcal que tenha crescido sem ter experimentado a acção da palmatória
ou da vara ou da chibata disciplinadora empunhada por pai ou por mãe. Os cidadãos dos
Estados Unidos, ao contrário dos súbditos de Sua Majestade Britânica, desconhecem esse
gênero de disciplina familial e pedagógica e escandalizam-se com o facto de haver ainda
povos com pretensões a civilizados que o praticam, com relação, quer a filhos
biológicos, quer a filhos sociológicos. A verdade, porém, é que talvez faça falta à
sob tantos aspectos exemplar civilização dos Estados Unidos um pouco de rigor
disciplinar nos modos por que os pais tratam os filhos e, nas escolas primárias, os
mestres os alunos. Daí, talvez, tantos americanos dos Estados Unidos se tornarem adultos
psicossocialmente instáveis, desajustados e até transviados. O excesso oposto vem, é
certo, prevalecendo, de modo às vezes lastimável, em áreas como a Angola, como
Portugal, como a Espanha. Mas, em períodos de transição como o que o mundo atravessa em
várias regiões, compreendem-se que se prolonguem certos arcaísmos até que possam ser
vantajosamente substituídos por novos estilos de convivência; e não por aventurosas
modernices.
Certa vez fui recebido com a melhor das
hospitalidades pelo já velho patriarca de uma pequena fazenda do interior da Angola que
me informou, dando sinais de estar profundamente triste, ter a mão direita um tanto
intumescida: precisara na manhã daquele dia, disciplinar um jovem servo africano seu
afilhado. Disse-me o nome do jovem algum António ou Manuel - pois o português ou o
descendente ou continuador de português patriarcal, na África ou no Oriente, não trata
nunca um nativo, simples e impessoalmente, como boy, à maneira dos ingleses e de
outros europeus; e sim, afectuosamente, cristãmente, pelo nome de cada um. Imaginei o
assombro de um dos meus colegas de universidade dos Estados Unidos - o professor Melville
Herskovits, africanologista ilustre, por exemplo - em face de uma confissão daquela
espécie: a de um português branco da Angola que não hesitava em informar a um estranho
ter castigado com vigorosos golpes um dos seus jovens servos africanos. Eu, porém,
lembrei-me imediatamente dos meus dias de menino: dos castigos físicos que eu próprio
recebera de um pai patriarcal às vezes severo com os filhos; dos castigos que vi serem
aplicados pelos mais velhos da casa ao jovem Severino, preto afilhado de minha Mãe e
companheiro de brinquedos do meu irmão mais velho. Patriarcalismo. Familismo. Educação
de filhos e de afilhados por um método - o patriarcal cristão, português e até há
pouco, brasileiro - difícil de ser compreendido por aqueles liberais dos Estados Unidos
mais impregnados de modernices pedagógicas ninguém sabe ao certo hoje se de facto
psicológica e sociològicamente tão válidas como pareceram nos seus primeiros tempos:
antes do aumento de 1000 por 100 de delinquência juvenil nos países mais atingidos por
tais modernices como os mesmos Estados Unidos da América.
Não nos esqueçamos de que a modernice difere da
modernidade em ser quase sempre precária em seu modo radical de ser nova. Donde vermos
às vezes a gente mais jovem reagir contra as modernices da simplesmente jovem, porém
dominante, recorrendo, para sua revolta de jovens mal saídos da adolescência contra os
pais, ao que lhe parece a sabedoria de antepassados tidos pela geração simplesmente
jovem, isto é, a dos pais, por arcaica; e reabilitada, em mais de um caso, pelos mais
jovens, desencantados com as modernices que lhes foram impostas como messiânicas pelos
simplesmente jovens, isto é, pelos pais. Não estou a justificar arcaísmos. Apenas a
repelir a substituição radical de quanto seja uso antigo pela pura modernice, várias
vezes, quando imposta de repente a uma população de ritmo lento de vida, perniciosa a
essa população e ao seu desenvolvimento. Não estou a fazer a apologia de qualquer
arcaísmo - no caso o arcaísmo patriarcal. De modo algum. Os arcaísmos devem ser
sepultados. Apenas estou sugerindo que nem toda a sabedoria dos velhos se torna
desprezìvelmente arcaica sob as modernices às vezes precárias inventadas ou adoptadas
por seus filhos; e contra as quais os netos tantas vezes se levantam, rectificando-as e
retomando, das lições vindas dos avós, sugestões das que constituem aquele
"passado utilizável" já identificado por um pragmatista não só moderno como
ianque como essencial ao desenvolvimento de qualquer nação.
O professor Horkcheimer, que é um dos
sociólogos europeus mais ilustres do nosso tempo, com estudos especializados sobre a
Sociologia da Família, é de opinião - conversou ele comigo, em Paris, toda uma tarde,
sobre o assunto - que tende a ser psicossocialmente desajustado o indivíduo a cuja
formação falte a presença de pais disciplinadores; ou que temam, ser rigorosamente
disciplinadores dos seus filhos pelo pavor de parecerem pais autoritàriamente
patriarcais. E ninguém ignora que em alguns dos modernos países intitulados
democráticos essa espécie de temor faz numerosos pais se comportarem quase como covardes
diante dos filhos mais anárquicos e mais rebeldes: covardia que se estende a numerosos
mestres em relação com alunos de estudos primários e secundários. Daí vários desses
adolescentes chegarem aos cursos superiores sem terem experimentado qualquer espécie de
disciplina em sua formação, vários deles só adquirindo consciência de necessitarem de
alguma ordenação no seu procedimento, de seus instrutores de serviço militar; ou -
paradoxalmente - de chefes Comunistas, quando se subordinam, a tais chefes - duros,
autoritários e exigentes - nas actividades de partidarismo político a que alguns jovens
se vêm entregando, ultimamente, no Brasil, quase sempre só por algum tempo, durante os
estudos universitários. Donde, paradoxalmente, poder concluir-se que os Comunistas, com
sua disciplina imitada da dos Jesuítas - hoje imitadores, vários deles, ninguém sabe ao
certo de quem - estão concorrendo, até certo ponto, para disciplinar jovens brasileiros
abandonados aos próprios caprichos por pais comodistas, por pedagogos comercializados e
até por padres desorientados.
Aos métodos patriarcais de integração de
gentes primitivas em sistemas de convivência sociològicamente cristã deve-se atribuir,
em grande parte, o facto de terem os portugueses, juntando ao autoritarismo necessário ao
sistema patriarcal de família a transbordante democracia da miscegenação, lançado as
bases de uma nação do porte, da importância e da extensão da brasileira - talvez a
maior, a mais autêntica, a mais completa das democracias raciais que o mundo já viu; e
de virem lançando as bases de possíveis nações lusotropicais que poderão, em futuro
próximo, tomar rumos semelhantes aos do moderno Brasil.
No momento difícil que Portugal atravessa tanto
na Europa como na África - tendo já sofrido brutal ultraje em Goa: uma Goa arrancada
violentamente, pelo semimperialismo indiano, ao domínio político de Lisboa mas não
desprendida ao sistema lusotropical de civilização cumpre aos brasileiros, sobretudo aos
brasileiros mais jovens, pensarem em Portugal e nas Áfricas acima do que Portugal e as
actuais relações políticas das Áfricas Portuguesas com Lisboa signifiquem como
expressões de um regime ou de uma sistemática apenas política. É sistemática que
repugna - ninguém o ignora - ao idealismo democrático de numerosos brasileiros; de
muitos dos intelectuais do Brasil; de grande parte da mocidade brasileira. Mas esse
repúdio, precisamos cuidar que não nos leve ao extremo de tornar-nos uma multidão de
inocentes, úteis a qualquer dos imperialismos que hoje pretendem substituir, na África,
os antigos; e na Europa ibérica, os regimes há anos em vigor, por ditadores "made
in Moscow".
O imperialismo russo-soviético é o mais
avassalador de todos os novos imperialismos que operam na África. O imperialismo - ou,
admita-se: contra-imperialismo dos Estados Unidos, o seu maior rival. O imperialismo
chinês é outro rival poderoso do da União Soviética na África. O semi-imperialismo
indiano, ainda outro, embora de menores possibilidades. Enquanto a União Sul-Africana
sonha em se opor a todos esses imperialismos, tornando-se ela própria um império de
dominadores brancos sobre populações mestiças e negras; e anexando a esse império,
junto com as Rodésias, Angola e Moçambique. Uma Angola e um Moçambique de brancos, de
negros e de mestiços; e quase todos - brancos, negros civilizados, mestiços - de olhos
voltados para o Brasil e de ouvidos abertos não só à música como à voz dos
brasileiros.
Dizia-me há dois anos, de regresso de rápida
viagem às Áfricas Portuguesas, um professor estrangeiro - homem extremamente liberal em
suas idéias políticas e que, por isso mesmo, enxerga "reaccionários" ou
"conservadores" em todos aqueles que não sejam de todo da sua ideologia - não
ter surpreendido tendências à democracia racial nem na Angola nem em Moçambique.
Tendências que se exprimissem em numerosos e actuantes mestiços.
Parece que seu contacto com as populações
dessas duas terras foi demasiadamente turístico e demasiadamente simplista: o dos que na
África - mesmo na Portuguesa só enxergam brancos e pretos. Só os extremos. Do
contrário teria numa e noutra terra - sobretudo em Angola encontrado, como tantos têm
encontrado, numerosos intermediários: pardos, alaranjados, morenos-escuros de várias nuances.
Gentes de "vária cor". Mestiços. Mestiços mais numerosos na realidade do que
nas estatísticas. Mestiços, alguns deles, em franca ascensão social. Não tão
numerosos, é certo, como no Norte do Brasil e em Cabo Verde. O ritmo de miscegenação
tem sido infelizmente mais lento naquelas terras do que no Brasil e nas ilhas do Cabo
Verde. Mas constituem já, os mestiços, um elemento considerável, pela sua actuação
social e cultural, na população de Moçambique e sobretudo na de Angola. Avantajam-se em
ascensão social e intelectual aos negros puros dos quais, com efeito, as administrações
portuguesas não têm cuidado, corno deviam vir cuidando, nem na Angola nem em
Moçambique, em elevar a cursos universitários e superiormente técnicos que os
preparassem para posições de liderança e responsabilidades de chefia - política,
industrial, agrária - nas duas Áfricas. Mas esta é também, em ponto menor, é certo,
uma deficiência do Brasil com relação a elementos mais rústicos ou mais arcaicos da
sua população de "vária cor", nem toda ela - quem o ignora? - inteiramente
nacional: em parte, ainda subnacional. Que o diga o ainda quase pária do hoje tão em
voga Nordeste.
A África Portuguesa tem 300.000 brancos em
Angola, 200.000 em Moçambique, aos quais se juntam, nessas duas áreas, mais de 300.000
mestiços e 19.000 asianos, muitos deles portuguesíssimos goeses. Quase um milhão de
brancos e mestiços aos quais devem ser acrescentados, nas mesmas duas áreas, os não
poucos negros já sociològicamente portugueses; e noutras áreas do continente africano,
os brancos, os mestiços, os assimilados da Guiné; e também os muitos madeirenses
estabelecidos na África do Sul; os portugueses residentes nos Congos; os caboverdeanos
numerosos - quase todos mestiços - que vivem no Senegal. Mais, como base de população
nacional, do que a base de população nacional predominantemente negra, de várias das
novas repúblicas africanas. É assim sua população de mestiços, de brancos
sociològicamente mestiços e de negros sociològicamente portugueses, uma das maiores de
toda a África, na qual existem, segundo os cálculos mais actualizados, para cima de
3.000.000 de mestiços, sem contarmos 60.000.000 de árabes e 1.000.000 de asianos; gentes
também de cor, entre as quais são muitos os mestiços. Poucos, é certo, em termos
apenas quantitativos, as gentes de "vária cor" e com sangue europeu e asiano,
para os 170.000.000 de negros de várias étnias - entre os quais, aliás, os fulas e
outros impuros - e de contraditórias culturas, espalhados pela pouco povoada África.
Porém consideráveis - mais de quarta parte do total da população do chamado continente
negro - dado o facto de virem sendo elementos mais socialmente dinâmicos, do ponto de
vista da modernização da África em nações, que muitas das populações negras em
estado apenas e estàticamente tribal; e de ordinário indiferentes, por sua condição
tribal, a aspirações ou a interesses pròpriamente nacionais, que são aspirações e
interesses encarnados quase sempre por negros destribalizados e arabizados; e por
mestiços e por brancos sociològicamente mestiços já integrados nos trópicos, embora
alguns deles, europeus em grande parte da sua formação intelectual, com os quais
rivalizam, aliás, vários negros intelectualmente europeizados, como os das elites das
Áfricas chamadas de expressão francesa. Ou as das Áfricas sob domínio até há pouco,
ou ainda hoje, britânico.
O que se verifica, porém, é que os negros
"assimilados" e os mestiços das Áfricas Portuguesas, além de por vezes
beneficiados por essa intelectualização, gozam quase sempre de regalias que lhes são
negadas nas inglesas e sobretudo na União Sul-Africana. Podem mestiços e até negros
casar, nessas Áfricas nisto afins do Brasil, com brancas, sem que tais uniões constituam
o escândalo que foi, há alguns anos, no democrático mundo anglo-saxónico, o casamento
de uma filha de Sir Stafford Cripps - grande inglês moderno de quem cheguei a receber,
estando ele já mortalmente enfermo, uma das cartas mais compreensivas e mais fraternas
que já recebi dentre as que me têm sido dirigidas em língua inglesa - com um negro
retintamente africano. É certo que, mais do que os portugueses, os ingleses e até os
franceses vinham fazendo, nos últimos decénios, de negros das suas Áfricas, bacharéis
e graduados de universidades, aptos a desempenharem funções políticas nas novas
repúblicas que viriam a ser criadas tão de repente. De alguns desses bacharéis note-se,
porém, que são descendentes de escravos que do Brasil regressaram no século XIX à
África, constituindo-se ali em grupos chamados de "brasileiros" que modificaram
em várias áreas estilos de arquitectura, hábitos de alimentação, ritos religiosos,
recreações, danças, música, dando-lhes um colorido brasileiro que permanece até hoje
e que cabe a nós, brasileiros, reavivar.
A presença da moderna cultura brasileira não
só nas Áfricas Portugueses como noutras Áfricas, vizinhas das portuguesas e ameaçadas
pela sombra do arianismo sul-africano, venho há anos insistindo em ser uma presença
necessária à animação, à orientação e ao desenvolvimento em nações democráticas
de gentes ainda presas a complexos tribais ou destribalizadas apenas em alguns dos seus
elementos: gentes de quem se sentem afins tantos brasileiros de procedência em parte
africana; gentes em quem se encarnam culturas que concorreram fortemente para a formação
da moderna civilização lusotropical do Brasil; gentes cujos sentimentos, cujos
problemas, cujas aspirações o brasileiro está em situação única de compreender,
tornando-se o mediador, hoje tão necessário, entre europeus e não-europeus. Entre
europeus empenhados em desenvolver estilos verdadeiramente democráticos de convivência
com os povos não-europeus desejosos de se afirmarem, ante europeus, em nações quanto
possível democráticas tanto no que se refira à democracia política - tão valorizada
pelos anglo-saxões - como, principalmente, no que signifique democracia económica - a
supra-glorificada pelos russos-soviéticos - e democracia racial. A democracia além de
racial, social: a que o Brasil vem desenvolvendo como um brasileirismo de valor, sem
nenhum exagero, universal. A que vem sendo elevada a ideologia brasileira por pensadores e
sociólogos nacionais.
Creio ter sido em algumas dessas ideias que o
Presidente Jânio Quadros se inspirou para iniciativas de renovação da política
exterior do Brasil, que vêm sendo seguidas pelo actual e ilustre Presidente da República
brasileira. Mas num e noutro caso, ao aspecto positivo dessa renovação juntou-se o
lamentàvelmente negativo de incluir-se com alguma precipitação e não menor simplismo a
presença portuguesa no Oriente e na África entre aquelas formas cruamente
"colonialistas" de relações de europeus com não-europeus que repugnam, como
não podiam deixar de repugnar, ao Brasil. Donde vir sendo, neste particular, o Itamarati
injusto com a gente portuguesa, falho de solidariedade com as gentes genuinamente
lusotropicais do Oriente e da África e prejudicial à própria gente brasileira e à sua
missão de líder do uma democrática política social de "vária cor" que se
contraponha tanto à de "branquitude", de europeus, como à de
"negritude" que vem sendo animada entre africanos por nacionalistas de
intenções dúbias.
Não faz muito tempo, o chefe da delegação da
Cruz Vermelha Internacional ao Congo, o dinamarquês Jorgen Norredam, tendo visitado nessa
categoria várias partes da África, comunicou ao jornal Svenka Dagbladet de
Stokolmo, de 20 de Março último - depoimento recentíssimo, portanto - ter encontrado na
Angola a parte da África onde mais avançadas se apresentam, do ponto de vista
democrático, as relações entre europeus e não-europeus. Compreende-se assim - segundo
esse dinamarquês idóneo - o afã de certos políticos africanos - refere-se
evidentemente aos que, incitados, em alguns casos, por agentes russos-soviéticos, fazem
da africanidade uma seita e da "negritude" (não é o caso do admirável Leopold
Senghor) uma mística intransigentemente anti-europeia - em considerarem a Angola o
principal obstáculo à deseuropeização da África. Deseuropeização do que poderia
resultar a fácil ianquisição ou a rápida sovietização ou a suspirada indianização
ou a calculada sinonização de grande parte do continente africano.
Que os políticos africanos de consciência
política e de ânimo democrático, se empenhem em movimentos, mesmo prematuros, que visem
a descolonização total da África, compreende-se. Mas não que se extremem, por mística
sectàriamente anti-europeia, na deseuropeização e até na descaracterização daquelas
culturas africanas já impregnadas, como a de grande parte da Angola - onde a quatro
milhões de pretos, quer em estado tribal, quer, segundo uma já arcaica terminologia
portuguesa, "assimilados", se junta mais de meio milhão de brancos, de goeses e
de mestiços - de influências saudàvelmente europeias; e que são culturas, dado o
sistema de relações entre europeus e não-europeus que vêm condicionando seu
desenvolvimento em culturas mistas, muito mais fluidas do que noutras partes da África; e
marcadas já por numerosos casos de ascensão de pretos e de mestiços a postos de
direcção na vida administrativa da Província, a posições de responsabilidade em
actividades intelectuais, clericais e económicas, ao casamento de pretos e pardos com
brancas e de goeses com pretas, ao convívio em termos de igualdade de pretos e de
mestiços com europeus. Os políticos africanos que se entregam àqueles extremos de
mística sectàriamente deseuropeizante da África revelam-se racistas tão repugnantes
aos brasileiros social e racialmente democráticos quanto os racistas arianistas da Europa
e dos Estados Unidos e os castistas da Índia. Tão repugnantes quanto os brancos
racistas, imitadores do belgas e de ingleses, que ainda agora existem nas Áfricas
Portuguesas.
Que estes são de todos os elementos que
comprometem a presença portuguesa na África, aqueles que mais concorrem para turvar a
solidariedade do Brasil, não só com o Portugal europeu como com aquelas populações
lusotropicais da Angola e das outras partes do mundo, integradas no mesmo sistema de
civilização racial e socialmente democrático que o Portugal de sempre - hoje já não
extra-europeu como europeu - vem criando; e com deficiências e erros, alguns enormes,
procurando desenvolver. Ilustre porta-voz do racismo que orienta a certas empresas para
alguns de nós, pouco lusitanas, da Angola e de Moçambique, chega a ser desdenhoso do que
considera, com o mais arcaico dos esnobismos, o mulatismo brasileiro. E nisto é
acompanhado, infelizmente, por alguns portugueses que, sociològicamente, não são
portugueses: são talvez belgas dos que administraram eficientemente o Congo e com igual
eficiência fizeram dos negros do Congo os mais terríveis anti-europeus da África.
Portugueses com vergonha de gostar de mulheres de cor. Portugueses anti-camoneanos.
Portugueses contrários à "vária cor". Portugueses anti-portugueses.
Enquanto se pronunciam anti-lusitanamente aqueles
raros portugueses desviados, na África, da vocação social e racialmente democrática de
Portugal, que escreve, em livro de fervorosa apologia dos africanos que se descolonizam, o
inglês Basil Davidson? Que a África deu ao Brasil colonizado por portugueses, negras
como a célebre matriarca Jacinta, fundadora de famílias hoje ilustres, de Minas Gerais;
e que por essas Jacintas se pode fazer idéia exacta do valor que a gente tribal africana
representa para a formação de novas sociedades de tipo nacional.
Também na África Portuguesa há hoje Jacintas
desse alto valor humano. Conheço algumas. Admiro-as. Respeito-as. Também com elas e com
seus filhos - mestiços de sociedades lusotropicais semelhantes à brasileira e culturas
afins da brasileira. São sociedades e culturas a que nós, brasileiros, continuadores dos
portugueses e de suas responsabilidades de criadores de sociedades e de iniciadores de
culturas democráticas nos trópicos, não podemos conservar-nos indiferentes.
Somos fraternamente sensíveis às aspirações
de independência desses povos. Somos fraternamente sensíveis às manifestações
lusotropicais dessas culturas, já diferenciadas da do Portugal europeu. Mas somos também
sensíveis - repita-se - às tentativas de novos imperialismos no sentido de absorverem
pela violência comunista esses povos e de descaracterizarem pela força capitalista essas
culturas. São agressões que nos atingem. São violências que nos ferem. Há para os
brasileiros, e não apenas para os portugueses, uma África, hoje, talvez, já mais irmã,
politicamente adolescente, do Brasil do que filha ainda menor politicamente de Portugal,
que nos dói. Que nos preocupa. Que nos inquieta. Que desperta nossa indignação quando
violada por intrusos. Que levanta nosso brio, quando agredida por estranhos. Que deve
fazer os nossos dirigentes clamarem com todo o vigor de suas vozes contra os novos
imperialistas de garras prontas para absorverem Angola e descaracterizarem Moçambique,
através de falsos libertadores que nem angolanos são; que em vez de português falam
francês e inglês; estranhos a Moçambique; nascidos fora da Angola.
Que Angola e Moçambique se tornem novos Brasis:
mas pela vontade da sua gente e não por imposição de agentes deste ou daquele império.
Pela sua gente e não por tais agentes.
Quando António José de Almeida, Presidente da
República Portuguesa, exclamou em 1922 na Câmara dos Deputados brasileira: "Venho
agradecer ao Brasil o ter-se tornado independente de Portugal" houve quem não o
compreendesse entre portugueses. Entretanto Almeida falara certo. Sociològicamente certo.
A independência brasileira, no plano político, não fez sendo reforçar a
interdependência entre todos os povos de língua portuguesa, no plano cultural, no plano
social, no plano económico, no plano da convivência supranacional em que vivem
fraternamente esses povos, cada dia mais conscientes das tradições e dos destinos comuns
que os prendem. A interdependência nesses planos é mil vezes mais importante que a
dependência no puro plano político.
Saibam agir como continuadores de José
Bonifácio os actuais líderes dos movimentos que procuram para as províncias portuguesas
mais distantes do Portugal europeu, maior autonomia que a actual, e a interdependência
entre os povos de língua portuguesa se ampliará e se aprofundará com essa maior
autonomia de cada uma das partes que compõem a vasta comunidade, hoje madura para
constituir-se em vigorosa federação lusotropical. Luso-brasileira só, não:
lusotropical. O que é preciso e que aventureiros fantasiados de portugueses não usurpem,
a serviço de qualquer dos quatro ou cinco imperialismos agora em conflito, na África e
no Oriente, o comando desses movimentos autonomistas a novos e honestos Josés Bonifácios
que se empenhem em criar quanto antes autonomias quase nacionais ou mesmo nacionais sem
destruírem ou comprometerem a interdependência essencial ao desenvolvimento dos vários
povos de expressão portuguesa no maior sistema de democracia exemplarmente racial e Deus
queira que também de democracia social, de democracia económica, de democracia política
jamais espalhado pelas quatro partes da terra: aquelas de que falava Camões ao saudar no
Brasil a "nova quarta parte".
Camões. Quem cita Camões no Gabinete Português
de Leitura do Rio de Janeiro está na obrigação de recordar Joaquim Nabuco. Foi no Rio
de Janeiro que o nome do brasileiro Joaquim Nabuco ligou-se para sempre ao do autor d'Os
Lusiadas. Ao nome, ao pensar, ao sentir do autor d'Os Lusiadas.
Há oitenta e dois anos, a 10 de Junho de 1880,
dizia em conferência proferida na então capital de um Brasil ainda monárquico, a
convite dos portugueses do Rio de Janeiro, o maior intelectual-político brasileiro da sua
época e, de todos os grandes brasileiros de qualquer época, o mais lucidamente devotado
ao culto camoneano, ver no sentimento de Pátria "um sentimento que se alarga, abate
as muralhas da China que o isolam" para tornar-se "cada vez maior" e cada
vez mais "um instrumento... de enlaçamento entre os povos". É como se
apresenta hoje a muitos de nós a interdependência que cresce entre os povos de
expressão portuguesa: como uma expansão do sentimento de pátria no de comunidade.
Pátrias independentes e comunidade interdependente. Povos enlaçados numa federação de
pátrias e de quase pátrias que se completem tanto com suas diferenças como com suas
semelhanças. E que serão a afirmação definitiva da capacidade de povos em grande parte
mestiços - gentes de "vária cor": mestiços de europeus com não-europeus e
contando em seu número negros, amarelos, pardos - para desenvolverem altas formas de
civilização moderna e de convivência sociològicamente cristã em terras tropicais. Que
estes são os nossos destinos comuns, de brasileiros e de portugueses: destinos que
ultrapassam a mística dos estreitos nacionalismos e não apenas dos inumanos racismos.
Dos dois grupos nacionalistas que se batem pela
chamada libertação de Angola sabe-se que um chega a ser sectàriamente, fanàticamente,
racista em sua mística de "negritude", nele estimulada, em grande parte, pelo
maquiavelismo de estranhos, interessados em lançar africanos contra europeus. São
expressivas, a esse respeito, as palavras de recente panfleto afroracista divulgado na
África contra Angola: "Angola não é dos brancos ... que lá nasceram nem dos
mestiços. Angola é dos negros, apenas dos negros! Os brancos e os mestiços terão que
desaparecer!".
Palavras que ferindo o que Angola tem de mais
democrático - a sua democracia social através daquela mestiçagem que vem sendo
praticada por numerosos luso-angolanos, ao modo brasileiro - fere o Brasil; e torna
ridícula - supremamente ridícula - a solidariedade que certos diplomatas, certos
políticos e certos jornalistas do Brasil de hoje pretendem, alguns do alto de
responsabilidades oficiais, que parta de uma população em grande parte mestiça, como a
brasileira, a favor de afroracistas. Que afinidade com esses afroracistas, cruamente
hostis ao mais precioso valor democrático que vem sendo desenvolvido pela gente
brasileira - a democracia racial - pode haver da parte do Brasil? Tais diplomatas,
políticos e jornalistas, assim procedendo, ou estão sendo mistificados quanto ao
afroracismo, fantasiado de movimento democrático e de causa liberal, ou estão sendo eles
próprios mistificadores dos demais brasileiros. Nós, brasileiros, não podemos ser, como
brasileiros, senão um povo por excelência anti-segregacionista: quer o segregacionismo
siga a mística da "branquitude", quer siga o mito da "negritude". Ou
o da "amarelitude".
Tais segregacionismos são, no mundo
crescentemente inter-relacionado, em que vivemos, absurdos sociológicos. Absurdos
biológicos. Tão absurdos que a própria África do Sul, a despeito de todas as suas leis
segregacionistas, está cheia de mestiços. Cheio de mestiços está o Sul dos Estados
Unidos. Mestiços aos quais também se estende a solidariedade brasileira.
Há dezenas de anos, Wells já observava, no seu
famoso Outline of History, resumindo o melhor saber biológico de sua
e de nossa época, terem as variedades de Homo Sapiens resultado de
diferenciações sòmente tornadas possíveis pelos longos períodos de segregação
vividos por vários grupos humanos em diferentes partes do mundo, por falta quase absoluta
de meios físicos de comunicação entre eles. Essa segregação se tornara impossível
com as modernas comunicações, com a moderna riqueza de contactos entre homens dos grupos
mais distantes uns dos outros no espaço físico. Já não estaria, provavelmente,
ocorrendo, - pensava Wells há quase meio século - nenhuma diferenciação do ponto de
vista biológico mas, ao contrário, crescente reunificação das variedades de Homo
Sapiens: "Men mingle more and more. Readmixture is now a far stronger force
than differentiation".
O que fez outro anglo-saxão ilustre, Roy Nash,
considerar o brasileiro, mais próximo do que qualquer outro povo de constituir uma
síntese completa, no sentido daquela reunificação; e a expressão, como tal, de um
drama biológico de "tremenda importância" - palavras de Nash - para todos os
homens. Drama biológico desdobrado em drama sociológico é o que é hoje não só o
Brasil como todo o mundo de expressão portuguesa. Somos a antecipação de uma tendência
que não tardará a generalizar-se a outros povos.
Toda a antecipação importa, porém, em dor. A
mestiçagem em que nos antecipamos, os brasileiros, a outras democracias modernas, por
vezes nos aflige. Por ela temos sido mais de uma vez ridicularizados. Desprezados por
povos com pretensões a serem de raça pura. Insultados por esnobes convictos de
pertencerem a raças superiores aos grupos mestiços.
Mas é através dessa dor que estamos
contribuindo, os brasileiros, como descendentes de portugueses e continuadores de
portugueses, mais do que qualquer outro povo, para a reunificação do Homem. A
mestiçagem reunifica os homens separados pelos mitos raciais. A mestiçagem reúne
sociedades divididas pelas místicas raciais em grupos inimigos. A mestiçagem reorganiza
nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas
superstições raciais. A mestiçagem completa Cristo. A mestiçagem é o verbo feito
homem - seja qual for a sua raça - e não feito raça divinamente privilegiada: hoje a
branca, amanhã a amarela ou a parda ou a preta. A mestiçagem é a democracia social em
sua expressão mais pura. Sem ela fracassa o próprio Marx no que a sua ideologia tem de
melhor.
Somos nós, brasileiros, descendentes de
portugueses, continuadores de portugueses, os maiores responsáveis modernos pelo êxito
dessa mensagem, hoje de significação tão grande para os homens de todas as partes do
mundo. Que em todas as partes do mundo há quem ponha acima de regimes que dêem, ou
procurem dar, às populações, o puro bem-estar material que os belgas davam aos negros
do Congo, sistemas de convivência em que o negro possa ser, através de iguais
oportunidades, igual ao branco, o pardo igual ao amarelo, o moreno igual ao louro, o judeu
igual ao ariano.
Sendo assim, quando Goa deixa de ser portuguesa
para correr o risco de voltar aos extremos do regime de castas, que ainda degrada a
Índia; quando da Angola se quer fazer, em vez de outro Brasil, outro Congo, dividido pelo
ódio de negros contra brancos e de pretos contra mestiços; quando de Moçambique se
pretende fazer colónia da União Indiana em vez de província portuguesa a caminho de ser
também novo Brasil - a perda não é só para Portugal: é também, no plano ético e no
plano cultural, para o Brasil; para o que o Brasil representa como moderna população, em
grande parte, mestiça; e como civilização mista em que a valores europeus se juntam
fecundamente valores não-europeus. Mais: é perda para toda a humanidade em marcha para a
reunificação do Homem através de uma mestiçagem de que Portugal já não se envergonha
e o Brasil já não se desculpa perante ingleses ou escandinavos, argentinos ou
canadenses. Pois como meia-potência o Brasil em grande parte mestiço não pé inferior a
nenhuma meia-potência de brancos de hoje. Como novo tipo de civilização moderna nos
trópicos o Brasil não é inferior a nenhum outro tipo de civilização moderna em terras
ardentes. Suas possibilidades, que apenas se esboçam, são, sem nenhum exagero, imensas.
Desmoralizam todos os Gobineau. Porque com os modernos triunfos brasileiros se afirmam as
vantagens da democracia racial e se desmancha o mito daqueles perigos mortais outrora
atribuídos por sociólogos levianos e por biólogos precipitados tanto à mistura de
raças como à vida em espaços tropicais: dois riscos que o português soube enfrentar em
larga escala, unindo seu sangue aos de gentes de cor e espalhando-se por algumas das mais
ásperas regiões quentes da Ásia, da África e da América. E triunfando. Criando Goas e
criando Brasis. Criando Cabos Verdes e criando Angolas. Criando Moçambiques. Criando
mestiços. Criando o bandeirante. Criando o sertanejo. Abandonando o frio das Terras Novas
aos ingleses e o temperamento das Áfricas do Sul a holandeses, a brancos, dos chamados
puros: povos cheios de pavores dos trópicos. E aceitando o desafio dos trópicos.
Respondendo a esse desafio com a mestiçagem. Valorizando terras quentes e demonstrando a
capacidade das gentes mestiças e o valor das culturas mistas para desenvolverem, nessas
terras ásperas, as mais altas formas de civilização.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Brasil em face das Áfricas negras e mestiças.
Rio de Janeiro: Federação das Associações Portuguesas, 1962. 48p.
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